segunda-feira, 30 de julho de 2007

Três filmes tristes

Outro dia, conversando com amigos, falávamos sobre filmes tristes. Filmes realmente tristes, que dóem de tão tristes que são, que mal dá vontade de revê-los, embora sejam obras primas. Conversamos, e fiquei pensando...
para mim, há três grandes filmes tristes, que entram nessa categoria, sendo que um deles é talvez um dos filmes que mais amo, As noites de Cabíria, do Fellini.
Outros dois granes filmes tristes são Ladrões de Bicicleta, do Vittorio de Sica ( 1948) e Dançando no escuro, de Lars Von Triers.












A tristeza nesses filmes não é uma tristeza curtida, blue, uma tristeza redentora, a tristeza nesses filme é profunda, de um mundo sem justiça e sem final feliz, onde vivem pessoas profundamente belas que lutam e não desitem de seus projetos, que não desistem, ainda assim, de amar.


Também não são filmes que pretendem ser o tal do soco no estômago, que pretendem mostrar a realidade assim como ela é, nada disso. São histórias tristes, de perrsonagens maravilhosos, e, nos três filmes, personagens que, a despeito de tudo, lutam por seus amores , filhos, pela possibilidade de alegria e conquista. Mesmo sem escapatória, sem redenção final, mesmo os personagens caindo quadro a quadro, findos os créditos, fica um estranhamento diante do mundo, uma raiva das injustiças, mas também algo é preenchido, pois pelos três paira um ar de que nas pequenas pessoas, bem pequenas, bem ferradas, há um mundo inteiro, e que devemos tomar cuidado, pois ele pode ser, e é, destruído a qualquer instante.





A vida, em cada um desses filmes, é uma vida que se alimenta de esperança, da mãe em relação ao filho, do pai em relação ao filho,esperança nos homens e no amor, de uma prostituta solitária e maltratada. São personagens em busca de possibilidades de uma vida mais inteira, de construção, em meio a um mundo inóspito.






Ladrões de biclicleta é um filme clássico, do neo realismo italiano. Filmado no pós guerra, mostra um país destruído e em grandes dificuldades. Um filme sobre pais e filhos, sobre o amor dos pais, e essa relação que se estabelece entre o pai e sua prole, que aliás - tenho a impressão - não é tão retratada no cinema e nas artes em geral quanto as relações entre mães e filhas. A história se passa logo após a Segunda Grande Guerra, com a Itália destruída e o povo passando necessidade. Ricci (Lamberto Maggiorani) consegue um emprego após muita espera. Só que esse emprego, de colador cartazes na rua, lhe pedia como obrigação uma bicicleta. Ricci e sua mulher Maria (Lianella Carell) conseguem um dinheiro para uma, possibilitando que ele realize o seu trabalho, aquela bicileta representa a possibilidade de comida na mesa, de recuperação da dignidade do pai. O menino Bruno (Enzo Staiola), filho do casal, acompanha todos os passos. Logo no primeiro dia de trabalho, a bicicleta é roubada. Pai e filho mergulham pelas ruas da cidade, à procura da bicicleta.




Dançando no escuro é outro filme que dói. Um filme que ultrapassa todas as regras de até onde a tragédia pode ir. Quando achamos que Selma, a personagem magnificamente interpretada por Björk não pode se ferrar mais, algo acontece e ela cai mais fundo, até o fim. Nele, as músicas de A noviça rebelde são desconstruídas uma a uma, virando do avesso um musical sobre a liberdade e a união familiar, e virando pelo avesso a própria noção de musical. Selma, que tem uma doença degenerativa e hereditária nos olhos, é roubada também. E como é cruel o roubo daqueles que não têm mais nada. Selma perde o dinheiro duramente economizado para a operação de seu filho, para que seu filho possa enxergar, e então se envolve em uma série de acontecimentos inexoravelmente trágicos. Não há nada de dramalhão na condução do filme, que é árido como são os filmes do diretor, e sustentado por duas magníficas atrizes, Björk e Catherine Deneuve, que emprestam às suas personagens uma força e uma capacidade de esperança comoventes. Uma história de amor de mãe.






Noites de Cabíria é um filme quase patético, a personagem, Cabíria é uma prostituta que não somente acredita nos homens, como também crê no amor e na vida. Isso é o que há em comum nesses três filmes, e que machuca, mas é bonito ao mesmo tempo. Sempre, até o fim, há o amor pela vida, apesar dela mesma.
Cabíria é constantemente enganada, ludibriada, humilhada, esquecida - faz tudo, absolutamente tudo pelos homens que crê que ficarão com ela.
Também perde tudo, também se ferra, mas ao final ainda guarda um sorriso e, sem nada, dança no meio da rua.

Fellini, sobre o filme, escreveu o seguinte texto, que encontrei na revista Contracampo e cito em parte aqui:


(...)

É sempre difícil remontar justo à fonte da inspiração, mas eu poderia contar a esse propósito como nasceu o fim de Noites de Cabíria. Ele não nasceu apenas como fim, mas também como a idéia geradora de todo o filme. Quando um certo jornal de esquerda me acusou de ter uma atitude evasiva perante a realidade, de nunca sugerir nas minhas histórias uma solução, um ponto de vista preciso, esforcei-me em agir com humildade sem levar em conta a irritação que senti ao ler coisas que realmente não esperava, e disse a mim mesmo: efetivamente, Zavattini e de Sica sugerem a inscrição a um partido, assim como sugerem alguma coisa a seus personagens, dão-lhes uma direção, e isso porque eles têm uma certa fé que eu não tenho, ao menos não num sentido preciso. É por isso que, ao fim de seus filmes, suas histórias e seus personagens satisfazem mais que os meus. Então eu me disse: talvez esses senhores tenham razão. A meus personagens, não termino por dizer ao fim do filme: “Vocês compreenderam direitinho, é preciso comprar tal jornal, ou também é preciso se casar, ou também ir à igreja...”. Não termino por lhes dizer nada.

No fundo, essa é uma atitude muito inumana da parte de um autor perante seus personagens. Portanto, investindo toda minha boa vontade (como se eu tivesse enfim resolvido dizer a meu personagem: “Você compreendeu bem, você fará isso ou aquilo”), me perguntei: “O que vou lhe dizer?”. E depois de pensar sobre isso durante muito tempo, percebi que não saberei o que lhe sugerir, porque não sei o que dizer a mim mesmo. Assim sendo, aos meus personagens, que são sempre tão infelizes, a única coisa que poderei oferecer será minha solidariedade: e assim poderei, por exemplo, dizer a um deles: “Escuta, não posso te explicar o que não sei, mas, em todo caso, te amo o suficiente e te ofereço uma serenata”. E assim, para Noites de Cabiria, pensei: quero fazer um filme que conte as aventuras de uma infeliz que, a despeito de tudo, espera confusamente, ingenuamente, por melhores relações entre os homens, simplesmente melhores relações; e ao fim do filme quero lhe dizer: “Escuta, fiz você passar por todo tipo de desgraça, mas você me é tão simpática que quero compor-lhe uma pequena serenata”. E depois, sobre essa idéia talvez um pouco ingênua, imaginei uma cena. Tratava-se de uma mulher, de uma personagem infeliz que, ao fim de uma aventura ainda mais terrível que as outras, deveria perder de maneira absoluta e definitiva sua confiança na humanidade que a rodeava. E então me perguntei: por que essa personagem, num dado momento, não pode se convencer de que há alguém que lhe diz gentilmente e com simpatia: “Você tem razão”? E assim essa personagem se tornou Cabiria, e suas aventuras se tornaram aquelas de uma prostituta que vive como um pequeno camundongo num meio aterrorizante, continuamente esmagada pela realidade, mas que atravessa a vida com inocência e aquela misteriosa confiança. Ao fim do filme eu a faço encontrar um grupo exuberante de pessoas bem jovens, de uma humanidade ao limiar da vida, que gentilmente, debochando um pouco mas com candura, exprime-lhe sua gratidão cantando uma canção. Foi dessa idéia que, finalmente, nasceu todo o filme.

(O texto inteiro, que fala também sobre o amor que Fellini sente por sua mulher, está aqui : Adaptar o personagem ao autor ).

Não quero rever Dançando no escuro nem Ladrões de bicicleta. Revejo de vez em quando Npites de Cabiria, porque no final, há uma serenata. São entanto, grandes filmes.

Três filmes tristes. Necessários.

















em tempo:





E agora, agorinha mesmo, leio nos blogs amigos que Bergman morreu. Ele, autor também de filmes tristes e de sombras.
Foi coincidência, ou não, esse post de hoje.

fica aqui, então, uma serenata,

e o sorriso de Giulietta, Cabíria, para o Bergman.























domingo, 29 de julho de 2007

Descoberta

Na verdade, o Alex sou eu.




o Alex não existe, o Alex é uma invenção da lulu.




A máscara caiu.





cedo ou tarde, alguém ia perceber que o Alex, na verdade, é uma mulher...

P.S.: Os gatos comeram o Oliver.

fui descoberta.... sou homem.

Viviana Fernandes escreveu para mim o seguinte comentário sobre o diário em geral e seu estilo:


Viviana Fernandes disse...

