Eu tenho uma amiga com quem sempre converso sobre medos, são conversas um pouco assim:
Ele me ligou, que medo.
Não me ligou. Não disse nada. Medo.
Ligou e falou que não pode ficar um segundo sem pensar em mim. Medo.
Está pintando uma oportunidade de trabalho. Medo.
Estou sem trabalho nenhum, medo.
Estou enjoada do meu trabalho. Medo.
Estável demais.
Instável demais.
Medo.
Bonita demais naquele dia, todo mundo olhou, medo.
Feia demais, ninguém nem reparou na existência.medo.
Uma pinta na boca, um olho vermelho, uma bola no nariz. Medo.Cãncer, catapora, encefalite, conjuntivite.
Medo de assalto, medo de roubo, medo de um monte de coisa.
Conversamos que às vezes até sair dá medo, olhar, conversar, estar na rua com gente estranha.
E conversamos que às vezes dá medo, muito medo mesmo, fazer exatamente aquilo que a gente gosta, e fazer exatamente aquilo que a gente quer.
E esse medo é o medo a ser mais combatido.
Morremos de medo, eu e essa minha amiga, e ainda assim, não deixamos de fazer nada. Ou quase nada. Não... mentira.
Eu deixo de fazer algumas coisas, por medo, talvez mais até do que eu perceba. Não me faz a menor falta pular de asa delta ou páraquedas de uma pedra gigante, tenho medo mesmo e é isso aí, posso morrer sem, mas às vezes tenho medo de ser verdadeira comigo mesma, tenho medo de escrever, tenho medo do novo, do encontro, de me perder, tenho medo de mim e de assumir o que sinto.
Essas horas são horas de frio na barriga, e a gente faz a maior força e aguenta.
Ligamos uma para outra, ligamos para mais outros amigos que também não têm medo de assumir seus medos.
E nos cuidamos e tomamos coragem, e tomamos aspirina, acupuntura, remedinho, vodka, Tomamos banho, coca cola e chopp, passamos batom, colocamos salto ou saímos de havaiana mesmo, vamos para a análise, para a casa da mãe, pro bar, pra rua, pro cinema, saímos de casa.
Nessas horas a gente tenta fazer de tudo para enfrentar os medos.
às vezes fechamos os olhos e vamos em frente, de uma vez e com tudo, às vezes saímos de casa bem devagarinho, com muita cautela e aos poucos, quase como se não estivéssemos lá. Às vezes deixamos para um pouco mais tarde, o enfrentamento, porque ainda não era a hora.
Mas de qualquer jeito, como eu falo para os meus alunos do sexto ano, é sempre bom, nas noites de mais medo, tomar coragem e olhar logo debaixo da cama e dentro do armário, pois um monstro enfrentado é geralmente menos assustador que um monstro escondido.
E às vezes esse monstro pode ser fundamental , porque era, simplesmente, o desconhecido, o novo e, afinal, o desejado.
A gente não é daqueles ou daquelas que não sentem medo de nada, mas temos nossa valentia, até porque desejamos tanto da vida, que precisamos ser muito valentes mesmo. Ficamos até com medo do tamanho da nossa vontade de viver. E a vontade ganha, porque somos a favor dela, e não do medo.
e é pela vontade de viver, e não por medo, que vivemos.
E quando a coragem falha, as amigas estão aí, para lembrar a gente disso.
ainda bem.