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quarta-feira, 4 de julho de 2007

desejo ou ego?



Bordado pela Mari, do costuricas.

sim, fiquemos com os desejos.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Releitura do Mário de Andrade








Dar, verbo intransitivo.












sexta-feira, 1 de junho de 2007

das imagens

Acho que graças à generosidade dos amigos, que ficam badalando essa luluzinha aqui, a visitação desse brógui mal ajambrado disparou nos últimos tempos. Disparar, vejam bem, quer dizer ir para mais de cem visitantes diários, e ficar nessa média. É claro que há os desavisados, que vivem clicando xoxota no google e vêm parar aqui ( se vc não conhece, acho que é a caixa de comentários mais divertida dessas bandas) , ou que querem saber como fazer trabalho sobre o Cavaleiro Inexistente, ou como fazer redações de amor, blusas de crochê e tal. O fato é que o ibope andou subindo, e eu andei me intimidando.

Conversava sobre isso com uma amiga querida. Que a escrita no blog é um exercício diário, para mim, de desencanação. Explico-me: sento e me examino, o que está pedindo para ser escrito? é isso que devo escrever. Quanto mais verdadeiro - não no sentido de revelação das entranhas e do colo do útero, mas verdadeiro no sentido de simples, direto, sem tipos ou poses - melhor fica. Quanto mais preocupado com os outros, todos, e são muitos os outros, pior fica.
Porque a necessidade de querer cumprir a expectativa alheia é sempre comprometedora, no mal sentido, porque corre-se o risco de deixar de se ouvir, e querer ouvir a voz de outros que nem se sabe quem são.

É melhor eu me inventar, que inventar aos outros, isto é, melhor eu tentar me agradar e me construir por aqui, na medida dos meus desejos, inquietações e vontades - e a partir daí de repente estabelecer diálogos, amizades, contatos, o que vier - do que tentar me construir por aqui na medida do que eu acho que devam ser os desejos dos outros.

Isso eu estou escrevendo que é para eu me lembrar. Que esse blog é fruto de um querer meu, que querer liberta, e que não é para eu me prender de novo, com medo de sei lá o quê.



Um beijo grande a todos,

Lulu.


E aqui,algumas pinturas que eu amo, imagens de uma mulher- que não é uma mulher qualquer , e qual mulher é uma mulher qualquer? - Madalena, contemplando a luz do fogo, contemplando a imagem de um espelho vazio, que reflete a luz da vela que é sempre temporária, que é corpo de cera, finito, moldável ao calor do fogo, também finito, como a vida, e nós mesmos.
Também nos quadros aparecem páginas escritas, a caveira de um crânio, e um olhar melancólico, porque afinal somos ossos e peles e carnes, e pronto, mas - como diz o outro- tenho em mim todos os sonhos do mundo.


As imagens são bastante melancólicas, mas tão lindas... e fica até sem graça eu colocar imagens assim num post sobre crise existencial de brógui mas... lá vai.


Do pintor Georges de La Tour, que brincava com a luz e as sombras e construía alegorias de vida e eternidade.

imagens retiradas daqui.





sexta-feira, 4 de maio de 2007

Pessoas que se acham

A pessoa que se acha se acha tanto que não consegue rir de si mesma, aliás, a pessoa que se acha geralmente não tem outro assunto a não ser ela própria e todos os seus feitos, aliás a pessoa que se acha geralmente é tão ocupada em se achar que não sabe rir. De nada.

A pessoa que se acha não tem chulé, não dorme nunca até mais tarde, nunca passou ridículo na vida, conseguiu tudo o que quis na vida durante a vida inteira e sempre tem um certo arzinho condescendente em relação aos outros, meros mortais. A pessoa que se acha parece que nunca sofreu na vida, nunca levou porrada, nunca nada. E dá conselhos e "dicas".

