quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Em direção ao Sul Atualizado



Assisti ontem, porque é período de férias e então a vida é feita de namorar, ir ao cinema, cozinhar, comer, beber, ver e falar com amigos, dormir bastante, escrever e ler. Quem conseguir inventar uma rotina melhor que me conte (ok... um mergulho em Fernando de Noronha também cairia bem, mas não se pode ter tudo nesse mundo..., não é meisxmo? )

É um filme BEM bacana, e um pouco impressionante. A história é a seguinte: década de setenta, Haiti, numa pequena praia paradisíaca ao lado de Porto Príncipe, com um hotelzinho de bangalôs. Uma praia cheia de turistas mulheres e desacompanhadas, mais velhas, com seus cinqüenta e sessenta anos, que lá, sozinhas, basicamente passam as férias transando e namorando os negros bonitões e fortes locais. Passeiam, transam, beijam na boca, e em troca dão dinheiros e presentes. É isso. Elas são brancas, canadenses, americanas, inglesas, bem resolvidas financeiramente, estão sozinhas e vão para lá ter orgasmos. Eles são negros, jovens, pobres, muculosos, lindos, e haitianos, moram em Porto Príncipe, não precisa dizer mais. Eles não podem comer no restaurante do hotel, elas não conhecem nada da vida deles, mas na praia pode tudo. E tudo acontece. O tipo do filme que tinha tudo para dar errado.

Podia ser moralista, sobre a busca vazia do sexo e tal... podia ser mais um filme clichê sobre a mulher velha e triste com a vida que se descobre no mundo primitivo de uma praia ou uma locação paradisíaca qualquer graças à ajuda de algum local bonitão. Podia ser um filme tipo denúncia, daqueles chatos.

Mas o diretor consegue fazer um filme inquietante, com grandes atrizes e atores, sobre racismo, sexo, desigualdades culturais e sociais, colônias, metrópoles e colonizados tudo o mais, sem cair em facilidades. Lôas especiais para a musa Lux Luxo dos anos setenta, que aqui aparece em todos os seus sessenta anos, madura e muito bela: Charlotte Rampling brilha como atriz no papel de Ellen.

Uma professora de literatura francesa, classuda e inteligente, um tanto cansada e entediada com a vida, que ali se encontra e se sente bem e em casa, até que chega Brenda querendo amar de verdade e as coisas se deterioram até um fim. Ménothy César faz o papel de Legba, o preferido e escolhido de Ellen, mas também uma paixão antiga de Brenda, que teve com ele o primeiro orgasmo de sua vida (ela, 45 anos, ele, 15) e volta a Porto Príncipe em busca de uma história de amor com Legba.

Em volta de todos esses problemas, em meio à tensão social de um país miserável que vive sob uma ditadura violenta e repressora, desenvolvem-se as nossas frentes conflitos de gente grande. Gente que é preta e que é branca, que é mulher e homem, que é preconceituosa e tem "tesão no primitivo", que acha que não é racista, que tem que servir os brancos conta quem os pais lutaram, que não tem espaço em casa para ser mulher, velha e sexualmente ativa, que gosta de sexo, que gosta e precisa de dinheiro e presentes, que se apaixona, que não sente nada, que envelhece, que não tem saídas, que arruma saídas, que ama e que não ama. Sem meias palavras ou acordos fáceis.