Lulu ( ou devo chamá-la de Alex ou de Sérgio?).

eu fico sempre super-intrigado com homens que se fazem passar por mulheres assinando blogs como tais. Pq isso se dá? Freud explica?.... lendo seus posts com atenção, eu percebi que vc não pode ser mulher, derrapa justamente nos pontos cruciais do engôdo. Não quero supor que vc seja portuguesa (as mulheres portuguesas na net usam pseudônimos em INGLÊS!!! – viva a língua de Camões!!! - e jamais da vida que poriam um só foto delas num blog, afinal, a famìlia portuguesa ainda continua medieval...) e nem tampouco dessas mulheres complexadas com o aspecto físico delas. Só sobra mesmo o fato de vc ser HOMEM. Depois que vi que vc tem outro blog no qual usa um ou dois nomes masculinos, aí eu cheguei à conclusão que vc nem é mulher e nem portuguesa! (risos)

Mas...explica: pq um homem quer se passar como uma mulher assinando um blog como Lulu ???

29 de Julho de 2007 06:49


Viviana,
eu te peço, fale-me mais sobre isso. Pleaaasseeee!!!Em quais momentos cruciais do engodo eu derrapei ? Juro, é importante para mim, adoraria saber, onde foi que errei...

Obrigado,
Alex. Ou Sergio? ...

p.s.:
claro que se fosse passar por uma mulher portuguesa, não falaria tanto de depilação, né? elas não passam por essas coisas...



sábado, 28 de julho de 2007

às vezes, o tempo.

e às vezes parecia que a vida mal bastava, que tudo estava já feito e programado desde o sempre e não, não havia espaço para surpresas ou novidades, e não, não bastava, não era suficiente e se queria mais. Era um pouco injusto, era um pouco injusta, ficava até sem jeito de querer tanto, ela que tinha tanto e tanta sorte, mas fazer o quê? pior era a possibilidade do desperdício dos dias, de si. Queria um desconforto, queria uma corda bamba, o chão e o norte eram bons também, mas às vezes era bom sentir que lhe tiravam do eixo, que lhe enfraqueciam as pernas. Queria o escuro do não saber onde vai dar, queria que o tempo passasse depressa, muito rápido, pois a espera de que tudo acontecesse às vezes era tão difícil. Às vezes era só impaciência, e queria tudo ao mesmo tempo, e até respirar ficava difícil. Às vezes tinha a impressão de que podia viver numa eterna festa, e dançaria, e dançaria, até ficar molhada de suor, as mãos para cima, e dançaria a noite inteira, e aguentaria mais, sempre. Ou então, ou então podia viver numa eterna sessão de cinema, vendo ininterruptamente os filmes mais lindos da sua vida, chorando e rindo, e comendo pipoca, e beijando a pessoa amada, cada filme com uma pessoa, de uma fase da sua vida, família, amigos, amores, e ela diria: lembra? e se emocionaria, pelo filme, por si mesma.
Ou então, ou então, podia viver num pilequinho absoluto e contante, não num porre de passar mal mas assim meio flutuando, meio irresponsável, jogando charme para as paredes, meio boba e bem atenta e rápida, do jeito que ficava quando bebia um tanto. Ou então, ou então, em meio ao cansaço bom do exercício, o corpo suado, aquele instante onde o fôlego recuperou-se e o coração entrou numa constante batida acelerada, como uma espécie de transe, e depois sente-se bem. Ou então, ou então, podia viver o tempo inteiro de amor. Amor não, hoje podia viver o tempo inteiro de paixão. porque amor era para outras vezes. e às vezes, hoje, o tempo deveria ser mais rápido.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Essas mulheres...

Há as mulheres abertas, e há aquelas fechadas.
Gosto das mulheres abertas, abertas para a vida, para novas experiências, para o flerte. Que dizem assim com os olhos: oi, pode vir, a porta está aberta, trate-me bem e serás bem vindo. Mulheres que se cuidam, e se esquecem de se cuidar e dizem consigo mesmas: ai, ai, ai... oh meu deus, e não é que ontem comi cinco pedaços de pizzza!!? e balançam a cabeça, enquanto medem a cintura irremediavelmente maior. E no dia seguinte dizem, : oh meu deus, e não é que hoje não comi nada? esqueci de comer? e balançam a cabeça, enquanto medem a cintura, que continua irremedavelmente maior, sempre maior. Mulheres inteligentes, que choram, choram, e falam alto também. Lutam, brigam, dão escândalo, ou pedem passagem somente com um olhar. Mulheres que riem de si mesmas, que gostam de mulheres, que gostam de homens, que acham eles lindos e não curtem ficar só se lamentando. Mulheres maravilhosas, mulheres inseguras.
Ai, como somos inseguras, as mulheres.

ai, como é bom estar viva.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

O duelo do século: sushi e meleca



Esse é o sushi, aquele que se escondeu debaixo da geladeira por sete horas consecutivas, deixando sua dona mais louca que o normal.



para saber mais sobre a história do desaparecimento do Sushi, e saber com se vestem os blogueiros, clique aqui.















Essa é a Meleca.

Sobre o nome da gata, deixem-me explicar (minha mãe já ligou reclamando: o que as pessoas vão pensar, ao saber que você dá esse tipo de nome para seus bichos amados, lu?),
é o seguinte, já contei isso em outro canto, mas vamos lá, conto de novo, em nome da boa fama e reputação desse diárioe da casa da Lulu:
quando chegou em casa, com fome, frio e sede, abandonada e tal, a Meleca chamava-se Mel. Aí o maridón achou que Mel tinha muito nome de heroína da novela da globo, e no veterinário havia mais umas vinte gatas e cadelas chamadas Mel. Não podia ser. Virou Melancia. Até o dia em que a Helena veio nos visitar.
Que melancia nada, é Meleca!
e meleca ficou.
Chamo de Melequinha, acho meigo.



A Melequinha era a princesinha do oeste, mas andava solitária. precisava de uma companhia para alegrar seus dias de apartamento. Apareceu o sushi. A Melequinha espantou o Sushi. Foi um horror.
Quase não o víamos, ele ia dessa casinha para debaixo da geladeira. Esqueçam o Wally, o passatempo daqui de casa passou a ser:

Onde está o Sushi???









Até que, ontem, passados três dias, o Sushi pôde finalmente dormir em paz, no meio da sala, em cima da poltrona.

Foi lindo.

A Melequinha deu um descanso pro cara.





Conseguirá o Sushi dormir em paz e ter uma vida feliz ao lado de sua nova e irritadiça amiga?????







Conseguirá a Melequinha fazer novas amizades, perceber que tudo bem haver mais alguém como ela no mundo, dividir a comida, a areia e o colo da dona, e ainda ficar feliz com tudo isso?????













O suspense paira sobre a casa de Lulu.

porque eu amo alguns blogs portugueses




"A estas alturas da história uma gaja só se pode considerar ser social se a meados de Maio já tem no mínimo cinco convites para bodas várias pendurados no frigorífico. Ex-colegas da faculade, a filha da porteira, esse gajo com quem bebiamos copos nesse tempo em que amanhã não havia que trabalhar, o primo em segundo grau do marido que vive no Luxemburgo e a quem nunca ninguém lhe viu a fuça, maltosa do trabalho, un puto coñazo, com todas as letras e a ruina total das férias, porque o povo quer casar no verão que é quando está bom tempo e as gajas podem ir todas descascadonas e com os pés à mostra dentro de horrendas sandálias prateadas. De convites de papel amarelo sépia com letras góticas aos modernaços que imitam maços de tabaco, os nubentes têm um mundo de possibilidades para anunciar ao mundo o feliz acontecimento que normalmente acontece numa quinta no cu de judas e sem táxis à vista lá para o interior do país. Agosto, saltos altos, Lavacolhos de Cima e centenas de desconhecidos mascarados de finos, que perspectiva fascinante, oyes."


( continua, no blog da RITITI)



"Gosto de Woody Allen. É um reaça à moda antiga. Um judeu dos duros: «olho por olho, testículo por testículo». Depois de doze anos numa relação com Mia Farrow, alguma descendência adquirida no mercado asiático (muito em conta) e uma fecundação bem sucedida, levou tampa devido a um pequeno caso de violação de uma das filhas de Farrow e fotografias eróticas de outra com quem acabaria de casar por despeito. Ele, com 57, ela, 22. Percebeu a vaca-pau-de-vassoura-cabelo-de-esfregona que Farrow era e iniciou o plano de vingança. Não o censuro. Também eu, a cada esquema mal sucedido de levar para a cama pequenos diabos com maminhas, me apetece despejar as minhas frustrações na sua irmandade (rapazinhos ou rapariguinhas) de sete anos. Além do mais, Woody Allen/Harry Block/Isaac Davis/Alvy Singer teve o seu primeiro casamento aos dezanove anos, com Harlene Rosen (16), prova de sólido reaccionarismo. Seis anos mais tarde (1962), do alto do seu metro e sessenta e cinco acabou a relação com uma placagem à futebol americano (literalmente), que lhe valeu um processo de um milhão de dólares por violação (como não chegou a haver penetração pode-se dizer que estamos perante o primeiro caso de preliminares à bruta). Entretanto, ainda papou Stacey Nelkin, andava esta no liceu pavoneando-se com dezassete afrodisíacos aninhos. Por fim, concretizou o sonho de qualquer conservador que se preze, capitalizando lascivamente uma amizade colorida com o equivalente glamouroso de uma professora primária: Diane Keaton."
do blog do Tiago Galvão.

sério. os portugueses, quando escrevem bem, têm um estilo elegante, sarcástico e preciso que é foda. e usam palavrão de uma maneira direta e crua que aqui por aqui, em meio a nossa pretensa cordialidade, não conseguimos usar. sou fã, especialmente desses dois.

e para nao ficar somente na babação para os de além mar, leiam a série que a gabi , do fogo nas entranhas fez sobre casamento. Imperdível.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Um lugar, na platéia


Acabei de rever o filme Um lugar, na platéia. Está em cartaz já há algum tempo, em SP ainda é possível ir vê-lo no Belas Artes, numa daquelas salinhas chinfrins e com som ruim. Mesmo assim, vale muito, mesmo.