Detesto pessoas que se acham, detesto com todas as minhas forças. Porque pessoas que se acham geralmente são burras e desinteressantes, são autocentradas e gostam de ditar regras.

Atenção: detesto falsa modéstia também. A pessoa que se acha não é aquela que chega e fala: sou bom à beça nisso. Escrevo hiper bem, cozinho muito, sou linda, sei lá. Isso eu acho bacana, a gente tem mais é que assumir nossas qualidades sem culpa e sem medo, e anunciá-las e falar do que gostamos e do que não gostamos, e não perder tempo com gente desinteressante ou burra.

Mas não perder tempo no mundo, construir o próprio caminho e saber das suas qualidades não é se transformar em pessoas que se acham. Porque ninguém, mas ninguém mesmo, é o último pacote da bolacha, a última coca-cola no deserto, ou ( essa eu adoro! ) o i do Mississipi. E qualquer pessoa inteligente e sensível sabe disso. E por isso pode rir de si própria, e por isso pode ser feliz. Já pensou, quanta responsabilidade e preocupação, ser sempre o máximo do máximo do máximo?

A pessoa que se acha acaba ficando pesada, pois acha que carrega consigo toda essa responsabilidade. Geralmente não tem a menor, mas a menor idéia do que acontece ao seu redor, mas acha que tem. É na verdade chata, mas se acha legal. Burra, se faz de inteligente, e sempre, sempre, a pessoa que se acha, acha que tem o mundo aos seus pés. Corrige os outros, é cheia de Certezas.

Conheci outro dia uma que só ficava comentando como era chato ter que desviar o tempo inteiro das investidas que todos os homens lhe faziam sem parar. Eu comecei a rir, mas aí percebi que ela falava sério. E perguntei: ah é? nenhum resiste? Ela: " não.. todos caem... " Foi cômico, mas meio trágico ao mesmo tempo.
Outro, não parava um instante, mas nem um segundo sequer, de falar de si. Como eu sou isso ou aquilo, num papo sem fim, que nem uma mulher apaixonada aguentaria, quanto mais nós.
Ou aquele que sempre tem uma opinião sobre tudo, que se usa como exemplo, cita a si próprio, sei lá.

Apareceu na minha vida, por motivos profissionais, uma pessoa que se acha. E a cada encontro que tenho me encho mais e me convenço mais que o que realmente me interessa nessa vida é a imperfeição, as taras, os fetiches, as obsessões assumidas, o riso, as tentativas e os tombos. A pessoa que se acha pode ficar lá, no Olimpo dos que se acham, desinteressante, chato e tedioso, que eu fico por aqui, me divertindo, aprendendo, e cheia de interesse pelo mundo e pelas outras gentes, que podem ser gentes, sem precisar ser deus.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

de incertezas

Eu que queria tanto ter certezas, lavar carro aos domingos, torcer pro corinthians, achar o mundo bom e essas coisas.

Queria tanto saber de uma linha bem reta e segura para seguir na vida, sem nem piscar nem olhar pros lados.

Vivo na maior incerteza, a cada dia me refaço e aprendo o mundo inteiro de novo, olho pr´atodos os lados e mal sei prá onde vou. Às vezes mal me reconheço e raramente sei me explicar. E acho isso bacana, construo meus valores, revejo-os, me abro, desarmo e armo, não passo regras a ninguém, busco uma felicidade, um estar bem, e vou buscando, aprendendo na linha torta da vida.

E fui aprendendo que obscena é a certeza cega, que não percebe o outro e não se indaga nunca, que é fundamentalista a certeza absoluta, incapaz de empatia pelo que é radicalmente diferente, estranho, outro. Foi uma pessoa querida e importante que me disse isso, quando eu estava com o peito opresso, doído de angústia. Porque a certeza do outro me abate ainda. Porque eu fico achando que não sei nada. Porque a própria vida incomoda os outros e eu me incomodo ainda em incomodar. E, pior ainda, aqui entre nós, tem gente que se incomoda mesmo até com a felicidade alheia. Porque tem gente que aponta o dedo, estufa o peito e diz: isso é errado, isso é imoral, isso sei lá o quê, e diz vai pro inferno, pra cadeia, pro quartinho, pra zona, vai pegar doença, vai se dar mal. Gente que se incomoda horrores com a vida dos outros, que não agüenta caminhos diferentes e adora jogar uma pedra.


