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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Filmes com criança: a culpa é dos adultos, esses adultos....




Filmes com criança são fofos.
Eu sei, você sabe, todos nós sabemos.
Não precisa muito:
Um sorrisinho, uma brincadeirinha, um comentário puro e inocente, o câmera fechada naqueles olhos infantis e lá estamos nós, sorrindo feito bobos ou nos debulhando em lágrimas, pensando assim: que fofo!

Acho que o primeiro que inaugurou essa leva foi o Cinema Paradiso. O maravilhamento do cinema sob o olhar do menino, e como são expressivos os olhos das crianças!
E então veio a farra: o holocausto sob o olhar da criança, a guerra sob o olhar da criança, a ditadura brasileira sob o olhar da criança, a ditadura argentina sob o olhar da criança, a política sob olhar da criança... façam suas listas.

Outro dia, vendo a lista dos filmes mais badalados, quase caí para trás: ou eram filmes para crianças ( maravilhosos: desde o surpreendente transformers até o maravilhoso ratatuille) ou eram filmes com crianças como protagonistas. Essa coisa fofa e linda que é mostrar o mundo através do olhar infantil.

Ok, alguns são terríveis, aterrorizadores mesmo. O Labirinto do fauno talvez seja o exemplo mais acabado disso: mesmo o mundo encantado da criança é um mundo de sombras, onde o bem e o mal não são facilmente distinguíveis, onde são pedidas provas cruéis, pessoas morrem e tudo o mais.

Crianças sofrem muito, e não são santas nem boas. Os bons filmes, e as boas narrativas com crianças, não se esquecem disso.
Mas...

Outro dia comprei o cedê do pato fu: daqui pro infinito. Um cedê pop gostoso, bom de ouvir no carro. E lembrei do Arnaldo Antunes, e lembrei da Adriana Calcanhoto e fiquei pensando: eles fazem música para criança ou para adulto?

Eu adoro música de criança, me acabo cantando Os Saltimbancos, mas... na minha época, música de criança era vendida como música de criança. Me assusta um pouco, adultos ouvindo músicas de criança.

E a maioria dos leitores de Harry Potter também é adulta, assim como os espectadores dos filmes da Disney e Pixxar, assim como os espectadores do Senhor dos Anéis e assim como assim por diante.

Ok, talvez as produções voltadas para o público infantil e adolescente sejam mesmo melhores que aquelas voltadas para o público dito adulto, mas eu fico achando, fico achando mesmo, que há algo de... senão podre, muito estranho no Reino da Dinamarca.

Tudo isso porque fui ver o filme A culpa é do Fidel.
O trailer é sensacional ( ok... eu continuo acreditando em trailers...) e a idéia, ótima:

Uma garotinha francesa, feliz e burguesa, vê sua vida progressivamente ser arruinada à medida que os pais se politizam, viram comunistas e envolvem-se com as políticas da década de sesseta, setenta. Logo ela passa a ganhar de presente roupas estranhas e coloridas, bordados de flores, gorros peruanos. Logo ela perde sua babá querida, exilada cubana, e passa a ser cuidada por babás esquisitas, exiladas de países como o Vietnam, China ou Grécia, que lhe servem comidas estranhas com ingredientes exóticos e ignoram o bom e velho pain au chocolat. Pior: ela muda-se para uma casa menor que logo é invadida por homens barbudos que não param de fumar cigarros esquisitos, é tirada da aula de catecismo, e logo passa a ter vergonha de levar suas amiguinhas para dormir em casa.

Fui ver, porque afinal tem a ver também com a história da minha vida. Estudei numa escola alternativa onde as meninas chamavam-se Inaê, Erecê, Ialê... ( sempre confundia as três) , e os meninos: Caê, Cauã, Tom e Gil. Havia até uma Luz Morena. Juro. Chamar Luana era tipo normal.

