sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A biblioteca alheia

Quando vou me hospedar na casa de alguém que é leitor, ou leitora, já babo de antecipação pelo prazer de xeretar e conhecer a biblioteca alheia. Às vezes, em jantares ou festas de amigos, não me contenho, aciono o botão off para os sons das conversas das pessoas que por acaso estiverem por ali, ignoro todo mundo e mergulho na biblioteca do dono da casa. Se é alguém que não conheço, melhor ainda: a biblioteca de um leitor é quase que seu mapa sentimental, intelectual, sexual... Apreciar uma biblioteca alheia é melhor que espiar pela fechadura, quase uma janela indiscreta, eu amo e nem peço licença, vou logo olhando e posso passar horas nisso.

Ao correr os olhos pelas lombadas, fico achando traços de vidas, caminhos percorridos pelas pessoas da casa: suas paixões, fases, momentos, seriedades, frivolidades, segredos e obsessões. Entre os filósofos alemães você de repente encontra o Kama Sutra do amor moderno ou, Como uma Deusa, na cama e no lar. Empilhados, ao lado dos livros de inglês, todos os batmans do Frank Miller, as capas já caindo de tão lidas. Todos os livros de determinado autor, em edições diferentes, de anos distintos, marcados, envelhecidos, lidos e relidos inúmeras vezes. Livros de receita manchados de azeite, farinha e chocolate ( torço o nariz para livros de receitas sem mancha nenhuma). Cinco dicionários diferentes de uma mesma língua.

Pelas lombadas você adivinha paixões recônditas, a Mafalda Completa, toda a Agatha Christie, Como fazer amigos e influenciar pessoas, Quem roubou meu queijo ao lado das poesias completas do Hölderlin, Mil anos de poesia erótica. Toda a coleção vaga lume, na casa de alguém que já cresceu faz tempo mas num teve coragem de se desfazer dela e de vez em quando ainda lê O Mistério do Cinco Estrelas... Treze guias de viagem na casa de alguém que tem medo de andar de avião. Tudo sobre flores, romances água com açúcar, um supreendente bom gosto na estante daquele mocinho por quem você não dava nada.

A organização dos livros na estante também já é uma narrativa em si. Quem é leitor não deixa a ordem e a disposição de seus livros nas mãos do acaso. Há bibliotecas que são verdadeiros exemplos de catalogação, onde os autores e seus títulos não só estão organizados por ordem alfabética mas também separados geografica, temporal e estilisticamente. Basta olhar para esse tipo de estante, e você já fica um pouco mais sabido. Há bibliotecas insanas, organizadas segundo critérios afetivos e simbólicos compreensíveis somente para seus donos. Bibliotecas organizadas segundo as fases da vida: a estante da época do francês; aqui, quando me separei; aqui, na época do vegetarianismo; aqui, na minha fase de romances policiais... Bibliotecas dos vários eus: essa é minha parte intelectual cabeça: filosofia, teoria literária, marxismo e um pouco de sociologia; ali está minha coleção da playboy e de sacanagem, logo ali a obra competa do Tolkien, todos os livros inspirados e derivados da série Jornada nas Estrelas e logo ali, minhas posses mais preciosas: os quadrinhos do Tarzan. Ao lado das obras do MBA feito em Chicago, o Marquês de Sade completo, A história de O e otras cositas más... Delícia completa, a visita pela biblioteca alheia.

E as marcas dos livros? Se os livros na estante mapeiam e contam histórias de longa duração, cada livro conta uma história particular e própria: Esse foi o primeiro livro que comprei quando entrei na faculdade, meu pai estava comigo e pagou para mim todo orgulhoso. Foi também o último livro que meu pai pagou pra mim... Esse livro foi Fulano quem me deu, e eu li três vezes seguidas, em uma semana, tentando entender o porquê do presente. Esse era meu livro preferido aos dezessete anos, hoje, não suporto. ... Esse livro mudou minha vida e depois dele decidi que ia ler para sempre. Esse livro foi aquela maldita que me deu... já tentei jogar fora três vezes, mas não consigo. Esse livro caiu na cachoeira de Mauá, mas eu e meus amigos conseguimos resgatar: olha as marcas das feridas.
Quanto mais marcas, dedicatórias, anotações, mais deliciosa será a leitura de livros alheios. Faço sempre minhas marcas nos meus também, mas quando leio livro dos outros tomo todo cuidado, podem ficar tranqüilos e continuar me emprestando leituras. :)