Ando em crise com o cinema.
São poucos, bem poucos, os filmes recentes que eu vi e saí com a sensação de ter visto um belo filme.
Há, ao meu ver, uma crescente infantilização do que é produzido no cinema, e isso não é apenas porque o maior público de cinema é adolescente. Isso é também porque nós, adultos (hahahaha), vamos também, cada vez mais, a filmes de crianças.

Sim, eu fui ver Harry Potter.
Também vi homem aranha 1, 2 e 3. Vi Shreck 1, achei o máximo, vi Shreck 2, achei fraco, não vi o três, obrigada. Piratas do Caribe, quarteto fantástico, onze homens e tantos segredos...
o que mais? Desenhos animados, filmes de super heróis, refilmagens, sequências...
Vi tudo isso, não me empolguei com nada.

Eu AMO filme pipoca, aqueles que a gente vê para se divertir, e não para pensar sobre o mundo, deus e sua época. Não tenho nada contra, e não é novidade que em Holywood há no máximo dez roteiros básicos que são refeitos e travestidos de novidades: menino encontra menina, depois desencontra, depois encontra de novo, professor fodona que muda toda a escola decadente, herói em crise na vida que se vê obrigado a salvar sua família e o mundo e com isso recupera sua dignidade, e assim por diante... ok.
São filmes bacaninhas e a gente vai ao cinema assisti-los por isso mesmo. Porque sabe o que esperar, porque é confortável, gostosinho, como um sanduíche ou um bom prato de batatas fritas. Há um certo conforto na repetição, somos um pouco como crianças, que gostam de ouvir sempre a mesma história. Eu adoro batatas fritas, mas há fritas e fritas.

O que acontece é que mesmo os blockbusters estão cada vez piores. Não há personagem, o enredo não se sustenta e efeitos especiais tecnicamente perfeitos escondem filmes fracos, muito fracos, mesmo como entretenimento. Melhor ficar em casa, assistindo Dr House.


Do outro lado, há os filmes denúncia, que mostram o mundo cão e tal. Esses também me enchem. Ou os filmes cabeçosos, que às vezes são bons, às vezes, insuportáveis. Ou, ainda, filmes com criança, velhinhos ou cachorros. Tenho uma teoria sobre filmes argentinos, por exemplo: sempre tem ou uma criança, ou velhinhos, ou cachorros. Já repararam?

pois é... falta, muito, um bom filme despretensioso que, simplesmente, conte uma boa história, com bons personagens, essas coisas. Nem estou pedidndo uma fotografia artística, uma trilha sonora interessante, algum espanto ou originalidade narrativa, nada disso. Simplesmente, uma boa história, bem contada, através de imagens em movimento.

O filme Um lugar, na platéia é um filme assim.

A construção do enredo não tem nada de original, e no começo dá até um certo nervoso por causa disso. Trata-se da fórmula que o Robert Altman fazia tão bem, e que virou meio modinha quando o filme quer ser alternativo: várias histórias de personagens marcantes, autônomas entre si, que se entrecruzam no final ou durante o filme.

O lugar de cruzamento dos personagens do filme é um café parisiense, que fica em frente ao Ritz, ao lado de uma casa sofisticada de leilões, um teatro bacana, uma sala de concerto. Logo no início a singularidade do lugar é explicada: não há na região um supermercado, uma mercearia, um boteco, qualquer outro lugar que seja simples, onde seja possível comer um sanduíche de presunto honesto e barato. Por isso, o tal café é frequentado tanto por varredores de rua quanto por hóspedes chiques do Ritz ou artistas que querem se sentir um pouco normais de vez em quando ou querem, simplesmente, tomar um café.

A protagonista do filme, Jessica, é uma moça simpática que veio do interior da França viver um pouco do luxo e do glamour de Paris. Como não é rica, vai trabalhar em lugares luxuosos. A certa altura ela diz que tudo o que quer da vida é um bom lugar na platéia, que não seja nem muito longe, nem muito próximo da orquestra. E aí está a maior qualidade do filme, e a razão pela qual quis resenhá-lo aqui. Em meio a grandes personagens, que são grandes artistas cheios de talento e realizações, a personagem principal é uma espectadora. Uma mulher bacana, sem grandes pretensões a não ser curtir o que há de bom por aí.
Essa é a grandeza do filme, sua simplicidade e a absoluta falta de pretensão com que a arte e o fazer artístico são tratados.

Freqüentam o café um senhor de idade, colecionador de arte que venderá, em três dias, toda a a coleção que construiu ao longo da vida inteira. Uma atriz adulta, que está para estrear, no teatro, uma comédia de costumes e é a personagem principal de uma novela de sucesso que, para o seu desgosto, lhe dá fama e, principalmente, um dinheiro irrecusável. Um grande concertista, pianista, que não agüenta mais sua vida de concertos carésimos entre Japão e Europa, agendados até o ano de 2012.
Todos hiper e absolutamente bem sucedidos. Todos em crise, e todos, e isso é o que emociona, absoluta e sinceramente apaixonados por aquilo que fazem, pela arte.

A crise de todos eles tem a ver justamente com uma espécie de glamourização e importância excessiva que se dá à arte, ao ser artista, à posse de obras de arte, ao dinheiro, ao que supostamente é chique e de bom gosto. Em meio a isso, o prazer se perde.

E o filme trata disso. Do prazer que se sente ao ver uma escultura que nos toca, que faz com que sintamos vontade de nos apaixonar. Do prazer de ouvir um concerto de piano, de ver uma peça engraçada. Prazeres simples, que no entanto ficam inacessíveis a pessoas como Jessica, a garçonete.

E não é preciso, muita atenção nessa hora, não é preciso que a arte seja chata para nos dar esse tipo de prazer.
É um prazer simples, uma boa obra de arte também é divertida, também nos retira do nosso dia a dia, também entretém, mas mais do que isso: nos lembra de nossa humanidade, dá uma vontade da gente ser melhor do que é, de viver uma vida mais inteira, mais corajosa, de Ser. Um bom livro não é um livro chato, um bom filme não é um filme que nos faz sentir nojo do mundo ou que nos faça sentir burros ou com sono, uma boa escultura ou pintura não é algo que não entendemos ou que, ao vermos, pensamos assim: nossa, como é fácil a vida de artista, até meu filho de quatro anos faria isso. Boas obras são aquelas que nos tocam, seja porque razão for, mas nos lembram de que a existência é algo que vale ser vivido.

O lance é que somos mais interessantes que o homem aranha e sua banal dualidade preto-malvado, vermelho-bonzinho.
Somos mais que um mundo constantemente salvo graças a poderes sobrenaturais, somos mais que um casal onde a mulher apaixonada pelo feioso se transforma em feiosa também para que o amor possa realizar-se ( tenho birra desse final do excelente shreck 1).

Somos mais, podemos mais, mas às vezes a gente deixa para lá, e acabamos nos esquecendo disso.

Uma aventura amorosa pode nos lembrar disso, que estamos vivos e pulsantes, que podemos ser melhores e mais fiéis a nós mesmos. Uma ida ao parque de diversões também pode exercer essa função, um dia de jardinagem, cozinhar, sei lá. A arte pode também ter um papel assim, de lembrar que é bacana viver. Um belo filme também.

Assistam, Um lugar, na platéia.
Nem muito longe, nem tão próximo, apenas um bom lugar.






terça-feira, 24 de julho de 2007

coisinhas

Com que roupa...

E em meio a tantos eventos sociais que abalaram o mundo, ofuscaram o Pan e calaram os afoitos, aflitos e ansiosos pelo lançamento do último Harry Potter,
a pergunta que não quer calar é....

... como se vestem e que cara têm os blogueiros???

Afinal, o que seria da revista Caras sem as fotos dos modelitos das festas?

O problema, minha gente, é que...
podem abandonar aqui todas as vossas esperanças...

puta povo normal.

Jeans, camiseta, essas coisas. A riqueza é toda interior.
Juro.

:-)


a exceção honrosa, é claro, vai para as blogueiras, que são todas lindas, maravilhosas, charmosas e tal. Bien sur.



***



O maravilhoso mundo animal.

e nesse meio tempo todo, além do mais, ganhamos um gato.
Sim, mais um gato, para fazer companhia para a Melequinha.
A história é assim: uma amiga comprou um apê, juntou os trapinhos, os livros e os gatos com o namorado. Cada um tinha três gatos. Rápido, podem fazer as contas: é gato demais.
Trata-se da mesma amiga que nos deu a Meleca. E ela liga novamente, aquele papinho enrolado; lu... ele é maravilhoooso.....

A Melequinha andava um pouco solitária mesmo. Estávamos, como todo bom casal moderno e bem resolvido, nos sentindo um pouco culpados, mesmo...

o bicho é maravilhooosoooo....

fomos pegá-lo.

A Melequinha tem já uns dois anos, acho, mas eu não sei nada de datas, então não dá para confiar. Para saber mais sobre ela, aqui, aqui, aqui, e aqui.
(depois dizem que eu não falo muito sobre a minha gata. Alguns até ousaram perguntar se eu a amo mesmo... tisc, tisc, tisc...)

Pois bem, o novo morador da casa é o Sushi.
O nome dele era Maka, mas deixaram que mudássemos e resolvemos mudar, já que Maka e Meleca seria um pouco over até para os padrões luluzísticos de escolha de nomes.

Antes de começar a contar, deixem-me esclarecer que Sushi é um gato enooormeee, e bem resolvido. Já foi castrado, já passou pela infância, sobreviveu à adolescência e virou um gatão boa praça, que gosta de colo, cafuné, whiskas e uma barriga quentinha nas noites de frio. Morava praticamente numa república hippie de gatos, e não arrumava confusão com ninguém. Ou seja, um bon vivant simpaticão.