Fui a comícios quando pequena, fiz muita boca de urna quando criancinha, lembro com emoção do povo reunido na minha casa, se preparando para ir ao comício das diretas já, tinha - e tenho - medo de polícia. Lembro, também com emoção, quando minha mãe foi votar pela primeira vez e me levou junto, e me mostrou o que era o voto e a democracia. Meus pais tinham amigos torturados, exilados, desaparecidos. Tenho um primo querido que nasceu no Chile e cresceu no exílio, um tio que foi procurado vivo ou morto. Meu avô, que ensinava russo na Universidade, foi preso várias vezes. Cresci em meio a discussões políticas, cantei muita música revolucinária, aprendia lições de marxismo e socialismo, noções de igualdade e luta, usava sainhas indianas desde pequena, e burguês para mim era uma espécie de xingamento bem sujo. Todos, a minha volta, eram barbudos, e minha mãe usava umas jóias de prata africanas que acho lindas até hoje.
Enquanto meus amiguinhos iam para a Disney, passava as férias no Peru, na Bolívia, na praia de pescadores de não sei aonde, nos confins do Piauí.

Ganhei e usava gorros peruanos e sainhas indianas desde criança, tinha amigos que levavam tofu e bardana de lanche para a escola e morria de vergonha de ver minha mãe dançando Gal, descalça na sala, como se não houvesse amanhã. Minhas músicas de infãncia são Tom Zé, Caetano, Novos Baianos, Gil e assim por diante. Só ouvi falar de deus pelas empregadas, bastante preocupadas com meu destino pós mortem.

Aprendi desde pequena a valorizar a política, a liberdade, o pensamento, a luta por um mundo justo, as artes, as vanguardas artísticas, o amor, a paz, essas coisas.

Fui conhecer meu primeiro malufista só aos quinze anos de idade.

Juro.

Quando criança, brincava de fazer greve. Uma vez fiz até uma passeata com uma amiguinha: "edo, edo , edo, não queremos dormir cedo!"

Tinha que ver aquele filme.

Fui.

Há cenas boas, identifiquei-me com várias situações, ri um pouco e tal. Mas...

Alguma coisa me incomodava, e conversando com a Ana Paula, uma das amigas brilhantes que tenho, percebi o que era:
esses filmes com crianças acabam, ao final, se eximindo da crítica, e mesmo da política.

Vejamos, por exemplo, O Labirinto do Fauno, o melhor filme dentro desse gênero, dentro dessa última leva:

há duas histórias paralelas que correm no filme:
a história dos adultos, sob o fascismo e a brutalidade franquistas, representada pelo espaço da casa e pela figura do Capitão, atento ao seu relógio quebrado, às regras, à procriação, à manutençao do regime. Dentro desse espaço, há aqueles que buscam caminhos de luta dentro da própria casa (o caso de Mercedes, a governanta, dona das chaves da despensa, que quer cantar uma cantiga de ninar para a menina mas esqueceu-se da letra; ou do médico, que envolve-se mesmo que tardiamente, pois não há neutralidade possível dentro de um regime de exceção) e há aqueles que lutam na floresta, organizados em grupos políticos subversivos. Esse é o plano da História, aquela política e social, feita pelos homens e mulheres.
Há, também, a história da criança. A menina desde o início carrega consigo um livro de contos de fadas e logo na primeira cena vê, na floresta, indícios de um mundo mágico e encantado. O plano da história, sob olhar da criança, mescla-se com o plano da fantasia, do mito, da narrativa mágica.

Logo aparece a figura do fauno, e à narrativa histórica, que ocorre no plano da casa e se estabelece sob o conflito do filho do Capitão que está para nascer e a busca pelos subversivos escondidos na floresta, mescla-se a narrativa mágica, que se estabelece sob as tarefas que a menina princesa deve cumprir para restituir seu lugar de princesa e reestabelecer a ordem a e harmonia no plano mágico. São duas espécies de luta que correm em paralelo. Em jogo: a liberdade e a vida.

O labirinto do fauno é o labirinto da história, e nele se enlaçam os fios da narrativa dos homens e mulheres e os fios da narrativa mágica.

Não interessa, é claro, se o plano mágico é somente fruto do delírio da menina imaginativa ou se acontece "de verdade". No cinema é tudo "representação", mesmo os filmes baseados em fatos reais são de mentirinha, e isso - a suposta veracidade do mundo narrado - não é critério para analisar obra de arte alguma.