Buscar um caminho próprio de felicidade às vezes parece tão difícil, mas é melhor do que ficar frustrado, arrependido, magoado.



Incômodo é quem sai da linha, decide por andar para trás ou para os lados. E eu me acho às vezes tão incômoda que me curvo e a mesma pessoa me falou que nosso caminho é saber viver na incerteza, porque ela é uma espécie de resguardo da dignidade, contra os fundamentalismos, esses sim obscenos.

Que nossa moral, nossa ética, nossas explicações para o mundo, nosso ser e existência não são dados nem explicados de antemão, fazemos e criamos o que somos, e é difícil, mas isso também significa liberdade.

Então às vezes, quando fraquejo e vejo em mim uma vontade de certezas, uma insegurança para a vida e mesmo, mesmo uma faltinha de coragem, para, depois de um diálogo interno, saber o que eu acho certo e errado e enxergar e poder falar e mesmo combater a obscenidade da certeza alheia, quando fraquejo me lembro que não, que a liberdade foi conquistada e que é para se atirar no mundo, mesmo sem saber.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A cor não é transparente 2

Aqui, copio e colo artigo importante que saiu hoje na Folha de São Paulo. Para quem ainda acha que vivemos numa democracia racial....


O dilema da nação

JOSÉ VICENTE

O Brasil, tendo por referência os negros, ocuparia a 105ª posição no ranking de IDH entre países. Considerando só os brancos, ocuparia a 44ª

NO BRASIL, a despeito do discurso oficial justificar a distância e a invisibilidade social com a tese da discriminação social, um instrumento surpreendentemente demolidor tem deitado por terra a fragilidade e a inconsistência desses fundamentos que pregam a cantilena da democracia racial.
Importantes e atuais pesquisas isentas de organismos insuspeitos têm contribuído para colocar por inteiro e confirmar à exaustão o que sempre se soube informalmente: no Brasil, o segundo maior contingente de negros do mundo, a discriminação racial atinge níveis estratosféricos.
O IBGE aponta que os negros compõem 45% da população brasileira.
Nos estudos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, considerando o Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil, tomando como referência os negros, ocuparia a 105ª posição no ranking entre países.
Considerado só os brancos, ocuparia a 44ª. São 61 posições de diferença.
O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) noticia que, nos últimos dez anos -oito de social-democracia-, a distância social dos negros em relação aos brancos aumentou.
Entre os 10% mais pobres do país, 65% são negros; entre os 10% mais ricos, 86% são brancos. O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) comunica que, para trabalho igual, com mesma qualificação e igual anos de estudo, o negro recebe até 50% a menos que os trabalhadores brancos, e a mulher negra, até a metade do salário do homem negro.
O Instituto Ethos informa que, nas 500 maiores empresas do país que praticam responsabilidade social, os negros representam só 3,5% dos cargos de direção -e não é diferente nas estatais e nas multinacionais.
Aliás, e por incrível que possa parecer, muitas delas, atuando em país miscigenado, não desenvolvendo nenhuma ação de valorização da diversidade racial e não possuindo um funcionário negro sequer nos cargos de direção ou chefia, ainda assim são detentoras de certificações internacionais por práticas de ações de sustentabilidade socioambiental.
Em rápida e superficial imersão visual na comunicação social, concessões públicas que devem cumprir o fundamento constitucional da pluralidade, na propaganda oficial custeada por recursos dos contribuintes -negros também- e na propaganda comercial para comunicar e vender produtos e serviços para consumidores -negros também-, estes praticamente inexistem.
Nos aportes milionários dos fundos de pensão das estatais que abrigam a contribuição dos funcionários -negros também-, nas renúncias fiscais caracterizadas pelas leis de incentivo à cultura, ao cinema, ao teatro, ao esporte e à pesquisa ou de fomentos setoriais e às pesquisas -contribuição financeira dos negros também- e nas licitações e compras governamentais não há uma recomendação que seja no sentido de ser considerado nosso orgulho nacional da rica, valiosa, criativa, única e bonita miscigenação, garantindo sobremaneira atenção à diversidade racial e à efetiva participação dos negros na sua realização.
Ao final, no maior Estado e município da Federação, São Paulo, que agrega o maior contingente de negros do país, 30% de sua população -eleitores também-, não existe sequer um negro no primeiro e segundo escalão de governo. Não há um desembargador negro entre os quase 400.
Não há um procurador de Justiça, um delegado classe especial ou um coronel da Polícia Militar negro.
Na USP, maior universidade da América Latina -custeada com impostos pagos por negros também-, são 2% os alunos negros e, dos 5.400 professores, menos de dez são negros.
Assim, como realizar os fundamentos da cidadania e da dignidade da pessoa humana e construir uma sociedade livre, justa, solidária e que promova o bem de todos sem preconceito de raça e de cor sobre esses pilares com pés de barro?
Como alcançar os desígnios da paz, tranqüilidade, coesão e progresso social numa nação cindida e que joga na lata do lixo metade dos seus cérebros e talentos e, onde o gozo e usufruto dos bens, riquezas e oportunidades são disponibilizados apenas à parcela dos filhos da pátria?
Como se pode ver à saciedade, os números e os dados são latentes e insuperavelmente indicativos de que, menos por conta da discriminação social, do racismo cordial à democracia racial, do milagre brasileiro ao neoliberalismo, o mais intrincado e decisivo dilema da nação continua intocável, e o negro brasileiro continua onde sempre esteve, no porão, separado e desigual.

