quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

as coisas e as gentes

Na minha casa não cabe mais nada. É um fato.
Nem um alfinete, não cabe. Acabou, não temos mais espaço. Somos nós ou elas, as coisas.
Então tenho que me desfazer das coisas, já que tendo a optar, entre as coisas e as gentes, pelas gentes. E as gentes precisam de espaços para andar, dormir, comer, então... adeus às coisas...

Vamos lá.
Os livros. Não cabem. É sabido que livros são o problema de quem gosta de ler. Eles exigem espaço, cuidado, categorização, carinho. Exigem paredes que não existem e estantes que são caras. Um problema, esses meninos e meninas de papel...

Quem consegue se desfazer de livros? Hum... não ... não dá para se desfazer dos livros, livros são assim como cachorros que, como todos sabem, também são gente. Livros são gente também. Os livros ficam.
Em filas duplas, na contramão, atrapalhando o tráfego, mas ficam, à nossa espera. Não, não lemos todos, nem nunca leremos, mas eles ficam lá, a leitura propriamente dita não tem nada a ver com isso. Os livros ficam, as paredes são deles, e alguns pedaços do chão também.

E os papéis? Ok, os xerox não despertam o mesmo afeto dos livros, mas... e se um dia precisarmos deles? e aquela apostila sobre Tarot, daquele curso que fiz um dia, mil anos atrás? e se eu um dia me inspirar e quiser saber todo meu futuro, presente e passado? Melhor guardar, nunca se sabe... Fica a apostila de tarot, junto com as cartas de Tarot, em cima dos livros. a gente desvia deles, no caminho para a cozinha.

Os trezentos cadernos acumulados vida afora ficam também, é claro, são eu, meus cursos, minhas coisas escritas, nem se encaixam na categoria "coisa", são gentes também. Ficam. Os papéis de cartas que nunca escrevo e os cartões de agradecimento que jamais envio ficam também, porque um dia tomo vergonha e preencho-os todos, com algumas das minhas canetas, que coleciono. A gente arruma um espaço, para a gente. As canetas e os papéis ficam, é claro.

O badulaquezinho que ganhei da aluna que se formou há cinco anos? fica, ué, tão legal ganhar badulaquezinho de aluna... A medalha de natação, o quadrinho pintado na infância, os bonequinhos prediletos, as bonecas de louça, puxa, como se desfazer de tudo isso? ficam também, a gente se aperta.

Na categoria sapatos/roupa/bijuterias não tem nem o que discutir. Uma ova que me desfaço do vestido-que-não-cabe-mais-mas-um-dia-voltará-a-caber. E não há limite nem bom senso para o número de brincos que uma mulher deve ter. E sapatos... faz-me rir que me desfaço de sapatos, só dos velhos, ok..., e mesmo assim os mais queridos ainda serão levados ao pronto-socorro mais próximo, à procura de uma sobrevida, um ressuscitamento, um transplante de solas e fechos. Sim, quase tudo do armário fica também. Eu entro no quarto de lado, uso só um parte da cama, ninguém repara...

as fotos ficam, as louças para diferentes ocasiões ficam, os cedês ficam (como hão de ir embora, os cedês?) os copos legais ficam, os xales e toalhas ficam, as velas ficam, os cremes ficam, os perfumes ficam, tudo acaba ficando. Como existem coisas nesse mundo.


Ao final da arrumação, percebo, vencida, que as coisas mandam nas gentes...

Ruim será o dia em que elas se desfizerem de mim, pois suspeito que ando ocupando muito espaço, coitadas, as coisas mal conseguem andar .... Sim... logo logo as coisas perceberão que não precisam de mim. E perceberão que na casa delas não cabe mais nada. É um fato.
Nem uma gente, não cabe. E dirão: acabou, não temos mais espaço. Somos nós ou elas, as gentes. e então... adeus às gentes... ficam as coisas.

ai, ai... se eu sumir, já sabem o que aconteceu.

( Lulu em fase de faxina na casa)

15 comentários:

  1. O feng shui (seja lá como se escreve. Falar eu sei pq tive uma colega chinesa num curso)diz que, qdo as coisas não cabem, é sinal de que estamos morando no lugar errado. Significa que temos que ir pra algum lugar maior.