A Melequinha nunca na vida havia visto um semelhante.
Ela foi trazida da rua muito novinha, estava sozinha sozinha e, desde então, reinou soberana pela casa. Filha única, ração importada sabor salmão com arroz, mais princesinha que a dona. Sério. A Meleca tem que ter duas caixas de areia: uma para o cocô ( porque a gata da Lulu faz cocô, não caga - é claro) e outra para o xixi. Quando compramos um espelho de corpo inteiro já foi um choque: a Meleca se olhava sem parar, se estranhava, arranhava a sua imagem, a maior crise do espelho, para Lacan nenhum botar defeito, Doni!

Como o Sushi receberia a Melequinha?
Pairava uma tensão no ar, nuvens de ansiedade sobrevoavam o apê da lulu.

o Sushi chegou numa casinha, e não saiu de lá por muitas horas. Afagos, comidinhas, nada foi suficiente. O gatão se enroscou lá dentro e não saía por nada. A gata estranhou, ficou olhando de longe. Lá pelas tantas, o cara arriscou: colocou o focinho para fora e resolveu finalmente dar os seus primeiros passos.

Vejam bem: a Meleca é uma gata pequenininha, pesa no máximo uns três quilos. O Sushi é um gatão enorme, sei lá, tem pelo menos o dobro do peso da Melequinha. Adivinhem quem espantou quem?

A gata se arrepiou inteira, ouriçou todos os pêlos do seu corpinho jovem, mostrou toda a sua dentadura e o pobre do Sushi voltou correndo para a sua casinha. Logo os territórios estavam demarcados: o Sushi ficou com a sala, a gata, com o resto da casa inteira. Ai dele, se tentasse entrar no nosso quarto, por exemplo.
E o gato nem se mexia, coitado, a Meleca montando guarda e cuidando do que sempre fôra dela.

Fomos dormir. Haviam dito que demorava uns três dias para que os bichos se acertassem. Amanhã seria outro dia.

Na manhã seguinte, acordei cedo.
Ansiosa, fui checar os bichos.
A Meleca apareceu logo, toda faceira, se enroscando em mim, brincando pela casa inteira.
Algo estava errado.
A gata estava feliz demais.

Como assim andando pela casa inteira? Cadê o Sushi?

O Sushi havia sumido.

sete da manhã, o Filipe é acordado: "o sushi sumiu..."
vasculhamos a casa inteira. Nada do bicho aparecer. Um nervoso, a gata contente da vida.
Teria a Melequinha comido o Sushi?
Não era possível. Quem saiu de casa? Reconstituímos todos os passos... Havia uma ou outra possibilidade de fuga. Nos culpamos, apontamos dedos, um horror.


Telefonamos para os vizinhos, ninguém havia visto o bicho.

Fazia frio em São Paulo, chovia lá fora, eu já imaginei o pobre bichano, embaixo de alguma ponte, molhado, friorento e solitário, pensando na injustiça da vida...

Descemos, nos molhamos, demos voltas no quarteirão.

Pegamos o carro, saímos como loucos, bancas de jornal, botecos, guardas de rua, todos foram inquiridos, ninguém havia visto o Sushi...

Ele havia sumido. Stress total.
"Aquela hora que você abriu a porta..." " pô... somos uns merdas.. o bicho não durou nem um dia em nossas mãos..." "não conseguimos cuidar nem de um gato..." crise. Choro. Nervoso. Liguei para a minha amiga, ninguém atendeu, achei melhor deixar um recado discreto, notícias assim não podem ser dadas por secretária eletrônica.

Tinha um compromisso, saí meia hora atrasada, em meio à chuva e ao frio, cheguei uma hora atrasada, lágrimas nos olhos e um profundo sentimento de aflição. O Filipe também tinha que sair, nos despedimos cupados, tristes, envergonhados, mal trocamos olhares.

Voltei para casa. Kátia, a nossa faxineira me recebeu com um olhar consternado:
- Sim Lu, já soube... é como se alguém tivesse deixado uma criança com vc e vc tivesse perdido o menino... horrível...

Naquela hora, quis morrer.


Não me restava nada a não ser ligar de novo para a Helena. Tinha que ser forte, dar a notícia, pedir desculpas e contar com a generosidade e o perdão da minha amiga.

Liguei. O telefone tocava. Ela atendeu. Frio na barriga.
- Hê... perdi o seu gato....
- Como assim, Lulu?
- Perdi Helena! Eu sei!! é um horror, somos uns bostas, eu sei... vc nunca mais vai confiar em mim, desculpa... passei a manhã inteira procurando o bicho, já avisei o bairro inteiro, vou fazer uns cartazes... mas acho que não vai ter jeito. Lê... cê me perdoa?
- Lulu, vc procurou bem?
- Claro que procurei!!! Vasculhamos o apartamento inteiro!
- mas como ele pode ter saído?
- sei lá! pulou pela janela, correu sorrateiro. Desculpa Helena... eu não mereço ter bichinho nenhum...
- Lulu, os gatos se escondem mesmo. Eles se desintegram pela casa. Olha, se ele fugiu, fugiu, paciência, não precisa ficar assim, ele será um feliz gato de rua, era o destino dele, sei lá. Mas olha bem na sua casa...

Eu olhava para o meu pequeno apartamento, desolada. A Helena estava se enganando. É claro que o gato havia fugido.

-Lulu, um dos gatos que estava aqui, ficou três horas sumido, fomos encontrá-lo embaixo da máquina de lavar roupa. Faz uma procura com cabo de vassoura, sério. E fica calma, não é para tanto.
- Tá, vou procurar de novo, mas olha Lê, acho difícil. ... não quero que vc alimente esperanças falsas, tá? vai se acostumando à idéia... e olha, me desculpa não sei nem o que dizer.
- tá lu, mas olha bem, em todos os cantinhos.

Desliguei o telefone. A Meleca circulava contente pela casa. Para lá e para cá. Nem sinal do Sushi, até que... vejo a geladeira. Olho a geladeira. Observo-a bem.
Há um pequeno espaço, entre a geladeira e o chão. Pequeno, nem meu braço entra, quanto mais um gato. A Helena havia mandado que eu procurasse, era melhor, ao menos nessa hora, obedecer a minha amiga.

Me abaixei, olhei.

Debaixo da geladeira, no canto mais escondido, escuro e quente da casa, dois olhos felinos me observavam.

Sim. O Sushi estava lá.

Era praticamente uma caverna. E lá estava o gato.

O sol voltou a brilhar, o mundo fez sentido novamente e a gata apareceu logo, para mostrar suas garras e dentes para o pobre do Sushi.

Liguei para a Helena, que não parava de rir. Meus olhos se encheram de lágrimas, ao poder dar a notícia: Helena, seu gato vive. embaixo da minha geladeira.

O sushi continua lá, embaixo da geladeira.
Estamos no segundo dia.
A gata anda feliz pela casa.

ai, ai...

conversas insanas

"- O que sua mãe faz?
- é psicanalista.
- o que seu pai faz?
- é antropólogo.
- o que a mulher do seu pai faz?
- é antropóloga.
- o que o marido da sua mãe faz?
- é cineasta.
- o que seu avô faz?
- é escritor e tradutor... estuda literatura russa...
- Lulu!! Ninguém na sua família produz riqueza??
- Hum ???? O quê é isso? "

segunda-feira, 23 de julho de 2007

trecos da vida

Andei oscilante, muito oscilante em relação ao meu escrever aqui. Em dúvida séria em relação a esse diário dessa lulu que vem, veio aqui, durante meio ano, escrever diariamente. Essa lulu que foi cada vez aparecendo mais, se mostrando mais. Que teceu amizades, firmou laços, criou até vícios, espantou, se emocionou, se conheceu, se divertiu muito, por aqui. Se assustou, cresceu. Que conheceu, se conheceu, fez e refez, por aqui. Palpitou um monte, de coisas que entendia e do que não entendia também.

A lulu que, principalmente, ajudou um monte a Luana que a criou.
E as duas foram se aproximando, aproximando, aproximando.
Uma ajudando a outra.
Alimentando a outra, descobrindo a outra.

Porque a Luana, essa tal de Luana, precisa mesmo escrever. Faz um bem danado para ela, a lulu a ajudou a perceber o quanto é importante. Escrever, diariamente. Sim, tem que ser diariamente, porque a Luana é assim, se for escrever só quando tem vontade, ela acaba escondendo a lulu, que fica desaparecida, e não escreve nunca.
E escrever ajuda a Luana, do mesmo jeito que ginástica. ajuda a ficar melhor, mais inteira, sei lá, achar os contornos de si mesma, sei lá.


E as duas foram caminhando, em suas vidas e espaços. Quem conhecia a Luana, achou um monte de coisa da lulu. Achou a lulu mais normal que a Luana, achou que a lulu escreve bem, achou a lulu mais descolada que a Luana, achou um monte de coisa. Quem conhecia ou conhece só a lulu, sei lá o que ficou pensando da Luana. :)



E algumas pessoas queridas que conheciam a lulu, nas últimas semanas, conheceram a Luana. Encontros muito bacanas, mesmo. Começou com a Meg, em Belém, passou por uma semana de agitos, e culminou no lançamento. ( Aqui, aqui, aqui., sobre o lançamento, xeretar por aí...:) )
E no lançamento, cheguei tarde, não conheci o Adirti nem o Lord ( que penas!!), mas conheci um monte de gente e reafirmei a admiração e o carinho por outras. Quem sabe, sabe.