Um professor querido e admirável me contou uma vez que, quando sua esposa faleceu, uma das coisas que ele fez para viver o luto e a perda do grande amor da sua vida foi ler os livros que ela havia lido, sorvendo as anotações que ela havia feito, as partes que ela havia sublinhado, se emocionando e rindo sobre as linhas que ela havia lido também.

Enfim... chove lá fora, estou em Curitiba e tenho uma biblioteca maravilhosa ao meu lado, de uma hiper leitora, super interessante ( e qual leitor não é interessante?), que alugou sua casa com seus livros todos dentro. Sabia disso, e não trouxe nenhum livro na mala: muita diversão pela frente!
Beijos curitibanos,
Lulu.

16 comentários:

  1. essa texto dá vontade de biblioteca.

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  2. Eu sou assim. Chego na casa de alguém e já começo a procurar os livros....

    Já aluguei um quarto em Leipzig que me fez ficar querendo mais ler do que estar lá fora. Li quase tudo da pessoa.

    Uma confissão: amante dedicada(vênus em virgem), sempre acabo lendo os livros dos meus homens. Muitas vezes, antes de eles saberem disso. Como se eu quisesse que passassem pelos meus olhos as mesmas coisas bonitas(ou nem tanto)que passaram pelos olhos deles. A lista de pedidos da Cultura online denuncia quem é o homem da vez! Hahahaha...

    Amei o texto. Beijoca

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  3. feliz do leitor que tem Lulu como leitora de sua biblioteca. Acho que vou alugar meu apartamento , quando os livros já tiverem arrumados, só pra ver se a leitura da biblioteca confirma as coisas que sinto. é quase como um tarô.
    super Lulu!

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  4. Gostei do seu estilo e do seu texto. Tudo que você falou é verdade. Tambem gosto de passear por bibliotecas alheias, algo cada vez mais raro hoje em dia.

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  5. Qdo vc conhecer a minha singela biblioteca (e não é eufemismo nem modéstia em excesso), vai perceber imediatamente que sou um tecno-alquimista (vários livros de física, química e físico-química) que, ou zelou muito por seus livros, ou que os consultou muito pouco... só o tempo que levei para concluir o curso dirá!

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  6. Lindo texto!
    Tais sensações são muito comuns quando estou "garinpando" livros nos sebos...
    Recentemente, adquiri "Vieux Carré" (edição em inglês), de autoria de Tennessee Williams, num sebo. Ao chegar em casa, encontrei, dentro do livro, 2 coisas que me emocionaram: um ingresso da Broadway, amarelado pelo tempo, e uma nota fiscal de uma loja de colchões de Nova York.
    Tive uma sensação de "cumplicidade" com o ex-dono do livro; quem era ele/ela? Esteve em NY e lá comprou o livro, após assistir à peça? E a nota fiscal do colchão? Moraria ele em NY? Uma avalanche de perguntas passou pela minha cabeça...
    Os achados, que tornaram a aquisição ainda mais interessante, continuam lá, dentro do livro; fazem parte da "história de vida" dele, tornaram-no de certa forma mais "especial", e lá ficarão, ao menos enquanto o livro a mim pertencer...

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  7. Lindo texto!
    Comigo é casa de ferreiro, espeto de pau: sou bibliotecária mas meus livros são todos desorganizados na estante. A única separação que faço é livros de biblioteconomia e livros diversos.

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  8. K!
    pois é... uns escolhem o homem da vez pelo aspecto, outros pelas roupas, umas ainda pela conta bancária, e alguns pela lista de livros da cultura on line!! Meninos, olhem lá!! hahahahaha!!

    querida Nina,
    seus livros estão um charme espalhados pela casa inteira. Acho mesmo.

    Gerson,
    obrigada. Volte sempre.

