lulu na mostra
Sabadão, lulu acorda, vai tomar seu tradicional café da manhã na padoca da esquina de casa, abre o jornal que só lê aos finais de semana e repara: olha... tem mostra de cinema em sp!
Presta um pouco mais de atenção e repara mais ainda: olha... hoje vai passar o filme do David Lynch! Lulu, inocente de quase tudo nessa vida, repara que a sessão é meio dia. Olha seu relógio, são dez e meia. Oba! pensa lulu - dá tempo...
lulu chega com uma hora de antecedência, toda contenta da vida.
Puxa, tá cheio... Cheio? Uma fila atravessava o conjunto nacional e saía para a rua. Todos os modernetes de São Paulo pareciam haver acordado cedo naquele sábado. Lulu entra na fila. Fica na fila. Uma hora de fila. Os ingressos esgotaram antes, bem antes, da vez da lulu.
Lulu não desiste. Pega seu jornalzinho e resolve ir ao Frei Caneca, tem um monte de filme passando lá, vambora ver algum filme iraniano com legendas em aramaico.
No caminho, lulu passa pelo Espaço Unibanco. O lugar não abriu ainda, tem fila na porta. Uma fila modesta, mas existente. "Vocês tão nessa fila para quê? " - "Para comporar ingressos para a mostra, ué..." - diz uma senhora de oclinhos de aros grossos e vermelhos, com um certo ar de despreZo na voz. Será que para ver a mostra precisa usar oclinhos de aros grossos e coloridos? Lulu está cada vez pensando mais, mas guarda para si a pergunta e continua a bater papo: " Sei... e você vai ver o quê?" Um filme sobre o vocalista do Joy Division. Oba, pensa lulu. Legal, vambora. Que horas começa? Uma e meia? Não... diz a mulher, já quase sem paciência com tanta desinformação. A sessão é às dez da noite. Nooossaaaa!! Diz a lulu. E você já está aqui? Vida difícil essa de cinéfila, né? A mulher olha para cima e suspira. Lulu vai embora, rumo ao shopping Frei Caneca.
O Shopping tava fechado mas lulu já sabia que aquilo não queria dizer coisa alguma. Fez o ar mais intelectual que sabia fazer e falou ao segurança: Vou à mostra. Esqueci meus oclinhos em casa.
O moço deixou a lulu passar. Engano bem.
Chegando lá... adivinhem: fila. Mais modernos. Mais gente, todos com os guias da mostra em mãos, fazendo planos alucinados: "pego o filme da uma da tarde, depois vou para o filme das três, depois entro no das cinco e ainda termino o dia, às nove da noite, com o filme siberiano que parece ser o máximo!" Lulu, meio assustada, começa a entrar no clima. Pega um guia, começa a fazer contas. Um filme só passa a parecer pouco. Imagina! Liga pra casa: "ficarei o dia inteiro no cinema. Adeus."
Escolhe dois filmes estranhos, de nomes estranhos, cineastas desconhecidos. Lá fora tava o maior calor, lulu saíra de shortinhos. Começa a sentir frio. Fome. A fila não anda.
Finalmente lulu chega ao caixa, pede os ingressos para os dois filmes que resolvera ver. Só dois? Pergunta o caixa. Lulu fica sem jeito... é, moço... fico assim.. meio cansada... Cabisbaixa, lulu vai ao café comer algo. Uma média e um pedaço de bolo de iogurte por favor. Pois não moça, são dez reais. O quê? Quanto tá a média? Quatro reais, o pedaço de bolo custa seis... Esquece, moça. Obrigada. Lulu sai do shopping e vai ao boteco da esquina. Gasta três reais.
Lulu vê o filme - médio. Lulu diverte-se com a briga que ocorre na fileira ao lado pois alguém está - inadivertidamente- comendo pipoca. Onde já se viu? Tisc, tisc, tisc...
Lulu encontra gentes, conversa sobre a fotografia, o roteiro, o enredo. Começa a ficar meio cheia.
Liga pra casa. Uns amigos ligaram, querendo fazer algo. Amigos legais... Lulu quase congelara no cinema.
Vai para casa, e combina de ver, com os amigos, um filme do circuito comercial. Fomos, conversamos, não pegamos fila, a sala tava vazia, jantamos depois, uma delícia.
Sei não, mas acho que a lulu desistiu desse negócio de mostra.