E as duas que se aproximavam, aproximavam, aproximavam, acabaram meio juntas. A lulu e a Luana.
E daí? pergunta o leitor....


e daí que deu tchult na minha cabeça.


e eu até tomei uma resolução, de fazer um blog onde não houvesse espaço para muitas pessoalidades.
um lugar de resenhas e reflexões, sobre as mesmas coisas de sempre, mas onde a Luana e sua vida não aparecessem tanto.


e daí? pergunta o leitor que teve paciência de chegar até aqui.

daí que eu fiquei travada para escrever, pela primeira vez.

porque as vidas se misturam. E as resenhas e reflexões, ao menos por enquanto, se misturam também à vida.
E as vidas daqui e dali se misturam. Não tem jeito.

embora a lulu não seja a Luana.
não que eu saiba quem é a Luana.
Não sei também, não sei nem se ela existe.

de qualquer jeito, continuamos as duas, as várias, por aqui.

exercendo o contínuo desencanamento, e procurando nos divertir.
do jeito que for.
com coragem para ser fiel a nós mesmas, todas, e aos nossos desejos.

a crise de esquizofrenia já está passando.

voltaremos à nossa programação normal.
até a próxima crise.

e talvez seja na soma dos personagens de nós que a gente se faça e construa.

beijos a todos,

desculpem todos os maus jeitos.
voltei para valer.


Lulu.

( outro post sobre crise de imagem, aqui)

quinta-feira, 19 de julho de 2007

e aí? vamo?


Eu vou!
Acho que quem tá em SP ou por perto, devia ir também. Na pior da pior das hipóteses, se todo mundo se revelar muito chato ou muito feio ou muito qualquer coisa, o Canto Madalena é um lugar gostoso, serve um chopp decente e sempre é possível disfarçar, ficar numa mesa em separado observando todo mundo encher a cara, tentando adivinhar quem é quem.

De qualquer maneira, os livros são bons à beça. Mesmo. Vamo lá!
Programa obrigatório.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

mas não cheguei ainda

Eu havia decidido não fazer mais posts de cunho muito pessoal, confessional. Ater-me às crônicas sobre a escola, resenhas de filmes e livros, reflexões. Durante um momento, pensei inclusive em dar tchau pro diário, e ficar assim, uma passagem de seis meses por aqui. Mas o fato é que gosto de escrever, é o que eu faço, e então continuo por aqui, meio de birra, meio de insistência, muito por prazer.

Mas às vezes escrever fica difícil. E hoje, após acidente aéreo, não há nada para dizer, a não ser que estamos, estou, de luto.
E tem momentos onde é melhor ficar em silêncio atento. Meu respeito e consideração profundos a todos que perderam pessoas que amavam.
l.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

cheguei


Cheguei em são paulo, minha cidade querida, debaixo de chuva e frio, mas sem contratempos aéreos...

Belém é uma das cidades mais lindas e legais que já vi na vida.

Andei de barco, passeei um monte, dancei um monte, vi amigos queridos, andei pelas praças mais belas do país, comi muito peixe, farinha, e me acabei no jambu e no tucupi.

Vi casas lindas, andei por calçadas à sombra de mangueiras centenárias, fui ao mercado, comprei colares, e brincos e pulseiras. Comprei farinha, grossa, crocante e saborosa, como deve ser a boa farinha. Comi muita tapioca também, enquanto olhava o rio enorme. Tomei banho de rio, fui à praia de rio. Ouvi o português mais belo que já ouvi na vida, todo mundo usando o tu perfeitamente, lindo.

Conheci a Meg. Fui à casa da Meg, almocei com a Meg, passamos um dia juntas, que reforçou e confirmou nossa amizade e afinidade. O apartamento da Meg é uma delícia, de pé direito alto, repleto de livros e cedês, praticamente só há livros e cedês no apartamento da Meg. E fotos da Marylin Monroe. E um belo quarto com cama e ar condicionado, que ninguém é de ferro, com a caixa do dr house, que ninguém é de ferro, mesmo.

A Meg é muito, muito engraçada. Conhecemos um bicho novo, que eu achava que era uma garça vermelha, ela achava que era um flamingo. Não era nada disso, era um pássaro cujo nome eu já esqueci. Quem nos ensinou foi um garçom simpático, Ricardo, e a Meg ficava perguntando para ele para quê servia aquele bicho. A Meg faz cada pergunta... E ela tem um rosto lindo, e um sorriso exuberante. Foi um prazer conhecer a Meg, uma mulher cheia de sentimentos, inteligência e cultura, que transbordam a todo instante, e de uma generosidade sem fim. Ela me encheu de presentes, quando cheguei lá havia rosas vermelhas no vaso, para mim, pêras deliciosas, para mim, várias coisas, para mim. E ela me deu o anel mais lindo do mundo, que eu não tiro mais do dedo.

A viagem foi uma delícia. Encontrei outro amigo generoso, que me levou para todo canto também, me apresentou gente legal, a minha impressão é a de que só há gente legal naquela cidade, muita música, muita dança, e a cerpinha, que ninguém é de ferro. Lugares interessantes, sofisticados e simples. Me apaixonei por Belém. Se pudesse, ficava o mês inteiro lá.

E agora, São Paulo. Meu marido amado foi viajar mas volta sexta. Eu, aqui, escrevo, faço ginástica, aulas de dança, curto minha casa, leio, encontro pessoas que amo.

Amanhã, cinema. Não preciso de mais nada nessa vida.

Beijos a todos.

Obrigada a todos.

Lulu.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

PAUSA

Meus queridos,

O diário está em ritmo de pausa. Estou em viagem, meio trabalho, meio lazer, bem ao norte do país, aqui, em Belém do Pará, SBPC e outras milongas mais.
Aproveito para descansar, renovar as forcinhas e energias, passear, ver os amigos.

E resolvi fazer uma pausa por aqui. Para também voltar escrevendo com mais cuidados e qualidade. Uma semana inteira, gente. Volto no dia 16 de julho.

Gostaria de agradecer, muito, todo mundo que me acompanha por aqui. Não são muitos, mas são o suficiente para me deixar muito, muito contente, são o máximo. Obrigada mesmo.

Aí....

quem não conhece, poderia ler, talvez, A biblioteca alheia, sobre as estantes dos outros.
ou o post sobre o Ovo frito perfeito, onde estão arrolados os grandes princípios da cozinha da lulu, e para quem quiser uma massa simples e saborosa, com molho de tomate, boa para dias de férias de verão, aqui, e para acompanhar, uma salada verde.
Dicas de leituras de férias, para pimpolhos de todas as idades, dos seis aos seiscentos, aqui, na lista sempre em expansão de livros legais para a gente ler na escola ( e fora dela), e um manifesto pelos direitos do alunos leitores e não leitores.
e para mulheres em crise mulherzinha, eu gosto muito desse texto, sobre a difícil vida das mulheres .
E do dicionário da lulu eu gosto do ser cuidada. e sobre essa vida internética, o como assim?
sei lá... um passeio afetivo pelo diário, sugestões de entradas...
bom descanso, gente.

bom tudo.

vivam tudo.


beijos
lu.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A auto-estrada do sul

O fato:

Para começar, eu estava aqui.


deu na uol ( link acima) :

"O índice de congestionamento na noite desta sexta-feira bateu o recorde do ano. Na véspera de feriado prolongado da Revolução Constitucionalista, comemorada na próxima segunda-feira (9), ele atingiu 201 km, segundo a CET. A média das 19h das sextas-feiras de junho deste ano é de 164 km.

(...)

Segundo os registros da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o índice de 201 km de lentidão às 19h é o segundo maior da história para o horário. O maior registrado até agora para o horário das 19h foi anotado no dia 28 de junho de 1996, quando chuvas torrenciais caíram sobre a cidade de São Paulo no início das férias escolares daquele ano.

(...)

A NovaDutra registra três pontos de congestionamento na rodovia Presidente Dutra, na saída de São Paulo. São três quilômetros de congestionamento entre os kms 230 ao 227 (ainda na cidade de São Paulo). O tráfego também é complicado do km 222 ao 219, em Guarulhos, e outros três quilômetros de lentidão do km 157 ao km 154, em São José dos Campos.


Estava voltando de Guarulhos, via Nova Dutra, saí de Guarulhos às quatro da tarde, cheguei em casa sete da noite. Sim, três horas de trânsito. De desligar o motor do carro. Olhar em volta. Comprar, e beber, a suspeitíssima água vendida pelos camelôs da estrada. Ouvir todas as estações de rádio. Vontade de fazer xixi, fome. Ainda bem, eu me minha sogra, que nos damos bem e não ficamos histéricas nem estressadas. Ouvi todas as histórias de infância dela.


Tempo suficiente para desenvolver teorias. Há a teoria para as fases do luto. Dizem que há quatro fases para a vivência do luto. Primeiro, a do choque. A pessoa se sente atordoada, ou adormecida, sem entender bem ou conseguir aceitar o que aconteceu. Depois, a da negação. A pessoa fica em estado de incredulidade, e começa a se perguntar porquê. Por que isso aconteceu? Por que eu não evitei? Procura manter a pessoa amada consigo, negando a sua partida. Depois, há o sofrimento, a desorganização. A perda foi introjetada, não pode ser mais negada, e resta lidar com a dor e com tudo aquilo que a perda acarreta. Por fim, vem a fase da recuperação, onde pode-se começar a olhar para o futuro, ao invés de ficar concentrando-se no passado, há um ajuste à realidade da perda e pode-se até começar a estabeler novos relacionamentos.

Pois bem, entre a primeira marcha e o ponto morto, comecei a inventar a teoria das fases do engarrafamento.