Ao final, a luta política é massacrada, morre o Capitão e morrem também os Revolucinários. Esses são os nossos tempos, a gente fica se perguntando se a luta política morreu, e eu fico achando isso perigoso, muito perigoso. A saída que o filme apresenta, e o filme apresenta uma saída, é no plano mágico, onde a menina ainda vive, restitui seu lugar de princesa e tudo. No plano da história o bebê é o único sobrevivente e será criado por Mercedes, que não lhe contará sua verdadeira história e poderá criar outra, quiçá mais feliz. O filme não abdica da complexidade e aí está um dos seus gandes méritos. Mas o final da história está no plano mágico, da criança, único lugar possível de harmonia, onde cada personagem pode ter seu lugar na História. Do labirinto da história, aquela real, não há saídas, apenas massacre e violência. Um bom filme, que faz pensar e não abdica da complexidade. Um filme também desencantado com os rumos da história e da política, como tantos filmes nossos contemporâneos, um pouco como nós.

Parece que as atuações políticas possíveis e que fazem sentido no mundo de hoje estão no campo da ecologia, da ação individual, da formação de pequenos grupos que vão lutar por seus direitos específicos. É claro que ficamos descrentes na política, nos políticos, nos partidos, nas revoluções e etc. Isso pode ser um sinal de crescimento, mas parece-me um pouco perigoso. Triste, e perigoso, pois as grandes estruturas que oprimem sim e transformam todos os aspectos da vida e a própria vida em mercadoria, objeto vendável, permanecem as mesmas, não importa quão ecológicos ou politicamente corretos sejamos. Sim, meus amigos: a lulu acha que o velho Marx estava certo . Não nos prognósticos, mas no diagnótico o cara acertou bem. Além de lutar pelo nosso jardim, nossa liberdade de amar e ser e nossas galinhas felizes, há que se manter em vista as grandes estruturas. Elas não são naturais, são opressoras e podem, talvez, ser mudadas.


Isso porque o que me incomodou no filme A culpa é do fidel é justamente uma espécie de descompromentimento com a política e o mundo dos adultos que esses filmes atuais narrados sob a perspectiva de olhos infantis acabam por criar.


A criança não pode fazer nada para mudar o mundo. à criança são dadas explicações simplistas, a criança não tem escolha, não vota porque simplesmente ainda não tem condições de decidir-se por determinadas políticas ou candidatos. A criança percebe um monte de coisas legais sobre o mundo e o ilumina mas é criança, não pode se comprometer nem fazer escolhas.

Quando eu brincava de polícia e ladrão, sempre brigava com meus amiguinhos e amiguinhas sobre quem seria o ladrão. Ninguém queria ser polícia.

Ok,
é uma cena fofa.

Vamos combinar: nada complexa.

Agora, com o tropa de elite, meus alunos brincam de ser polícia. Normal, crianças. E os adultos?
Com o tropa de elite, brincam de ser polícia também. Cansei já de ver professor imitando o Capitão Nascimento.


O bom da Mafalda, uma grande personagem infantil, é que ela sempre colocava os adultos em situações de constrangimento. Alienada era a Suzanita, cujo projeto era ser mãe e ter muitos filhos. Mas mesmo a Suzanita ocupa um papel importante, importantíssimo, no mundo da Mafalda, pois se somos muito Mafaldas, vamos confessar baixinho que também temos um lado Suzanita. Ou não. Ou lutamos contra esse lado. Mas o mundo é complexo.

O problema de filmes de crianças é quando eles abdicam da complexidade e da crítica. Quando tudo torna-se uma melodia pop e fácil, boa para se ouvir no carro em meio ao trânsito. Quando as questões de adulto parecem que podem ser resumidas nas respostas das crianças. Quando a estrutura do mundo, por um ato de vontade, parece que pode ser reduzida à perspectiva do olhar infantil.

é fofo.

mas não é assim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O Samurai, o Cowboy, Hiro e o dilema e o lugar dos heróis.










O Samurai e o Cowboy:

“Sete homens e um destino” é um belo filme de faroeste, refilmagem do belíssimo “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa.
Ainda gostaria de escrever sobre o samurai e o cowboy, já que os filmes de samurai parecem se adaptar perfeitamente ao farwest americano, bastando apenas mudar a paisagem e os figurinos. Além dessa adaptação, há ainda o magnífico Por um punhado de dólares, filmado por Sergio Leone e totalmente baseado em Yojimbo, também do Kurosawa. As duas versões americanas seguem par e passo os originais japoneses. O roteiro é praticamente o mesmo, as personagens são as mesmas, é incrível como dá certo.