Vão ver. Dos bons.
atualização:
Lulu deu antes, mas o Contardo Calligaris, na folha, foi ver também e mandou bem nos comentários. O link par aler a matéria completa é esse daqui, mas acho que para entrar tem que assinar a porcaria da falha... enfim...http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0401200714.htm
fica uma palhinha:
"Os "tristes trópicos" de quem vive no terceiro mundo são a condição necessária para que existam os trópicos alegres do turista sexual. Mas a razão disso não é só econômica.
Explico. Na vida erótica, funciona uma espécie de proporção: para desejar sexualmente, é como se precisássemos, ao menos por um momento, despojar o outro de sua dignidade subjetiva, considerá-lo apenas como corpo. É por isso que, para alguns, é impossível desejar e amar o mesmo outro. É por isso que a maioria, na hora do sexo, não sussurra palavras de carinho, mas solta "injúrias" que rebaixam a parceira ou o parceiro, ou seja, que o transformam em carne entregue ao desejo. Nada de "meu anjo". Na cama, é "puta" e "cafajeste"."

segunda atualização:

"E o Sérgio falou: "E o Marcelo Coelho discorda do Calligaris", e Lulu foi lá ver!! Como o Diário quer ser um espço democrático, e a discordância é das boas, aqui vai uma palhinha do Coelho também:

Acho também que o turismo sexual não se dá apenas na direção apontada por Calligaris: brancos do primeiro mundo se esbaldando nos corpos miseráveis. Minha própria experiência como turista (não sexual) registra uma espécie de excitabilidade com toda população estrangeira. O fato de não pertencer ao local que estou visitando (Bruxelas ou Maceió) estimula as célebres fantasias de uma aventura inconseqüente. Não é só que as pessoas se transformaram em meros corpos; a diferença de linguagem, de costumes, de jeito, faz de uma pessoa qualquer, Fulana ou Beltrana, não um corpo anônimo, mas um corpo também dotado de outra coisa, a nacionalidade. “Quero transar com essa mexicana”, pensa o brasileiro ou o nicaragüense, como se a “mexicanidade” daquela mulher, que talvez não seja etnicamente distinta das de seu país natal, constituisse para ele um fator a mais de excitação, e trouxesse consigo um sabor, um cheiro diferente, que acrescenta um tempero à condição humana universal. Não é um corpo simplesmente, mas um corpo mexicano... belga, russo, nigeriano, tailandês.

“Comment peut-on être persan?” (como é que alguém pode ser persa?), perguntavam-se os parisienses na célebre página de Montesquieu. Já existe algo de sexual, e também de perverso, nessa indagação. Não há propriamente objetos puros num desejo sexual; ninguém transa apenas com um pênis ou uma vagina; há o objeto e sua circunstância. Quanto mais imaginária, mais longe nos leva. "

Leia o artigo de Contardo Calligaris em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0401200714.htm

Leia o artigo do Marcelo Coelho em
http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/

7 comentários:

  1. Nossa. Faz séculos que não vou ao cinema. Vida acadêmica infelizmente acaba com a vida cultural. E agora, o limbo dos concursos... Serei (mais) burra, (mais) desinformada e feliz.

    Acho que eu não ia gostar. Odeio filme de sol. Aliás, odeio tudo que tem sol.

    Vc sabe se já siu o Fur, com a Nicole Kidman? É sobre a Diane Arbus e eu sei que vou ficar com raiva... Mas já saiu?

    Beijoca, k

    ResponderExcluir
  2. Gostei muito do nome "Legba", que achei muito "legbal". Mas, quando o filme acabou, notei que a platéia era formada majoritariamente por senhoras... Beijos, Sérgio.

    ResponderExcluir
  3. sinhorinhas taradas, né Dr S.?

    Querida K, qualquer filme com a Nicole já dá um odiozinho discreto porque aquela pele, aquele rostinho, aquele corpitcho... um único consolo é que ela teve que aguentar por um bom tempo da vida dela aquele chato do Tom Cruise. Acho que ainda não saiu, mas num vale porque tb sou meio acadêmica e... portanto...

    ResponderExcluir
  4. Não é inveja! mas eu não acho a nicole kidman tudo isso! tem cara de gato! e é meio insosa!

    mas...vou ver o filme!

    ResponderExcluir
  5. "Cara de gato", não. De GATA. GATÍSSIMA!

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. Marcelo Coelho discorda de Calligaris: http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/

    ResponderExcluir