    Meu bebinho...
    aposto que vc tem gibis e afins escondidos entre seus livros de química orgânica que já estão se desfazendo de tão lidos!! ;)

    Lua,
    amo quando encontro cartõesç cartas, estudos dentro dos livros de sebo, é quase um presente, né?

    Te,
    por que esse ditado é sempre tão verdadeiro??

    abraços a todos,
    lulu.

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  9. Até que enfim faz sol em Curitiba... e em Piraquara também ! E desde já devo confessar que não foi fácil alugar o apartamento, ou melhor, sair dele sabendo que os livros ficariam lá... Seu texto me fez perceber que os meus livros estão sentindo o que livros alheios que já olhei estão sentindo. Puxa ! Nem pensava que os meus livros também seriam desvendados, afinal foram tantos anos só eu e eles. Dentro de um dos livros do Saramago tem uma foto que mostra o culpado pela minha paixão por livros, meu pai. beijos, Ana Paula.

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  10. Ai que texto! Que texto!!!!!

    Lulu, que vontade de conhecer você!

    Sim, a biblioteca de alguém o retrata mas de diferente ângulos que nem sempre são visíveis mesmo para os mais atilados olhos.

    Eu tenho mais de 3.000 livros e claro, conto as enciclopéidas com 1 exemplar, mesmo que tenha 50 volumes. Sou apaixonadíssima por dicionários.
    Ah! os guias de viagem e os livros de receitas/!!! Oh my Sweet Lord! Que feiticerinha é esa Lulu?!;-)
    Mas já tive certa vez quando me separei, Lulu, e tive que me deslocar para para outras terras - tive que vender cerca de 2.000 livros - quem for do Rio de Janeiro acho que pode perguntar ao Daniel do Sebo Berinjela.

    Portanto é um retrato econômico-emotivo de alguém. Também.
    E as hemerotecas... não me desfaço por nada de mi has coleções da Revista Fairplay. (Não, não Palayboy, Na Fairplay escrevia até a Elvira Vigna)
    E a coleção do Livro de cabeceira do Homem / e oL. C da Mulher, da Ed. Civilização Brasileira, do Ênuo Silveira...
    Oh boy! For Pete's sake
    =-=-=-=
    Quem necessita de livro a toda hora não pode fazer uma biblioteca arrumada, segundo o Dewey, pois uma biblioteca assim é morta...
    Necessitamos de assuntos, os mais diversos por dia.

    Quanto ao mis, eu digo a você, quem me dera ter capacidade de escrever um texto como este.
    Parabéns
    beijos
    Meg
    P.S- Sou bibliotecária. Ou nelhor, fui.

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  11. Meg,
    fiquei emocionada, de verdade, com o seu entusiasmo. Vamos nos conhecer, cada vez mais, tá?

    um beijo grande,
    Lu

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  12. Lu,(já posso te chamar assim?) se vier a se hospedar aqui em Mongaguá(hj está um sol lindo, bom para praia!) vc vai surtar com meus livros. Todos espalhados. Estão arrumados por ordem de cor. Completamente aleatórios, pois leio e releio constantemente. Nos desfizemos de uma pequena biblioteca há alguns anos e voltamos a acumular novamente. Mas não temos critério nenhum.Receitas,românticos, dicionários, um ou outro didático também. Emfim, na ordem em que aparecem. Mas sei decor onde cada um deles se encontra e saberia te dizer do estado de espírito de cada vez em que lí ou relí cada um. Enfim, coisa de maluco por livros mesmo.
    Parodiando o motorista de caminhão: não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho.
    Um beijo grande

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  13. Walter,
    arrumados por ordem de cor é lindo!!!
    :)

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  14. Oi, Lulu.
    Adorei o texto, a idéia de escrever sobre as bibliotecas alheias. Eu também adoro bisb ilhotar as estantes de livros das casas onde vou. Também adoro folhea-los, ver como sao lidos, se há grifos e comentários... isso me faz aproximar-me de seus donos.
    Faço o mesmo com os discos... eles me falam muito sobre a pessoa também.
    Adoraria alugar uma casa cheia de livros, como você.

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  15. Oi Nora!
    Obrigada.

    Volte sempre!!
    Lu.

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