Afinal, o que há em comum entre o samurai e o cowboy?

O que está em questão, especialmente em Os setes samurais é a ética e a vida do herói.
Tanto o samurai como o cowboy são exemplares da figura do herói solitário, seu poder à serviço às vezes de um senhor, às vezes da grana, mas sempre guiados por um código de honra rígido dentro de uma vida que cotidianamente depara-se com a morte.


O agricultor e o guerreiro:


A história do filme Os sete samurais é bastante simples: os camponeses de uma aldeiazinha estão sendo explorados por um bando de homens armados que vive da exploração dos camponeses da região. Todo ano, saqueiam as aldeias. Esse fora um ano difícil, não há arroz suficiente para os camponeses, quem dirá para o bando.

A história começa quando o tal bando chega à aldeia e avisa que passará ali no mês da colheita para buscar todo o arroz. Os camponeses são miseráveis e não poderão sobreviver após esse saque. Ficam entre resignar-se, e entregar todo o fruto do seu trabalho ao bando, ou lutar. Logo deparam-se com sua prórpia impotência, são camponeses, seu ofício é o plantio, entendem de terras e sementes, não de armas e espadas. Não sabem lutar.

Resolvem então contratar samurais que lhe ensinem a combater. Têm muito medo e pouca confiança em si mesmos, mas a solução dá uma esprança aos aldeões. Não têm como pagar os serviços de um samurai, mas vão mesmo assim à cidade à procura de ajuda. Na cidade são ridicularizados pro seus modos caipiras, sua fraqueza e pobreza.

Acabam por comover um grande samurai, que consegue convencer outros cinco a ajudar os camponeses na batalha em troca somente de algum arroz. Um homem bêbado que quer ser samurai - mas não é - acompanha o grupo, e acaba conquistando o direito de pertencer ao grupo por mostrar-se honrado e entender os camponeses.

O grupo de sete homens chega à aldeia, que se esconde cheia de medo. Logo há uma aproximação e grande parte do filme gira em torno da vida dos samurais na aldeia. Eles têm um ou dois meses para preparar todos para a guerra. Treinos e estratégias.

Os samurais são nômades, vivem à parte da sociedade, não têm família, não têm laços afetivos, não têm um lugar. Percorrem as cidades à procura de trabalhos. Os camponeses vivem suas vidas sempre no mesmo lugar, casam-se, criam seus filhos, são enterrados em lugar próximo.

O agricultor e o guerreiro.

Ao agricultor cabe cultivar, plantar-se num espaço, ficar ali por um longo período de tempo, colher os frutos, fazer filhos, uma vida no tempo, longa. Ao guerreiro cabe percorrer espaços, onde houver pagamento, onde for chamado, ele vai, e deve estar preparado a todo instante para a morte honrosa, o samurai não pode temer a morte e vive, sob seu código de conduta e honra, uma vida percorrida através de diferentes espaços, no tempo presente, provavelmente curta.

O samurai não tem uma casa, jamais pode ser agricultor, leva consigo tudo o que precisa e não pode apegar-se a ninguém, é um solitário, quase um pária da sociedade, que vive o tempo presente dentro do caminho do bushidô.

Nesse momento de treino os camponeses têm que aprender a ser guerreiros - perder o medo, ganhar postura, prontidão, aprender o manejo das armas - e os sete samurais vivem uma vida de camponeses - plantam, cuidam das crianças, participam do dia-a-dia da aldeia, criam laços, apaixonam-se.

Surgem muitos conflitos, muitos camponeses ficam achando que seria melhor entregar tudo a arriscar perder a vida. Entre os samurais surge até um desejo de abandonar a vida de samurai, construir uma casa, plantar algo, ter família e a vida passa a ter mais valor.

Finalmente, chega o tempo da batalha.

É na guerra (diante da morte) que os propósitos de cada um são testados e que o sentido da vida de cada um ganha força e significado. Aos samurais cabe o sacrifício da própria vida, não por dinheiro mas pela dignidade e possibilidade de manutenção da aldeia e dos agricultores. Eles também ganham dignidade e morrem como heróis, e como heróis são lembrados. Sobre a montanha que ladeia a aldeia, agora segura, repousam suas sepulturas. Suas espadas são suas lápides.