JOSÉ VICENTE, 47, advogado e sociólogo, é reitor da Unipalmares (Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares) e presidente da Afrobras - Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sociocultural.



Sobre o assunto:
Aqui no Diário: A cor não é transparente.
E, se você ainda não conhece, no Biscoito Fino: aqui.

domingo, 1 de abril de 2007

A cor não é transparente

Revoltante o Mais desse domingo sobre a questão da discriminação de brancos contra negros ( e inverto a chamada de capa propositadamente) no Brasil.

E junto, intelectuais avaliam se o sistema de cotas deu certo no país. Questão: há um sistema de cotas nacional? de que sistema de cotas se está falando? Em quais lugares e de que maneira ele foi implementado? Nas universidades em que foi implementado ( e de maneiras bem distintas), o sistema já está em curso há tempo suficiente para se fazer avaliações assim categóricas?

Claro que nada disso importa, assim como não importa ouvir com cuidado as declarações de nossa ministra, que colocou com palavras infelizes o fato importante e óbvio de que a tendência é a de que o explorado sinta sim raiva do explorador. Importa a simplificação, importam os rojões de uma elite branca que sente-se no direito de comemorar: viu??? também somos vítimas de preconceito!! e aliás do que Eles estão falando? Não existe negros nem brancos mesmo no Brasil... somos todos essa mistura liinda... O que existe são pobres e ricos...
sei.
A antropóloga Yvonne Maggie disse assim:
"A maior parte do povo brasileiro não se pensa como negra mas, sim, como misturada e não quer ficar ficar presa a uma classificação rígida"
Claro... Somos todos morenos, morenos mais escurinhos ou menos, todos iguais idênticos, até porque é meio feio falar que tal pessoa é negra, não é mesmo?
Não sei como a maior parte do povo brasileiro se vê, mas sei que a maior parte dos negros é sim vista como negra, a cor não é transparente e carrega consigo uma história que aqui é a história de um país escravista, tradicionalista e autoritário. O negro é sim negro. E isso implica sim um tratamento desigual, que se revela no dia-a-dia, nas pequenas e grandes coisas. Quem não vê isso é porque não quer ver.

