Algumas palavras não combinam. Soam tão esquisitas que ficam fora do nosso dicionário, são rejeitadas sem clemência e mesmo sem julgamento; de tão estranhas ficam para sempre fora do lugar. As minhas palavras assim, além da já tão
dicutida "xoxota" e do já célebre
" sovaco", poderiam ser também
trivial - odeio pessoas que dizem: isso é trivial. Que coisa! nada é trivial nesse mundo - e também xingamentos racistas. Os últimos, especialmente, estão fora do meu vocabulário.
Tenho implicância também com pessoas que dizem, sempre em tom professoral:
Veja bem... como se fosse
descortinar o mundo a sua volta e explicar finalmente a verdadeira verdade sobre tudo. Acho
hiper metido ( quem disse que eu não
tô vendo bem? , como é que
vc sabe o que é ver bem e ver mal? ai que
ódeo!! ). Se não tiver jeito, fico com o
Olha só... carioca, que é pelo menos um pouco mais simpático.
Outras palavras são lindas e serão sempre lindas, e soam
gostosas e são verdadeiros aconchegos.
O título de um dos
posts abaixo, por exemplo. Esquisito
prá caramba.
Cadê?Como assim? parece
bidê, embora
bidê seja uma palavra muito muito simpática. Daria até um nome de bicho legal, não fossem as conotações negativas que a palavra traz consigo: Vem
bidê! Senta,
bidê!.
Bidê é simpática, assim como
atum. Atum é uma palavra bem humorada, a gente fala e já dá vontade de rir, tenho uma amiga cujo cachorro chama atum. Acho
bacana.
Bacana, aliás, é outra palavra que uso sempre, nada expressa melhor a
bacaneza de algo quanto a palavra
bacana, uma pessoa
bacana não é somente legal, não é somente gente boa, não é somente bela... é...
Bacana. Acho
bacana isso.
Agora... das partes do corpo, fora o odiável
suvaco (e escrevo com u mesmo que é para todo o horror da palavra poder manifestar-se em sua inteireza), cotovelo também não me parece muito simpático. Boca, por sua vez, é uma palavra linda. Barriga talvez pudesse ser outra palavra bonita, não fosse sua desagradável existência. Nariz é meio engraçado, e olho é uma palavra estranha. Cu eu passei a gostar. Nada como um belo impropério (
hihihihi... impropério.. essa palavra acho que usa até bengala!) envolvendo apalavra cu. É forte, é belo. Aliás, não há nada como palavrões bem empregados. Enchem a boca, são palavras
exatas, certas, cheias, para serem usadas com cuidado, sem desperdícios.
E a palavra que menos aceita facilidades, como já dizia o velho e bom
Drummond, é a palavra amor. Principalmente o verbo, que deve ser conjugado e proferido com toda cautela e economia. Não facilitemos, não desperdicemos a palavra, senão ela se vai. Economizo muito, se digo que amo alguém é para valer, e digo só de vez em quando. Uma palavra para ser guardada.
Um professor de história tinha implicância com a palavra resgate. Sentia verdadeiros arrepios ao ouvir alguém proclamando o resgate da memória de sei lá que lugar. Já o ouço falando: quem resgata é bombeiro!!! todos sabíamos, dessa
reação. ai de quem viesse com esse papo de resgate.
E há as palavras que são tão belas em si mesmas que você nem precisa saber direito o que significam.
Anêmona. Palavra linda, tem nome de princesa. Se fosse fazer um filme de ficção científica, colocaria sem dúvida uma Princesa
Anêmona na história. Alheio acho uma palavra bonita, leite é lindo também, sem falar de
Liquidificador.
E duas das forças mais misteriosa da minha vida, pois nunca sei qual é qual mas me delicio nos seus sons: força
centrípeta e força centrífuga. Acho lindo.
Há palavras que a vida estraga. Espinafre poderia estar na mesma categoria de atum e
bidê, palavras engraçadas, que dariam bons nomes de cães, mas um dia na infância passei mal comendo espinafre ao molho branco, e adeus. Acabou a palavra espinafre
prá mim. Já fico meio enjoada só de escrevê-la aqui.
E os nomes que, pela vida, ficam irremediavelmente perdidos ou redimidos, dependendo das pessoas que os carregam?
Fulaninho, por exemplo, adorava o nome Beatriz, lindo forte, cultivava-o como um tesouro, reservava-o para o dar, um dia, a sua filha. Até o momento que conhece uma Beatriz, e ela é insuportável, tem uma voz irritante, fica mexendo no seu cabelo, lhe dá o fora, ri do tamanho do seu pinto. Pronto. É o fim da palavra Beatriz na sua vida. Pinto é uma palavra meio engraçada também, não combina muito com a coisa, fico com pau mesmo.
Há as palavras da infância, lindas
gostosas, os nomes que nossos pais nos chamavam, delícia de ouvir.
Luluzinha Pituquinha.
Palavras que refrescam, água por exemplo, gelo, piscina, cachoeira. Palavras esquisitas, como
merthiolate, palavras aflitivas. Para mim, pus é aflitivo, assim como a palavra
vômito, palavra feia, coitada.
Margarida é bonita. Giz é uma palavra linda, podia ser o novo nome de algum filho de algum cantor baiano desses meio cabeça, que falaria assim na entrevista: meu filho se chama Giz. Tom Giz.
Cadafalso é uma palavra muito legal. E barata, apesar do bicho, me parece
bacana também, embora seu irmão macho, o barato, seja irremediavelmente anos setenta demais.
E se esse
post estiver parecendo uma grande viagem assumo, e corro os riscos. Mas gosto de ouvir palavras. Tenho
afeto por elas, sinto-me assim quase em dívida, morro de vergonha quando as trato mal.
e vocês, quais as palavras bonitas e quais as feias na vida de vocês?
Beijos,
Lulu.
p.s. : coloquei esse post prá cima porque queria saber mais das palavras feias e bonitas da vida de vocês. :)updeite: frase com as palavras lindas minhas e da fá, que faz parte do nosso conto de fadas. Quem quiser, pode completar!! ::
"O Príncipe Numinoso casa-se com a Princesa Anêmona e viveriam junto a um lago repleto de nenúnfares e ninfas e faunos. "