A canção sobre o herói:


Todo herói deve ser lembrado. O helenista Jean Pierre Vernant comentava que Ulisses precisava voltar para casa, para sua Penélope, principalmente para poder ser cantado pelos poetas. O herói grego torna-se herói quando sua história vira canto.

Na excelente série Heroes o grande momento que dá dignidade e força ao Hiro ( perfeita encarnação de um herói) é quando seu amigo Endo lhe diz que ele será lembrado, como são lembrados o Super Man, os guerreiros Jedis de Star Wars, o surfista prateado. Hiro é ele mesmo personagem de história em quadrinhos, relatos de sagas heróicas, e vive sua história para fazer juz à história em quadrinhos em que ele é um herói. Vive-a não para ser cantado, mas porque já foi desenhado.



O dilema do herói:

Sempre na história do herói surge um momento de crise interna. Uma vontade de pertencer, de fazer parte, de ser normal, criar laços, fazer filhos, viver na aldeia e fazer parte dela, de fato. O homem aranha, o batman... todos eles enfrentam esse dilema, geralmente despertado por alguma mulher, mas não necessariamente.

Ao mesmo tempo que amam e querem viver uma vida normal, têm poderes e junto aos poderes vem uma responsabilidade: viver na normalidade significa abrir mão do uso dos poderes, e aí surgem dilemas éticos. Pois a aldeia precisa do herói, o poder do herói pode salvá-la, e herói deve sacrificar-se. É meio triste, a figura do herói.

Há aqueles que usam seus poderes para ganho próprio, e esses são os vilões, fundamentais também. O herói usa seus poderes para ajudar o outro, para o bem comum; os vilões, para obter poder pessoal. Tisc, tisc, tisc...

No caso dos samurais e dos cowboys, o poder está na detenção da força, do gatilho rápido, da espada mortal. Seus vilões também, sejam índios, seja o bando ameaçador, o inimigo também tem poderes, também sabe manejar armas, são quase tão rápidos no gatilho. Em Heroes o poder é fruto de alguma mutação genética.

Enfim, seja qual for seu poder e história, o herói sempre enfrenta esse dilema: deve estar fora da sociedade para protegê-la.

Esse é o grande conflito da série Heroes, dos X Man, do Homem Aranha, do Superman, do cowboy, do samurai. O lobo solitário, por exemplo, fica com seu filho somente a partir do momento em que seu filho escolhe o caminho do lobo, que é o caminho da meifumadô, do inferno, uma vida que não está nem no plano da vida nem da morte, uma espécie de limbo. Esse pai vaga com seu filho, não têm casa, não têm laços, Daigoro não tem amigos e vive sempre no presente, tanto ele como seu pai estão sempre preparados para a morte, e não a temem.


Em Sete homens e um destino esse conflito é mais explicitado que no original japonês. A certa altura, dois cowboys conversam sobre a vida do cowboy:
Casa: nenhuma.
Esposa: nenhuma.
Filhos: nenhum.
Perspectivas: zero.
Lugares ao qual se apega: nenhum.
Pessoas que te seguram: nenhuma.
Homens para os quais você dá passagem: nenhum.
Inimigos: nenhum.
- Nenhum inimigo?
- Vivo, nenhum.
Escreva uma canção sobre nós, é o que podemos pedir.

O destino nobre do herói é esse sacrifício, e com a boa morte eles conquistam o direito de ser cantados.


A questão da soberania e o Estado de Exceção:



Giorgio Agamben é um filósofo italiano que escreve sobre a questão da soberania. Ele diz que a Lei se inaugura na força, isto é, para que a lei seja implantada há que haver um dispositivo de força que será usado contra aqueles que a violarem, todos estão submetidos à força da lei, e é assim que a constituição é implantada, e junto com ela, o Estado moderno. Já falei em outra resenha que os filmes de farwest tematizam essa implantação do Estado Americano no ambiente selvagem, desértico e bárbaro ( a barbárie representada pelos índios) que é o far west. Em Heroes há a questão da salvação do mundo, e por mundo entenda-se Nova York. A fronteira do far west é a fronteira da ausência da lei, e por isso ali o cowboy é necessário, por isso os samurais foram necessários. Ainda bem que no caso dos verdadeiros heróis há um código de honra que os faz agir dentro do caminho do bem.