O apagamento da cor é muito perigoso, porque retira da vítima do preconceito seus direitos de vítima e retira do perpetrador o seu crime, afinal... argumento também presente nas páginas do jornal, quem fala de racismo é que é racista, já que já foi provado que não existem raças humanas, não se pode mais falar de racismo.
Ora... Façam-me o favor! esse foi exatamente o argumento usado por um juiz do sul ao absolver um editor anti-semita: não existe racismo, pois não existem raças, portanto não há como se aplicar a lei anti racismo. Seria risível se não fosse trágico.

Eu, branca, nunca fui barrada na porta de lugar algum, nunca fui vítima de batidas policiais por estar simplesmente andando na rua, nunca acharam que eu fosse a empregada, a babá ou a faxineira de algum lugar, nunca me indicaram o elevador de serviço... nunca me olharam torto por causa da minha cor, e a cor da minha pele nunca foi sinônimo de ofensa, de feiúra, de coisas ruins. Na adolescência, namorei um tempo com um homem negro, e fomos uma vez parados pela polícia. Claro... coincidência...

Não existe racismo nesse país.

O Luiz Mott tem o displante de dizer:
"Eu próprio já fui chamado de branquelo azedo. Nunca ouvi nenhum branco chamar negro com termos preconceituosos de antigamente"
Antigamente quando? Revoltante. Eu teria vergonha.


Primo Levi, em seu extraordinário livro Os afogados e os sobreviventes fala do desejo de simplificação que assola nossas mentalidades. Ele diz assim :

" aquilo que comumente entendemos por "compreender" coincide com "simplificar": sem uma profunda simplificação, o mundo ao nosso redor seria um emaranhado infinito e indefinido, que desafiria nossa capacidade de nos organizar e decidir nossas ações. Em suma, somos obrigados a reduzir o cognoscível a um esquema: tendem a esse objetivo os admiráveis instrumentos que construímos no curso da evolução e que são específicos do gênero humano, a linguagem e o pensamento conceitual. (...)

A história popular, e também a história tal como é tradicionalmente ensinada nas escolas, se ressentem dessa tendência maniqueísta que evita os meio-tons e a complexidade: são propensas a reduzir a torrente dos acontecimentos humanos aos conflitos, e os conflitos a duelos, nós e eles, os atenienses e os espartanos, os romanos e os cartagineses. Decerto, este é o motivo da enorme popularidade dos esportes espetaculares, como o futebol, o beisebol e o pugilismo, nos quais os contendores são dois times ou dois indivíduos, bem distintos e identificáveis, e nos fim da partida haverá os derrotados e os vencedores. Se o resultado é o empate, o espectador se sente fraudado e desiludido: num nível mais ou menos inconsciente ansiava por vencedores e perdedores, identificando-se respectivamente com os bons e os maus, porque são bons o que devem levar a melhor, senão o mundo estaria de pernas pro ar." ( Levi, Primo. Os afogados e os sobreviventes)

Um caderno cultural de um jornal que se quer sério não pode render-se ao desejo de simplificação. Sim, a Folha de SP sempre cai nele, pois ao desejo de simplificação soma-se o desejo da polêmica fácil e rasteira, aí faz-se a festa. Mas achar que é possível já fazer julgamento sobre se o sistema de cotas no país(??) deu ou não certo ( ???) é rasteiro e irresponsável demais.
Fazer um caderno inteiro sobre a questão do racismo onde a maioria dos entrevistados retira essa questão do centro do problema substituindo-a por questões de desigualdades sociais, ou de preconceitos mil, é demais.

