sábado, 20 de janeiro de 2007

Leituras: das fadas à libertinagem

Pedi ajuda a alguns amigos sobre a lista de leituras na escola . E recebi um presente do meu querido amigo Alberto, que escreveu e me presenteou com um texto lindo sobre sua formação de leitor, desde os primeiros livros de contos de fadas até os de libertinagens e pornografias, descobertos nas prateleiras mais altas da biblioteca do pai. Uma beleza de relato.

Vou tentar fazer o meu, fica o convite renovado a todos os leitores, que quiserem narrar suas experiências das leituras e descobertas nas fases primeiras da vida, e muitos têm um monte de histórias, que eu já sei. Se preferirem, mandem por e-mail.
O texto do Alberto ficou tão lindo que reproduzo inteiro, e recomendo a leitura com veemência e gosto.
Obrigada, amigo, adorei!


O primeiro, “os mais belos contos de fadas ingleses”, da editora vecchi, um presente de aniversário da minha tia, em 1962 (eu tinha cinco anos). era lido pra mim por todos que eu conseguia arregimentar pra contarem o “cabeça de vento”, o “jack sai à procura de fortuna”, o “nada”, o “carapuça de junco”, o “jack e o feijão”, a “história do pequeno polegar”, “o poço do fim do mundo”, o “senhor de todos os senhores”. era um volume, pra mim naquela idade, imenso, colorido, alto do tamanho de uma folha a4, capa de cartolina grossa, com um cavaleiro em armadura com a longa espada ao lado e uma dama em comprido vestido cor-de-rosa entre seus braços, diante de um duende careca com o dedo em riste. era cheiroso, bom de acariciar o meu primeiro livro. anunciava muitos outros livros da coleção, mas jamais vi qualquer daqueles exemplares.

e as histórias em quadrinhos compradas todos os sábados de manhã: “batman”, “super-homem”, “homem submarino”, “príncipe valente”; e os quadrinhos guardados pelo meu pai, pro “filho que se interessasse”, desde a década de quarenta e cinqüenta: o “globo juvenil”, o “gibi mensal” do tempo da segunda guerra; e a “edição maravilhosa”, que eram quadrinizações de “clássicos da literatura”, num reforço pela imagem de muitos livros lidos ou estímulo pra ler. o oceano do “príncipe submarino”; o crime em “dick trace”; a velocidade alucinada de “zaz-traz”; a 2a guerra com muitos super-heróis, todos contra os nazistas que pareciam animais impiedosos; o “espirit” em preto e branco cheio de sombras acentuando o mistério e a profundidade. e as imagens encadeadas, cada uma diferente da outra e por dentro dos olhos, na imaginação, tudo fluía, a história se desenrolava, aparecia. ali fora não havia história: tudo era de dentro, era eu mesmo quem criava aquela história, como no cinema que eu, além de assistir, ia ver a grande máquina na salinha de projeção iluminando o salão através de um quadradinho, a luz vindo do encontro de dois estiletes que queimavam, caíam no chão e eram trocados. cada imagem num quadradinho quase igual ao outro. quem formava o filme eram meus olhos. ali dentro o universo todo se descortinava. o cinema era uma história em quadrinhos mais minuciosa projetada numa tela. diferente dos livros, que eram uma história em quadrinhos em palavras que eu mesmo projetava como num sonho, numa conversa.

e os incontáveis volumes de tarzan, de edgard rice burroughs, a selva, os animais, a leveza, a coragem sobre tudo, a cidade de opar, o leão de ouro, a luta por ser e se impor, a leitura nascendo sozinha, o combate; o “sherlock holmes” de conan doyle com sua lógica perfeita que antecedia o que ia acontecer e o que havia acontecido por vestígios imperceptíveis, e as tramas perfeitas se articulando, o escritor-aranha tecendo suas teias; as delícias de júlio verne, “vinte mil léguas submarinas”, “a ilha misteriosa”, “a volta ao mundo em 80 dias” descortinando uma imaginação e um universo capaz de tudo: envolvido pelo cheiro dos volumes da lello&irmão e suas capas avermelhadas em tecido colado; a “viagem aos impérios do sol e da lua” de cyrano de bergerac, onde a imaginação consegue levar alguém à lua, bem longe de tudo; as destrezas de maurice leblanc com seu arséne lupin, um ladrão perfeito e instigante; o universo insuperável de michel zevaco com seus “pardaillans”, seus “amores de nanico”, a “a ponte dos suspiros” “o pátio dos milagres”, onde cada luta, cada paixão era um acontecimento vital: onde a amizade era um valor superior: e a luta com o pai na escuridão; alexandre dumas, o sem igual, com os “três mosqueteiros”, as “memórias de um médico”, “os irmãos corsos”, “a tulipa negra” e o insuperável “o conde de monte cristo”, onde todos os sentimentos se articulam numa vingança sem igual; e “nossa senhora de paris” que me horrorizou, encantou e abismou chamando “o homem que ri”, marcado pra sempre com o riso das feiras e os labirintos da sorte, e “os trabalhadores do mar”, com a luta monstruosa e, depois, a escolha tranqüila da morte e o amor, sem esquecer “os miseráveis”, o olho do sapo mirando as estrelas, e tudo o mais de victor hugo numa coleção de obra completa encadernada em cor-de-rosa sobre as capas originais; “as mil e uma noites” num único volume pra crianças, sem o erotismo, sem a violência, sem a dimensão literária de labirinto e hipertexto, fragmentos reescritos pra uma infância normalmente idiota; o robert louis stevenson da “ilha do tesouro” e “dr. jekyll e mr. hyde”, com sua sutileza e poder de descrição: quem pode contar uma história tão bem?; lewis carroll e sua “alice no país das maravilhas”, onde a imaginação não somente pode tudo, as palavras podem tudo, mas o escritor também é alguém que não deve ter limite algum em seu delírio; h.g. wells com “o homem invisível”, livro que havia sido do meu avô, numa das traduções de monteiro lobato, um escritor que jamais li; “o vampiro da noite” de bram stoker contribuindo pro devaneio de antes de dormir; o “frankenstein” de mary shelley mostrando como se cria um homem, e que um dia seria um momento fundamental da minha própria escrita; la fontaine e seu universo de animais que são um espelho dos homens: os homens sempre menores que os animais; e os “contos maravilhosos” de muitas literaturas em coletâneas - uma experiência arriscada a travessia de cada livro.