No caso de Estado Soberano já sabemos que não é sempre assim. O que Agambem fala, que é interessante, é que o o Soberano que impõe a lei está fora dela. Ou seja, o Estado pode decretar a qualquer momento um Estado de Exceção que lhe permitirá infringir todas as leis ( torturar, matar, prender, etc... ) Nesse Estado, a vida dos cidadãos perde significado e valor, e transforma-se no que Agamben chama de “vida nua”, uma vida que pode ser matada sem que isso signifique assassinato. O Soberano está fora das leis da sociedade para poder manter a própria sociedade, e isso significa, para Agamben, que a qualquer momento qualquer vida pode deixar de ser uma vida cidadã ( com direitos, deveres) e se tornar uma vida nua.


O interessante é que esse Estado de Exceção é imposto justamente quando se crê que a lei e a sociedade estão em risco. Jack Bauer, da série 24 horas, ilustra com perfeição tudo isso. Diante de um perigo de destruição do mundo, ele pode e deve matar, torturar, invadir embaixadas, etc. Ele está fora da lei. Em uma das temporadas, ele inclusive se demite para poder matar mais à vontade, depois é readmitido de novo. Os Estados Unidos de Bush, sob ameaça, também restringem direitos de seus cidadãos e com as fotos de Guantánamo vimos o que é a Vida Nua.

Na raiz da própria soberania está a violência e a ameaça do seu uso, o farwest é ( ou pode ser) aqui.

Enfim, a figura do herói e seus belos dilemas sempre existiu.

No homem que matou o facínora esse conflito entre a lei e a força também é tematizado (leia a minha resenha sobre o filme aqui, essa é uma espécie de continuação daquela). Os super heróis têm seus códigos, e na ficção, os do bem costumam vencer.

O perigo é quando o soberano, também ele um fora da lei, toma para si decidir o que é a normalidade e quais os riscos que permitem que ele use seu poder de força sem precisar estar dentro da lei. Os produtores de 24 horas dão palestras e aulas para o exército americano. Não é à toa. Na aldeia, a voz da democracia deve vencer, e todos têm seus direitos e deveres, iguais. Quando o soberano resolve virar herói e sacrificar esses direitos, estamos dentro do campo do fascimo, e não dos heróis bacanas do mundo da ficção.

Quando o Estado e suas leis parecem falhar, surge o sentimento de que precisa-se de heróis, e isso é muito, muito perigoso.



posts relacionados:

As cordas de Ulisses

O homem que matou o facínora

Lobo solitário

O universo, os deuses e um homem.

Sobre Giorgio Agamben, o Idelber escreveu esse post aqui, com ótimos links:
Giorgio Agamben.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ratatouille e o omelete de amoras

O Rei e a Omelete

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico.

Um dia ele chamou o seu cozinheiro preferido e disse: "Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que eu lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que você me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras iguais àquelas que eu comi há cinqüenta anos, na infância.

Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir: viajamos dia e noite através da floresta, onde afinal acabamos nos perdendo.

Estávamos famintos e cansadíssimos, quando chegamos a uma cabana onde morava uma velhinha que nos acolheu generosamente.

Ela preparou para nós uma omelete de amoras, quando a comi, fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração.

Na época eu era criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la.

Agora quero que você me atenda esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela. Se você conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono. Se você não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo".

Então, o cozinheiro falou: “Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco”.

É claro que eu conheço todo o segredo da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos.

Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. “Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do presente estranho e do futuro incerto". Assim falou o cozinheiro.

O Rei ficou calado, durante algum tempo.

Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.”

(adaptado de : Walter Benjamin, em Imagens do Pensamento, In: Walter Benjamin, obras escolhidas volume II, "Rua de mão única"; São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 219 )


Fui ver ratatouille da Disney, um dos filmes mais bacanas em cartaz.

Esqueçamos a baboseira de anyone can cook, do ratinho que deve vencer todos os preconceitos em relação a sua espécie e origem, que deve acreditar em si mesmo, e blablabla... esqueçamos o de sempre, a moral disney americana, onde há espaços para todos, e o mundo é democrático e belo e tal, e fiquemos com o que há de grande no filme, que em muito supera as lições do politicamente correto.