A cor não é transparente. A opção sexual ou religiosa das pessoas, tão pouco. Diminuir esse fato é colocá-lo debaixo do tapete e perpetuar as diferenças e as violências. Há sempre uma vontade brasileira de apaziguamento dos conflitos, pautada no nosso celebrado jeitinho em uma suposta abertura, uma suposta democracia.

O homem cordial, do qual fala Sergio Buarque de Holanda, nos Raízes do Brasil, é inúmeras vezes mal lido e mal entendido como o homem gentil, que não quer briga, que deixa prá lá, do apaziguamento, que é todo afeto e amor. Que nada, está lá no Sérgio, o homem cordial é violento, violentíssimo.
É o homem, ou a mulher que chama a empregada de "da família" enquanto a coloca para trabalhar das seis da manhã às dez da noite e a coloca para dormir em um quartinho onde não caberiam os armários e lhe paga um salário de fome. É o homem que brada "você não sabe com quem você está falando?" Que bate na mulher com quem dorme. E que completa todas as suas frases com "meu querido...". "meu amor..."

A violência escondida, silenciada, mascarada é terrível. Ao meu ver, incomoda a lembrança de que sim, os negros foram açoitados, foram escravizados, são discriminados. De que sim há conflitos. Que há sim negros e brancos, que uns estão no poder desde que o Brasil é Brasil, outros não, outros foram escravos. Que as coisas são mais difíceis e complexas do que uma simples mistura.

É hora de olhar para o mundo com um pouco mais de humildade, ouvir e parar para pensar, sem que sucumbamos ao desejo de simplificação.


Em tempo: o único argumento apresentado no Caderno, que supostamente invalidaria o sistema de cotas do Brasil é o de que muitas das vagas reservadas para cotistas ficam ociosas. Toda universidade pública tem muitas vagas ociosas, esse é um problema das universidades, que não se resume às vagas para cotistas.


e sobre a questão das cotas e da declaração da ministra, leia as excelentes e lúcidas colocações feitas no Biscoito Fino, que inclusive nos deu a honra de linkar esse escrito aqui. Aqui

quarta-feira, 14 de março de 2007

mini conto

Tem trinta anos e acordou. Já são seis horas? Pô... perdi Malhação.

sexta-feira, 2 de março de 2007

apartheid brasileiro

Excelente e importante discussão rolando ali no Alex.
Não percam.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

a cada vez

O mais difícil, eu acho, é viver a cada vez como se pudesse ser a última, como se fosse a primeira, como se não pudesse ser desperdiçada. O mais difícil é não perder o momento, é lembrar de respirar, curtir muito, olhar, sentir os cheiros, o tato, o gosto, ver as formas e cores, e ouvir toda ela, a vida, que tá ali, a todo instante, agora. O mais difícil é sermos sinceros conosco, com nossos desejos e vontades, de longo e curto prazo, e verificarmos, com cuidado, o que é realmente importante, e batalharmos por nossas bestas importâncias. O mais difícil é seguirmos nossas decisões, e sermos nós mesmos, e como é difícil ter coragem de levantar da cama, às três da manhã, para fechar melhor a janela que ficou meio aberta, por onde entra aquele fio de ar gelado, que incomoda. Mas como é bom não ignorar o tal do frio do ar gelado, e criar coragem e força, levantar e fechar a porra do vidro e dormir bem depois, sem incômodo.
Difícil é não exigir tanto e, no vagar dos dias, nos divertirmos muito, que, afinal, daqui do mundo nada se leva.
Difícil é ser, mas é bão também.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

dar certo na vida

Uma vez, no colegial, olhei para dois colegas, que não eram meus hiper amigos, mas eram duas pessoas que admirava, e falei assim, para minha super e sábia amiga Helena:
- Fulana e Sicrano são tão legais e inteligentes, né? Acho que eles vão dar certo na vida.
A Helena olhou para mim e respondeu:
- Lu, eles já deram certo.