e no alto, bem lá em cima da estante maior da biblioteca, que ia do chão ao teto e era de madeira, alguns livros diferentes, com imagens diferentes. primeiro “os exercícios de devoção” do abbade de voisenon; depois “sensualidade” composto por fragmentos de “obras licenciosas” de júlio ribeiro, pierre louis, rousseau, petrônio, anatole france, pitigrilli; “uma noite com ellas: contos galantes” por rabelais e “contos libertinos” de sade; e muitos outros, cada um melhor do que o outro, com gravuras deliciosas; sem esquecer que junto desses livros estavam algumas “revistas pornográficas” da década de sessenta, num envelope marrom, como se devessem não ser vistas: e as imagens invadiram meu corpo, meus sonhos, minha imaginação: os corpos, o desejo, o gozo e a razão da existência apareceram na minha vida, sem os vazios, sem as tarjas pretas do pudor ditatorial e autoritário, sem a ponta indistinguível dos seios, sem o pelo e quase sem a pele: havia muito mais do que horror cotidiano; mas o principal foi “minha vida, meus amores” de henry spencer ashbee: esse foi uma das maiores confluências da minha vida: nele há uma vida livre, alegre, gozadora, libertina, plástica, imoral, sensual e sexual, uma violência inescapável e cínica, um aprendizado insuperável, uma escrita sem pudores, criativa e múltipla: uma vida que vale a pena ser vivida, uma vida que gera literatura e o conhecimento que a literatura só seria feita com uma vida assim, só haveria inteligência a partir de uma vida daquelas: aquele seria meu labirinto. além da secção de “livros eróticos” e “revistas pornográficas” do meu pai (um momento maravilhoso pra uma criança que escolhe o caminho), esse último livro foi um dos poucos que ainda mantenho como essencial não pra minha formatação, mas pra minha formação.

e havia a “biblioteca internacional de obras célebres” em vinte e quatro volumes em percalina verde, recheada com fotos e gravuras de escritores e artistas (onde comecei a reconhecer o rosto dos escritores), trazendo textos desde o egito até o começo do século vinte que fui devorando através dos anos com uma fome deliciosa. ali conheci muitos textos que atravessarão minha vida inteira mantendo o sabor e a surpresa do momento. a essa coleção associo sempre a biblioteca do meu pai, à noite, no fundo do quintal, entre árvores, a cidade silenciada, os pássaros dormindo, o sabor travoso de castanholas roxas desabando entre pardais, o odor verde de cróton incluindo, misturando, fundindo tudo, a naftalina, a poeira, os livros, as paredes brancas, a luz amarela do abajur, a fofura densa da poltrona à voltaire ou a cadeira de madeira armada que sempre desabava, a atmosfera daquele momento com a imortalidade, o medo, o desejo e a ânsia com vida que um dia iria se abrir, e não chegava nunca.

e um livro amarelo que eu lia aos poucos sentado nas praças, nas calçadas, em baixo das árvores na casa do meu avô. era o “panorama da literatura brasileira” com “introdução e notas de afrânio peixoto, da academia de letras”. hoje sinto esse livro com horror, mas no tempo ele descortinava textos dispersos da literatura brasileira.

tudo isso entre os cinco e os treze anos de idade. parece que não se fiz outra coisa. mas não é verdade.

2 comentários:

  1. Lulu, há algum tempo o Biajoni fez um post perguntando "Que livro te fez gostar de ler?" (http://www.verbeat.org/blogs/biajoni/arquivos/2006/10/pesquisa.html) Os comentários são bem legais, e ainda que falem sobre livros marcantes na infância, antes da fase que vc pergunta, pode ser interessante para vc. Eu me empolguei e fiz um post sobre o assunto também (http://terapiazero.blogspot.com/2006/10/sobre-livros-e-leituras.html).

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