A teoria:

Primeiro, a fase do choque. No começo de tudo, prestem atenção, eram quatro da tarde. Quatro da tarde. A incredulidade era absoluta. Como assim? Um trânsito de desligar o carro? De estar totalmente envolta por caminhões e carros, respirando fumaça, sem poder ir nem vir, presa, ali? O atordoamento é total, até que vc se pega comemorando um avanço de meio metro. Você repara no Meriva ao seu lado, presta atenção no Peugeot, comenta que o cara da frente já tirou a camisa e saiu duas vezes do carro ( os homens sempre ficam nervosos, não é mesmo? ). Ele está acompanhado, será uma namorada? será que ela está nervosa? eles se amam? ( falta absoluta do que fazer dá nisso) . O principal: você não acredita que está ali.

Vem então, a fase da negação.

Sim, é difícil acreditar que você caiu nessa roubada. Paulistana experiente, trinta e um anos de estrada por essa vida, vai cair na Via Dutra, rumo à Marginal Tietê, no final da tarde, em dia de suspensão de rodízio, às vésperas do feriado? Como assim? E como pode haver um congestionamento tão grande? Algo deve ter acontecido.
Um moço passa, vendendo pipocas doces, aquelas de saquinho, tipo isopor cor de rosa:
"Moço, o Sr. sabe o que aconteceu? " "Nada não, moça. Sexta feira à tarde, é assim mesmo." "Ah bom..."
Não é possível... Será?

Ao longe, o skyline esfumaçado e cinza de sua cidade, outrora tão próxima. Ela está ali. Como sempre esteve. Distante, à sua espera. Inalcançável. Imóvel.

Resta se haver com a triste realidade.

Vem então a fase da aceitação da tal da triste realidade. Estamos aqui, não há jeito , não há como escapar, não há saída nem rota alternativa de fuga. E então você se lembra que nesses trinta e um anos de estrada virou uma mulher descolada, bem resolvida, fez ioga, análise e tai chi chuan...
Não.
Você não vai sucumbir. O carro tem rádio, tem um CD do David Bowie, vc está acompanhada, alguma hora os carros hão de se mover novamente. Você decide relaxar, aceitar esse destino infeliz, se entregar e tal, como uma pessoa da era de aquário e tal. Quase lembra do conselho da ministra, "relaxa ..." , mas aí já é demais e, afinal, era a sogra que estava ao lado.

A realidade:

Então, você percebe que, por mais que ame o Bowie, queira casar com ele, abandonar família, gata e tudo o mais por esse cara estranho de um olho de cada cor, não é possível ouvir: "This is ground control to Major Tom..." mais que dez vezes seguidas. E começa a ficar aflita. Liga na rádio e descobre um programa chamado Chupim, dedicado a dar trotes nos ouvintes. Descobre uma sinfonia de sei lá o quê na Cultura. Descobre uma música nova do Djavan, mais incompreensível do que nunca. E escuta que "o amor é o calor, que aquece, a ( pausa) alma". E vem a fase da revolta.

Foda-se a respiração da Yoga, fodam-se os anos de análise. Você começa a xingar, reclamar do trânsito, da cidade, do país, da prefeitura, do governo, fora FMI, essas coisas. Sim, o descotrole é absoluto. Está calor, xinga a falta de ar condicionado no carro, xinga os preços dos carros com ar condicionado, sente a poluição, começa a passar mal. Vêm as palpitações, um certo enjôo... e se eu morrer aqui nessa joça?

E no meio desse momento definitivo, pleno de angústia, você se lembra. Dele.

Daquele conto, um dos seus contos preferidos, aquele conto que você ama e lê para seus alunos da oitava série como quem dá um presente. Aquele conto perfeito, que diz da vida, do mundo, da nossa sociedade e das relações do nosso dia a dia. Sim, em meio ao pior congestionamento de sua vida, a lulu lembrou da Auto-estrada do sul, do Cortázar.
E então vem a fase da loucura, total e desenfreada.

A ficção?


Para aqueles que não conhecem, trata-se do primeiro conto do livro De todos os fogos, o fogo, um dos maiores livros de contos de todos os tempos. O conto está inteiro, em espanhol, aqui.
É final de um feriado, e nos feriados, todos os parisienses saem de Paris. Domingo à tarde, um calor insuportável. O sentido contrário da auto-estrada fora fechado, todos os carros estão indo na mesma direção. Há cerca de doze faixas de carros, abertas exclusivamente para aqueles que voltam de suas casas depois do feriado. E há o trânsito. Um trânsito imenso, um trânsito absoluto.

Claro, ninguém no conto sabe a causa do congestionamento. A alienação é absoluta, assim como a impotência.Todos estão ali, avançando cinqüenta metros em algumas horas. A cidade de Paris ao longe, carros parados por todos os lados. Dos carros, começam a vislumbrar-se as personagens.

As personagens não são apresentadas primeiramente pelos seus nomes, mas sim pelos seus carros. Os carros vão se tornando familiares, assim como as profissões e a aparência das pessoas que os ocupam. A referência de cada um é o modelo do seu carro. Além disso, alguma atenção é dada também às relações que se estabelecem dentro dos carros. Alguns estão sozinhos, outros viajam com seus filhos, há o casal de idosos, os jovens.

O primeiro parágrafo do conto já apresenta toda a situação, em um único período que corre como uma câmera em travelling, sem cortes, sem pontos finais, único movimento possível naquela situação de absoluta paralisia:

Al principio la muchacha del Dauphine había insistido en llevar la cuenta del tiempo, aunque al ingeniero del Peugeot 404 le daba ya lo mismo. Cualquiera podía mirar su reloj pero era como si ese tiempo atado a la muñeca derecha o el bip bip de la radio midieran otra cosa, fuera el tiempo de los que no han hecho la estupidez de querer regresar a París por la autopista del sur un domingo de tarde y, apenas salidos de Fontainebleau, han tenido que ponerse al paso, detenerse, seis filas a cada lado (ya se sabe que los domingos la autopista está íntegramente reservada a los que regresan a la capital), poner en marcha el motor, avanzar tres metros; detenerse, charlar con las dos monjas del 2HP a la derecha, con la muchacha del Dauphine a la izquierda, mirar por el retrovisor al hombre pálido que conduce un Caravelle, envidiar irónicamente la felicidad avícola del matrimonio del Peugeot 203 (detrás del Dauphine de la muchacha) que juega con su niñita y hace bromas y come queso, o sufrir de a ratos los desbordes exasperados de los dos jovencitos del Simca que precede al Peugeot 404, y hasta bajarse en los altos y explorar sin alejarse mucho (porque nunca se sabe en qué momento los autos de más adelante reanudarán la marcha y habrá que correr para que los de atrás no inicien la guerra de las bocinas y los insultos), y así llegar a la altura de un Taunus delante del Dauphine de la muchacha que mira a cada momento la hora, y cambiar unas frases descorazonadas o burlonas con los dos hombres que viajan con el niño rubio cuya inmensa diversión en esas precisas circunstancias consiste en hacer correr libremente su autito de juguete sobre los asientos y el reborde posterior del Taunus, o atreverse y avanzar todavía un poco más, puesto que no parece que los autos de adelante vayan a reanudar la marcha, y contemplar con alguna lástima al matrimonio de ancianos en el ID Citroën que parece una gigantesca bañadera violeta donde sobrenadan los dos viejitos, él descansando los antebrazos en el volante con un aire de paciente fatiga, ella mordisqueando una manzana con más aplicación que ganas.

O tempo do congestionamento não é o tempo do relógio. O tempo do relógio é aquele das pessoas que seguem. Que podem calcular os quilômetros rodados por hora. Que se movimentam. O tempo ali é outro, é um tempo parado, inerte, onde o bip bip do relógio perde o sentido de passagem e ganha uma nova significação: a marcação da espera, da repetição, do mesmo.
Em meio ao mesmo, resta a comunicação. Resta olhar e investigar para o quê ocorre dentro dos carros, que carregam consigo microcosmos de vidas e histórias, sobre as quais pode-se especular, prestando atenção, na falta do que fazer, aos detalhes (e quantos microcosmos não exitem nos lugares mais bestas, como mesas de computador, por exemplo? ) .

O escritor, Cortázar, leva essa situação de engarrafamento ao extremo. Anoitece e os carros permanecem parados. Amanhace, e o trânsito não arrefeceu. O cara é corajoso.

Mal se avançou. O congestionamento parece infinito. Dura. Dias. Noites. Dias. Noites. Nenhuma notícia no rádio. Nenhuma casa por perto. Nenhum habitante local a quem pedir socorro. Estão no meio da estrada. Em meio a um lugar de passagem rápida, sem saída, inertes, presos. Sem cúmplices, explicações ou ajudantes. A solidão é absoluta.

( sim, juro. Eu comecei a lembrar de tudo isso enquanto, depois de uma hora e meia, finalmente vencia os poucos quilômetros da Dutra e entrava na Marginal, parada.)

A situação está dada, aos personagens, resta relacionar-se, unir-se. Formam-se grupos. A perspectiva da narrativa limita-se à perspectiva do engenheiro do Peugeot 404 e seu grupo Um campo limitado, observa-se cerca de quatro carros na horizontal e quatro carros na vertical. Conforme o lento avançar dos carros, a moça do Dauphine pode estar ao lado, ou o casal do 203 com sua filha. O solitário homem do Caravelle às vezes perde-se de vista, mas logo volta ao horizonte.