E eu fiquei que nem boba, pois ela tinha toda razão. Já demos certo, sempre, aqui, no presente. Nunca somos realizados, ainda bem, e sempre já demos certo, na vida, porque dar certo não quer dizer ganhar dinheiro, fama, filhos, super empregos sei lá o quê. Dar certo significa existir, e ser uma pessoa legal.

Para meu amigo Zusé, que ontem ligou para mim chorando e disse todo triste que estava cheio, cheio de vida dentro dele, e tinha medo de não conseguir vivê-la. Queria que ele acreditasse que já a vive, toda a vida que tem dentro de si, simplesmente existindo e sendo.
Feliz aniversário, meu amigo querido.
lu.

domingo, 7 de janeiro de 2007

Bacana, mas...serve prá quê?

Na manicure, renovando e lixando as garrinhas vermelhas, tendo lido (?) já toda as Caras & Bundas disponíveis, compadecida pela sorte da Suzana Vieira mas sem novas fontes sobre os vexames e emoções do final de ano dos ricos e famosos, ou seja: sem saída nem opção, no caminho para a salinha dos horrores depilatórios, despenquei para a Veja, página de Comportamento...
A manchete:
"Com a ajuda dos meus amigos"
A chamada:
"Pesquisas mostram que amizade turbina carreiras, melhora a saúde e até prolonga a vida"

Pronto, tudo tem que servir para alguma coisa nesse mundo, não é mesmo? Então, ufa, ainda bem que descobriram que amizade serve para ganhar dinheiro, melhorar a saúde e, até mesmo, prolongar a vida.

Vambora fazer amigos, mas, olhem lá, eles têm que se alimentar direito, pois estava escrito lá que amigos com dietas saudáveis levam 50 por cento dos amigos deles a ter uma dieta saudável também.

E aí comecei a pensar no Afonso Augusto...

O Afonso Augusto, que leu essa matéria, lê avidamente todo esse tipo de matéria, porque ele é uma pessoa que não veio aqui a passeio
e tem grandes ambições em sua vida. Afonso está em sua jornada em busca de amigos, portanto carreira melhor, portanto saúde melhor (?), portanto vida mais comprida (? ... ), hum... principalmente, carreira melhor, ele não está aqui a passeio.

Afonso é prevenido e calcula sua jornada com método e formula objetivos e etapas para alcançá-los. Antes de iniciar o processo de enturmação e amizade, antes mesmo de convidar o pessoal do escritório para tomar algo em sua casa, Afonso Augusto matricula-se nas aulas de culinária da Lucinda Amaral, que é uma banqueteira de mão cheia e inclusive fez o buffet de casamento de Lili de Vasconcellos e Bragança.

Ali, Afonso aprende a fazer aperitivos fusion, que misturam a culinária Malásia com uma pitada de baianidad, e que certamente impressionarão qualquer amigo. Aprende também a se soltar um pouco mais, e aprende que precisa entender de bebidas...

O lance agora é servir vinho e tecer comentários inteligentes e sensíveis sobre seu aroma e personalidade. Afonso Augusto vacila... vinho? Além de ser bom para impressionar os tais amigos... será uma boa idéia?

Aliviado, A. A. lembra que também leu uma reportagem que discorre sobre todas as benesses do vinho: desentope artérias, afina o sangue e inclusive os franceses vivem mais e são mais magros que os americanos por causa desse remedinho sorvido em quantidades abundantes e diárias. Augusto pode tomar vinho, o vinho é bom pro Augusto - com moderação.

Afonso Augusto segue na sua jornada carreira-saúde-vidacomprida, aliviado e bastante disposto. Como ainda está meio sem amigos e portanto ainda não freqüenta a importantíssima instituição da happy hour ( hora feliz: das seis às oito, às quintas e quartas) onde negócios são feitos, redes estabelecidas e pessoas influenciadas, A. A. ainda tem algumas noites livres... Há um curso de degustação de vinhos naquela loja (ai... loja não.. desculpem-me... Emporium...) perto da casa de Afonso e ele se matricula ( etapa 2), todo animado e focado em seus objetivos.