É um filme que homenageia o comer. O desfrutar e a apreciação dos sabores. O pobre ratinho que quer ser chef e para isso deve superar suas origens e condição roedora não somente tem um olfato excelente, mas também sabe distinguir gostos. Fecha os olhos, experimenta um queijo amarelo e ouve os sons que aquele sabor suscita. Experimenta uma noz, e ouve sons diferentes. Experimenta os dois juntos, e cria uma sinfonia. Ele presta atrenção na comida, aprecia os sabores, e não é necessário mais que isso para ser um grande cozinheiro. Basta respeitar cada ingrediente, tirar de cada um o que há de melhor.

O pobre ratinho não pode viver de lixo, de restos de comida que servem somente para encher a barriga, não pode viver de roubo. O ratinho sabe das coisas, arrisca sua vida e expõe a colônia inteira por alguns pistilos de açafrão. Ele tem que ser um chef.

Sozinho, vai parar em Paris, a meca dos que gostam desse negócio de comer e cozinhar. Vai parar bem ali na cozinha de seu ídolo, um cozinheiro que popularizou a idéia que lhe encheu de esperanças, de que qualquer um pode cozinhar, mas que, entretanto, morreu de desgosto ao perder duas estrelas de seu restaurante. É fato que chefs franceses morrem por causa disso, se suicidam, nunca mais se recuperam, esse tipo de coisa, ao perder estrelas no Michelin. O implacável crítico, Anton Ego ( e alguém já viu nome mais excelente? ) retirou duas estrelas da casa, colocando-a no seu lugar de direito: lugar turístico para estrangeiros deslumbrados. É o começo do fim, um golpe duro demais.

Pois bem, o tal do ratinho ( sim, esqueci o nome do bicho, sorry, ou melhor, pardon) , chega lá e graças a mil artimanhas e peripércias possíveis somente na ficção ( e quem é que liga? ) torna-se o chef da casa. E mais, passa a fazer aquilo que até então ninguém ousara: altera as receitas consagradas do antigo chef. Muda, incrementa, inventa. Todos se horrorizam, mas o povo ( tá, povo não, coloquemos comensais) os comensais gostam e se acabam. Querem mais novidades. O restaurante volta a ser popular, volta a ganhar boas críticas, volta para o centro das conversas, há filas na porta, a mídia enlouquece.

Falta o parecer Dele, do Crítico: Anton Ego.

Ele, que já havia dado a sentença final, que já condenara o restaurante à galeria das estrelas menores, a ponto turístico e nada mais, a reles três estrelas. Anton Ego não se conforma de estarem refutando suas palavras finais. Como assim?A sentença final fora dada. Anton Ego volta ao restaurante e avisa, para toda a imprensa e o mundo, que estará lá no dia seguinte, para dar uma nova chance ao estabelecimento.

Não há nada mais tenso que a visita de um crítico a nossa casa. Ali, a visita toma proporções inimagináveis. Anton Ego é tudo o que pode haver de mais horroroso em um crítico. Ele é implacável, mordaz, feroz - tem a vida e a morte dos chefs e de suas casas nas mãos - e diverte-se com isso. Anton Ego vai lá preparado para o pior. E diverte-se com isso. Ele é a estrela, ele é o artista maior, ele é deus.

Estão todos nervosos. O maitrê vai atendê-lo, o pobre treme. E o crítico, ao ser perguntado sobre o quê deseja, responde:

- Uma perspectiva.

- Como assim?

- Eu quero uma perspectiva. Que vinho combina com isso?

O maitrê treme, sua frio, não sabe como traduzir uma perspectiva em pratos, está perdido. O crítico é , então, um pouco mais condescendente:

- Eu quero que o chef surpreenda-me. Supreenda-me. E quero o vinho tal ( algum vinho desse excelentes, que eu não lembro qual era, aposto que a Birgitte lembra!).

Não há diálogo melhor. O vinho é servido, na cozinha, o caos absoluto , não vou contar para não tirar a graça da surpresa para quem ainda não viu o filme, mas de qualquer maneira, dá tudo errado, como não poderia deixar de ser. No entanto, o ratinho ainda reina, ainda que só e desacreditado. The show must go on.

O que servir a Anton Ego?