Formam-se grupos. O mesmo acontece com outros agrupamentos de carro. Não se ousa ir muito longe, pois sempre há a esperança, suspensa como um fio que paira sobre todos, que o trânsito magicamente faça juz ao seu nome e volte a andar. Nesses raros momentos, aquele que estiver longe de seu carro é duramente repreendido por um coro de buzinas. Ninguém ousa afastar-se.
Levantam-se os víveres, a quantidade de líquidos. Há o risco de desitradação. Chocolates, balas, algumas frutas. Logo se estabelce um mercado negro. Há aqueles que escondem suas comidas, e são descobertos. Formam-se prioridades, os idosos e as crianças devem ser sempre os primeiros a comer. Esfria. Adoece-se.

Um carro mais confortável serve de enfermaria. A moça do Dauphine chora discretamente sobre o volante. O engenheiro aproxima-se.

São feitas negociações, o caráter de cada um se revela nessa situação limite, de confinamento, em meio a uma auto-estrada, de doze pistas, feita sob medida para o movimento e a velocidade. As pessoas se aproximam. Transam. Falecem.

Uma das situações mais brilhantes da literatura já criadas por um ficcionista.

Na escola:

Uma vez, na classe, lendo esse conto (oitava série), houve uma polêmica.

Um aluno falou: Todos nós estamos nessa auto-estrada congestionada! Somos nós, confinados ao nosso espaço, às poucas pessoas que nos rodeiam, com quem temos que conviver e nos relacionar. A auto-estrada é a vida.

( e como são bacanas essas leituras livres que os meninos fazem, sem a obrigações da erudição, da prova, etc, que nós, adultos sérios e acadêmicos, temos) .

E uma menina discordou, com veemência:

Não! A vida é a auto-estrada livre, com todos os carros correndo aos seus destinos, sem olhar um instante para as vidas que correm ao lado, rumo às suas casas, aos seus objetivos, aos seus projetos individuais. Ali dá-se uma quebra no correr dessa vida, e por serem obrigados a ficar parados, há a obrigação do relacionamento, do olhar para o outro, da solidariedade, que não ocorreria na vida normal.





A recuperação?

O relógio da marginal apontava: sete da noite. Estávamos ali há três horas. Eu, na direção, procurava a melhor pista ( e sempre errava as minhas apostas, claro. A pista do lado sempre avançava mais rápido do que aquela que eu escolhera). Finalmente, a entrada para o Pacaembu. Andávamos. Estava na última fase. Havia entrado na cidade. Podia fazer planos. "Quando chegar, vou fazer xixi, aí vou abrir uma cerveja, aí vou comer alguma coisa, aí vou escrever um post sobre tudo isso, que pelo menos essa porra tem que render um post... aí vou ligar prá fulano, vou tomar um banho... "

Vislumbrava meu futuro. Perdera de vista meus companheiros de trânsito. Podia até pensar em novas viagens, bastava que planejasse melhor o tempo da volta. Engatei na terceira marcha e foi quase uma felicidade.
Havia os faróis da cidade, o trânsito da cidade, mas estava em lugar conhecido. Rumava, aos maravilhosos oitenta quilômetros por hora, para frente. Estava dentro do tempo, estava voltando.

Em casa, cerveja na mão, leio a auto-estrada do sul.

Em frente, sempre para frente.

e assim termina o conto:

Y en la antena de la radio flotaba locamente la bandera con la cruz roja, y se corría a ochenta kilómetros por hora hacia las luces que crecían poco a poco, sin que ya se supiera bien por qué tanto apuro, por qué esa carrera en la noche entre autos desconocidos donde nadie sabía nada de los otros, donde todo el mundo miraba fijamente hacia adelante, exclusivamente hacia adelante.


Recuperação?

...






***

ps. esse post termina com uma homenagem ao mestre Alexandre Inagaki, que tem uma brilhante análise do conto, chamada: " Só o mistério nos faz viver. Os mistérios da rotina: uma análise do conto " A Auto-Estrada do Sul" " que pode ser lida aqui.

Imagens: René Magritte.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Por um país imperfeito.


A difícil arte da viagem

Não há nada mais difícil do que sair de casa. Mesmo para aqueles que dizem que amam viajar, que são despreendidos e não sentem saudades nem falta de nada e que dizem chegar em qualquer lugar e se adaptar totalmente, é sempre difícil sair de casa. Sair de verdade. E casa, aqui, pode ser tomada no sentido de espaço privado, doméstico, conhecido, domesticado, obediente. Em casa sabemos quais são as regras, os gostos, as expressões. Podemos antecipar reações, calcular riscos. Sair de casa, para valer, significa estar num espaço que não é seu, em meio a códigos não dominados, estar aberto a surpresas e ao desconhecido. A entrada nesse espaço pode ser violenta ou suave, mas ela nunca é fácil. É como a primeira noite com um homem. Há um momento de re-conhecimento, de si e daquele que está a sua frente. Não é à toa que a antropologia discute esse tema sem parar. E esse é um dos temas do novo livro do Alex Castro.

Pode-se dar uma volta ao mundo, sem que se saia de casa. Nos casos mais drásticos, aqueles que conhecem o cardápio inteiro do McDonald´s de todos os países que visitaram; aqueles que colocam roupa de safári para andar pelo Rio de Janeiro; aqueles que simplesmente, não se abrem para novas experiências e não aprendem nem a falar obrigado e bom dia na língua local. Em casos mais disfarçados: aqueles que olham para o mundo sempre em termos de comparação, vangloriando-se de si próprios, e não alteram um dedo mindinho para conhecer, de fato, o outro. E saem de casa, passam por outras casas, e estão sempre no mesmo lugar. O livro Radical, Rebelde, Revolucionário é um relato de um viajante pesquisador, que um pouco por obrigação de ofício e um pouco por natureza pessoal, saiu de fato de casa. E foi passar um mês em Cuba.


O viajante intelectual, o viajante cronista.


Essa é a espinha dorsal do texto. A viagem começou antes do avião, bem antes. Não somente no fazer do projeto que justificasse uma viagem de estudos paga, mas no mergulho em filmes cubanos, na escuta diária de rádios cubanas, da leitura sistemática de romances cubanos. O trabalho do intelectual é sempre um trabalho bastante difícil, apesar da boa vida que esses caras levam. É difícil porque se não há essa disposição do sair de casa, o trabalho está condenado à mediocridade. Me explico melhor: se ao terminar a tese, o doutorando estiver achando e pensando as mesmas coisas que pensava e achava ao iniciá-la, o trabalho não foi bom. O intelectual sério permite ser alterado por seu objeto de estudo, mergulha nele, torna-se, também, objeto do objeto.

Se o cara for estudar Homero, tem que saber grego. Não somente saber, deve ler com fluência, ter no coração ( e como perdemos sempre o significado mais belo do verbo decorar) passagens inteiras, conhecer as personagens como se fora amigo íntimo de todas elas. Além disso, vai ter que dar conta do que já se escreveu sobre Homero, das principais linhas interpretativas, dos debates existentes, e assim por diante. Pois bem, uma parte significativa do trabalho de doutorado desse viajante será sobre a literatura cubana no século XIX. Para a frustração do historiador, não há como ir ao século XIX, mas dá para ir à Cuba, e ler os romances, e ler os jornais, freqüentar as bibliotecas e conhecer as gentes. Para a satisfação da pessoa, o lugar é o máximo, e o escritor também tirou seu pitaco da experiência e escreveu esse relato de viagem, que deu no livro.



Da inverossimilhança da história:


Antônio Candido fala que a verossimilhança da literatura é dada pelos detalhes. Quanto mais detalhes aparecem, mais as personagens, lugares, paisagens tornam-se passíveis de existência para a cabeça do crédulo leitor. Alex Castro nos avisa:aqui, tudo é ficção, tudo é inventado, pois “a história de Cuba é impossível demais para ser verdade”. Como o livro é cheio de detalhes, tolinhos, lemos como se fosse verdade, e algumas partes até emocionam.

E a história inventada não é a história de Cuba, nem a história das pesquisas feitas, embora elas apareçam um pouco também. A história inventada é a de um lugar onde chove todos os dias, tempestades de dez minutos, o povo se abriga nas marquizes e depois volta a viver suas vidas. Onde é impossível andar estando seco, onde as pessoas fumam charutos que desafiam a lei da gravidade, onde não se encontra bacon, e o jornal é usado para limpar a bunda. Lugar de um sistema monetário completamente doido, que o Alex explica bastante mas que eu não entendi direito até agora. Lugar onde a todo momento se é abordado, por jineteros, polícia... onde se anda livremente pelas ruas às três da manhã, sem medo de assaltos ou violências. Histórias de amizades, de andanças, da ida a um balé, das casas, dos encontros e das pessoas que o Alex encontrou e conheceu.


Uma história de amor.


Há no livro inteiro um sabor acridoce, não se trata somente das belas histórias do povo cubano. Pois o Alex também escapa da armadilha que seria escrever esse livro como um libelo pró ou anti Cuba. Se os esquerdistas mais ferrenhos não vão gostar, os direitistas também torcerão seus narizes. O cronista é ponderado e, se enxerga poesia no fato de que os antigos palacetes são agora habitados por uma população negra e pobre, escreve a dado momento que visitar Cuba é como visitar uma prisão; ele, viajante, pesquisador, tem uma liberdade que seus amigos cubanos não possuem. Assim, em meio ao povo culto, a pobreza e escassez de recursos; em meio `a simpatia e acolhimento, a obrigação de anotar em caderninhos todos os que entram e saem... O tempo inteiro os relatos oscilam entre o doce e o amargo.