Ali, inclusive, além de aprender a tomar vinho, Afonso sabe que poderá fazer ainda mais amigos, e de outros universos de trabalho, ou seja, dois benefícios cumulativos em um curso só, e sua carreira, saúde e vida já estão, certamente, alguns números na frente das do Zé, seu vizinho. Pois a reportagem da Veja também ensina que seus amigos não podem ser todos do mesmo ambiente, mas devem estar espalhados por vários eixos que vão se transformar em teias de relacionamento e redes de influência (tem um nome em inglês chiquérrimo pra isso, mas eu esqueci). Perfeito o curso de vinho.

No curso de vinho, Afonso se enturma e acaba conhecendo Raquel, que degusta um Chardonnay como ninguém. A essa altura, Afonso Augusto - que
naquela dia esquecera-se da moderação e exagerara na degustação - começa a esquecer também da amizade e lembrar do sexo. Hum... Será? Estará Afonso Augusto correndo perigo de esquecer seus goals e perder-se de seus objetivos?

Felizmente, logo ele lembra de uma outra reportagem lida que falava de todos os benefícios do ato sexual: melhora a pele, gasta calorias, fortifica o coração, e proporciona endorfinas suficientes para deixar qualquer um com o bom humor necessário ao impulsionamento da carreira e prolongamento da vida. Além disso, a coisa, ainda por cima, devido às endorfinas liberadas e à sensação de bem estar que gera, te libera do chocolate e todos os efeitos maléficos que ele traz (mas isso foi a Raquel quem pensou). A coisa serve super, substitui inclusive a esteira da academia, e Afonso Augusto e Raquel, completamente liberados, vão juntos para a casa de Afonso, tranqüilos e sem culpas. (Ufa!)

Na cama, Raquel, mostrando-se super desenvolta - porque afinal de contas ela tem amigas, ascendeu na carreira e é uma mulher moderna que vive bem com seus desejos - começa, em meio ao rala e rola, a explorar as regiões mais escuras e fechadas da anatomia de Afonso, ali onde o sol não bate nunca. Ele por um momento gela, mas logo se lembra que leu uma reportagem na New Yorker, por meio de um blog, falando que não só o negócio tá na moda como também a estimulação da próstata tem efeitos anti-cancerígenos
, e Afonso Augusto, ainda que com a mente um tanto turvada, lembra que aquilo que a Raquel tá querendo fazer serve também, e relaxa e entrega seu cuzinho aos cuidados da moça, feliz por diminuir suas chances de morrer precocemente por causa de uma próstata maltratada.

E então, pouco tempo depois, Afonso não só fez amigos como, na próxima reuniãozinha em sua casa, poderá até apresentar a Raquel (o que mostrará a todos que não só ele não é gay - apesar de entender e falar tanto de vinhos - como também é uma pessoa estável, que cultiva relacionamentos firmes) e servir manga com camarão apimentado enrolados em bijou de tapioca.

A.A. sorri consigo mesmo: sabe cozinhar, se alimenta bem, faz exercícios, bebe seu vinho diário, tem amigos, mulher e é uma pessoa bem informada portanto, está confiante em sua jornada rumo a uma vida de saúde, longa e com uma carreira em ascenção. Viva o Afonso!(àquela altura já estava emocionada e havia até me esquecido que tinha uma mulher arrancando meus pêlos da virilha com cera quente.)

Viram? queridos e queridas... Tô com vocês para melhorar minha saúde, turbinar minha carreira e, até mesmo, prolongar minha vida . Ainda bem que vocês são úteis! Ufa...

Como é instrutiva uma ida ao Salão...

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

enquanto isso, no bar...

"Fica tranquilo. Ninguém troca um amor aristotélico por um amor platônico..."

esses meninos...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006