    Meus livros tomaram conta da minha casa. Já pensei em não ter mais cama. Juro. Sei lá, durmo em qualquer lugar, mas os livros ficam.

    Por falar em China e livros, tô indo me entregar aos livros, vou pra China com eles. Não sei qdo eu volto. Beijos k

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  2. ai Lu! Esse texto está lindo! Faço exatamente isso! Sabe o que eu consigo jogar fora? Contas antigas, papeis de débito e de recibo!! O retso guardo tudo! papeli do chocolate que comi, pra colar na agenda e nunca colo!
    Não adianta concordo com vc que certas coisas são gentes!
    beijos com muita saudade de ser uma gente na sua casa!

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  3. Ai, eu estou sofrendo do mesmo mal. E olha que eu tenho por hábito regular dar um monte de coisa...

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  4. querida K,
    os livro são mesmo espaçosos mas vale sempre a pena tê-los conosco, junto com outras coisas e gentes que valem a pena estarem também na nossa cama, neah?

    Fa, saudades da sua gente lá em casa. mesmo.

    Cam,
    e não é que também dou um monte de coisa? acho que as coisas se multiplicam e reproduzem, às escondidas...

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  5. Acho que o acúmulo de coisas que têm status de gente é algo intrínseco às gentes.

    Veja meu caso quantificado de acúmulo de coisas: quando vim para cá, trouxe uma mala e uma mochila, num ônibus.

    Na minha primeira mudança, meus pais levaram minhas coisas em uma viagem de carro. Na segunda, meu tio, de caminhonete; a terceira foi de kombi.

    Na penúltima, contratei um carreto. Na última, foi o carreto e mais duas viagens de carro.

    Para a próxima, acho que vou ter que chamar um caminhão baú, ou vender algumas coisas (o que, obviamente, não vai acontecer, pois não há nenhuma coisa que seja dispensável).

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  6. Equilibrista,
    adorei o percurso: mochila, carro, caminhonete, kombi, carreto! Ficou poético, dá para contar a história da nossa vida assim!!

    K!!! Na China, além de muita gente, tem também internética? num some nos livros, escreve nem que seja em chinês, tá?

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  7. Eu sempre dou muita coisa. Mas, sempre que dou uma, ganho 2 ou compro 3. Dizem que quem dá recebe em dobro, néam?

    Comi muita bala. k

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  8. Lulu, acho que um dia vou contar a saga da peregrinação do equilibrista, e fazer um inventário.

    Eu não costumo dar nada que é meu. E o "bêbado" da minha alcunha é apenas alegórico.

    K., que história é essa de ir à China?! Em tempo: eu não achei seu célebro torto. Bom, também não sou especialista em radiografias...

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  9. Então vc precisa de um oftalmologista. Mas, tudo bem, já mudei a foto do orkut. Estou uma mocinha muito sensível nos últimos dias. Por isso estou sumida.

    Se quiser ver a cor da minha dor, pode voltar ao orkut. Foto nova.

    Beijo (tá vendo? já tô até mandando beijo), k

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  10. Mas não devia se ausentar do sofá vermelho da Lulu! Aqui é praticamente um divã para almas alegres, tristes e confusas. É melhor do que chocolate (e menos calórico)!

    Ouch! *Equilibrista tendo reação empática ao ver o hematoma* Que foi isso? Agulhada de farmacêutico sádico?! Foi por conta das mãos trêmulas de uma auxiliar de enfermagem hipermétrope que eu parei de doar sangue...

    Beijos

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  11. Lulu! Amei, guria!
    Eu ando absolutamente fascista com as coisas, todas indo para a execução sumária, sem direito a contraditório ou ampla defesa. Se elas falam, a gente cede. Seja uma déspota, é o único jeito. :)

    Beijos

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  12. Ticcia!! tô já providenciando mordaças e vendas também, pois tampouco resisto a olhos de súplica...

    (adorei a visita!!)

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  13. Abstenho-me de comentar no post mais recente!

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  14. Retificando:
    Abstenho-me de comentar os três posts publicados imediatamente após este!

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  15. Equilibrista...
    venha para o sofá...
    :)
    hihihihihi....

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