Voltemos à cama, ao tal do primeiro encontro. Pode ser que os corpos se estranhem, que um queira ir para um lado, outro para outro. Que o início seja difícil mas convide a uma nova tentativa. Que portas sejam abertas. Alex Castro foi conhecendo as ruas, casas e pessoas de Havana como quem conhece uma mulher. E o livro trata da história de um amor crescente. Não idealizada, repito. Uma mulher sofrida, envelhecida, em suspense absoluto quanto ao futuro; uma mulher dividida, uma mulher bela, de história singular. Como ele é generoso, e a favor do relacionamento aberto, divide essa mulher com a gente, dá dicas, orienta, conta segredos e ainda mostra fotos.

E ao lermos, crédulos, até acreditamos que essa mulher existe. Vale a pena conhecê-la, trata-se de uma bela viagem, para uma casa muito diferente, de fato, da nossa. Entremos.

Leiam, comprem e recomendem.

E não percam o blog promocional do livro, com fotos, trechos de capítulos e espaços para comentários: radical, rebelde, revolucionário.

***


no prelo: resenha de Virginia Berlim. aguardem.

ah, e eu respondi, finalmente, aos comentários maravilhosos deixados nos posts anteriores, se houver paciência e curiosidade, estão lá. Muito obrigada a todos.
beijos,
Lu.
update: quantos erros de digitação é possível cometer num simples PS? de qualquer jeito, acho que eu ultrapassei a cota. desculpas envergonhadas. lulu.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

desejo ou ego?



Bordado pela Mari, do costuricas.

sim, fiquemos com os desejos.

terça-feira, 3 de julho de 2007

substantivos e berinjelas

Minha melhor hora do dia é a minha hora mais solitária. Cedo, muito cedo de manhã. Quanto mais cedo melhor, quando a maioria das pessoas ainda dorme, e a cidade mal amanheceu. Agora, por exemplo, são vinte para as seis da manhã. Acordei escrevendo. Às vezes isso acontece. Penso em forma de escrita, sonho com palavras, formo textos inteiros, sem imagem alguma. Continuo, em sonho, o livro que lia na cama, num enredo enlouquecido; desfaço destinos inteiros, assassino estilos de linguagem, tudo. Ou penso em forma de conversas que não tive, que preciso ter, gostaria de ter. Imagino ligações inteiras, diálogos inteiros, que às vezes se concretizam, às vezes não. Penso tanto que chego até a gesticular enquanto converso em silêncio e só. As palavras vêm tão fortes que preciso levantar e escrever, algo, uma besteirinha, uma confissãozinha, uma massagenzinha no próprio umbigo, essas coisas que o formato blog permite que a gente faça, com muita desfaçatez e bem pouca vergonha. Antes era diário, agora, que estou ficando velha e mais cara de pau, escrevo por aqui mesmo. Se não escrevo, acabo falando sozinha, e aí é bem pior. Nunca penso em idéias, abstrações, problemas matemáticos, músicas, construções teóricas. Penso em monólogos. Às vezes, penso em aulas. E meu pensamento me impele a escrever, para que eu tome conta dele e ele não me domine. Escrevo desde que aprendi a escrever, e isso me acalma, me organiza, me centra. E a melhor hora para escrever é cedo, muito cedo de manhã, o ar fresco da madrugada, um ar mais limpo, nessa cidade imersa em poluição. Uma hora solitária, e uma hora de poucas amarras, de cabeça fresca e limpa.

Escrevo rápido, de uma vez só, e como devem perceber todos os leitores, sem muita revisão.
Se releio muito aquilo que escrevi, fico aflita e nervosa, mal aguento, é uma infantilidade minha que eu tenho, uma das mil. Mal me aguento, me olho no espelho de lado também. Meu marido morre de dar risada.

Escrevo sem saber o que vem. Nessa hora, a melhor hora, escrevo ainda em jejum. Confesso que nem escovei os dentes. Mas são as palavras, a droga das palavras, que me chamaram com urgência. Escrevendo, volto a existir, acordo, me reconheço e remonto, sério. Tem gente que se acalma correndo, pintando, moldando, calculando. Eu me acalmo escrevendo. Nesse momento, ao escrever, preciso esquecer um pouco dos outros também. Da família, amigos, amores. Porque senão escrevo com muito cuidado, ou melindres, ou recados, e a escrita perde a verdade e eu fico com muita vergonha. É preciso escrever sem vergonha e com coragem. Vixe, é difícil, mas se escrevo pensando no que fulano vai achar, não escrevo nem uma linha que preste.

Escrevo porque quero ser lida. Para, como fala o Rafael Galvão, receber elogios. Escrevo porque as palavras são minhas companheiras. Eu as entendo. Escrevo porque sim, e porque aprendi que não é tão importante, simplesmente, é bom. Me dou bem com as palavras, compreendo a maioria delas. Assim como entendo as berinjelas, os pimentões, as alfaces. Não entendo o arroz, por exemplo. Sempre erro. Toda vez que tento fazer um arroz, erro. Não entendo. Não entendo a filosofia, não entendo os truques, sou incapaz de improvisar, em se tratando de arroz. Fica sempre, no máximo, um arroz medíocre. Não entendo os tempos necessários para a cocção, o melhor tempero, a diferença entre colocar ou não sal na água, tampar ou não a panela, colocar água fervendo ou fria. Não lembro, não entendo, não sei. Já de berinjelas entendo tanto que só de relance, andando na feira, já sei reconhecer se aquela berinjela presta ou não. Conheço o peso, a cor, o brilho ideais. E sei o que fazer com elas, e se não houver azeite, faltar o sal, acabar o queijo, tenho alternativas. Sei como cortá-las, amassá-las, sei quanto tempo devem ficar no fogo. Sei grelhá-las, queimá-las e fazer de seu recheio um purê, fritá-las ( e deus me perdoe, que delícia são berinjelas fritas, ou à milanesa!), assá-las. Conheço e respeito, as berinjelas. Com sementes são mais ardidas, sem semente, mais suaves. Se dão bem com o azeite, o sal, a pimenta do reino. Têm um casca firme, que permite o recheio, e nesse caso se são bem com pão, carne moída, queijos. Podem permanecer duras, inteiras, cortadas finas ou grossas. Não páro de querer conhecer, as berinjelas. São infinitas.

Um bom cozinheiro entende e respeita a comida que faz. Um bom churrasqueiro sofre ao ver um pedaço de carne mal tratado; mal cortado, passado demais, temperado da maneira errada, espetado ou fatiado sem dó. Há aqueles que entendem especialmente os pães, os mistérios da fermentação, a diferença de uma boa farinha, a dança da sova da massa, a temperatura ideal do forno. Sabem manejar receitas, fazem experimentos. Outros, são especialistas em bolos. Nunca murcham, nunca ficam secos demais, crus demais. Constróem camadas, sabem derreter o chocolate, usar o açúcar, o ponto ideal da clara. Já outros, compreendem as massas, os molhos, e assim vai. Há que se compreender os alimentos, respeitá-los, conhecê-los. E assim retira-se deles o que eles podem ser de melhor. É essa a arte da boa cozinha.

O mesmo se dá com as palavras. É preciso conhecê-las, saber usá-las, manejar bem os temperos, com criatividade e respeito. Ouvir seu som, sentir sua força, saber o tamanho. Há palavras que cabem, outras não cabem. Palavras que combinam, outras não. Há textos longos demais, temperados demais, artificiais demais. E não há, talvez, pior erro numa cozinha. A melhor cozinha é a que usa ingredientes mais frescos, melhores, e os usa com toda simplicidade. Troco toda emulsão de vinagre balsâmico com toques de essência de maracujá regados a um reduzido de caldo de carneiro flambado sobre finas camadas de brotos de alface de Estambul, por uma boa salada de alface roxa e tomate com azeite, sal e limão. Pão com azeite. Uma massa grano duro com tomates. Nada de pizza de alcachofras cobertas por presunto de parma. Nem a alcachofra, nem o presunto, nem a pizza serão felizes no casamento. Uma pede forno, outra pede solidão, o presunto, então... é assassinado toda vez que é frito, assado ou qualquer coisa assim. Presunto cru é presunto cru, e assim deve ser comido. a arte está no modo de fatiá-lo, e na qualidade do bicho. Pronto. Fiquemos com a boa e velha marguerita. Sem muzzarela de búfala, por favor, que ela também não se presta a uma ida ao forno.
E quem agüenta uma pizza coberta de manjericão desidratado? Mesmo óregano... é mais difícil achar orégano fresco, mas a diferença é infinita. Uma ou duas folhas de um bom manjericão fresco em cima de cada fatia, e não falemos mais no assunto. E quem domina mesmo essa arte, vai saber que há uns cinco tipos de manjericão, de variados tamanhos e cores, que uns são mais doces, outros pendem para o amargo, outros têm uma certa ardência. E ao colocá-los sobre a pizza, se permitirá macerar alguns entre os dedos, e sentir o cheiro bom do manjericão fresco.

Um bom escritor faz o mesmo com as palavras, as redescobre, realça seus sabores, alcança suas possibilidades, não as maltrata, não força, não as obriga a ser o que não são. Conhece os substantivos.

De qualquer maneira, escrever e cozinhar me acalmam. E às vezes, quem sabe, a receita, o fazer, e a junção dos ingredientes até dão certo, e a gente oferece para as pessoas que a gente gosta. E as pessoas gostam, e é uma delícia.

Ou, às vezes, a gente acaba comendo tudo sozinha mesmo, mas aí não é tão legal.

p.s.: são sete horas, agora. Escovo os dentes, e volto para cama. Já acalmei os bichos de dentro, e vou dormir mais um pouco, afinal onde já se viu madrugar nas férias? Volto para cama, de birra mesmo.







Bom dia a todos.

um beijo,
Lu.