E, então, vem a sacada de gênio, o ratinho resolve servir uma ratatouille. Um prato simples, camponês, desses que se come em casa, trivial - barato, até.

Nada de escargots ao molho de besouros raros da índia e emulsão de camarões cantoneses; nada de espuma de vieras embaladas numa sopa fria de salmão selvagem com um leve toque de tamarindo; nada de aspargos dourados em óleo de abacate cobertos por foie gras e lascas de atum, nada de acrobacias. Uma boa e velha ratatouille, que consiste basicamente de abobrinhas ( tipo italiana), berinjelas e tomate, com tomilho, levadas ao forno. As receitas variam, um pouco de cebola cai bem também, e se vc quiser ousar e colocar abóboras, fica uma delícia. Basta picar ( pedaços grandes, não é para virar uma papa) e colocar tudo no forno, regado com muito azeite de oliva, até que os vegetais amoleçam e quase queimem, galhos de tomilho são fundamentais, sal e pimenta do reino. Alguns alhos inteiros ficam bons também, pode fazer.

É isso que o ratinho faz, mudando um pouco a receita original. A antiga sous chef fica horrorizada, é o fim de tudo, como servir um prato simples assim a ele: Anton Ego? estão todos perdidos.

Cobre-se o recipiente com um molho de tomate espesso, fresco, feitos com os melhores tomates, escolhidos um a um pelo cheiro. Fatia-se as berinjelas e as abobrinhas em fatias finíssimas, rega-se o prato com azeite e tomilho, forno e voilá. Pronto o assado, monta-se o prato com arte e beleza, e então a ratatouille chega à mesa de Ego.

Agora, quem não leu ainda, ou não entendeu a historinha do omelete de amora que introduz o post deve lê-la novamente. O crítico mal humorado, azedo, pálido e infeliz, prova a ratatouille que lhe é servida. E fecha os olhos. E lembra-se da sua infância, de sua mãe lhe servindo uma ratatouille. O crítico chora. Um momento proustiano, disse um outro amigo meu.

E Anton Ego volta para casa, e escreve a crítica mais elogiosa de sua carreira, entrega-se à arte do pequeno camundongo, diminui em estatura, e louva a cozinha daquela casa e daquele rato.

Depois, a agência sanitária acaba por fechar o estabelecimento, e não tem importância, todos ficam muito felizes numa nova casa, um simples bistrô, sem estrela alguma e muita comida boa, com espaço para homens e ratos.

Porque os sabores mais importantes são os mais simples, são aqueles relacionados à vida e à experiência de se estar vivo, são aqueles que nos trazem memórias e condensam experiências, emoções.

O sabor da omelete de amoras, sempre buscado, sempre procurado e que, sempre, vale a pena ser vivido e experenciado.






segunda-feira, 30 de julho de 2007

Três filmes tristes

Outro dia, conversando com amigos, falávamos sobre filmes tristes. Filmes realmente tristes, que dóem de tão tristes que são, que mal dá vontade de revê-los, embora sejam obras primas. Conversamos, e fiquei pensando...
para mim, há três grandes filmes tristes, que entram nessa categoria, sendo que um deles é talvez um dos filmes que mais amo, As noites de Cabíria, do Fellini.
Outros dois granes filmes tristes são Ladrões de Bicicleta, do Vittorio de Sica ( 1948) e Dançando no escuro, de Lars Von Triers.












A tristeza nesses filmes não é uma tristeza curtida, blue, uma tristeza redentora, a tristeza nesses filme é profunda, de um mundo sem justiça e sem final feliz, onde vivem pessoas profundamente belas que lutam e não desitem de seus projetos, que não desistem, ainda assim, de amar.


Também não são filmes que pretendem ser o tal do soco no estômago, que pretendem mostrar a realidade assim como ela é, nada disso. São histórias tristes, de perrsonagens maravilhosos, e, nos três filmes, personagens que, a despeito de tudo, lutam por seus amores , filhos, pela possibilidade de alegria e conquista. Mesmo sem escapatória, sem redenção final, mesmo os personagens caindo quadro a quadro, findos os créditos, fica um estranhamento diante do mundo, uma raiva das injustiças, mas também algo é preenchido, pois pelos três paira um ar de que nas pequenas pessoas, bem pequenas, bem ferradas, há um mundo inteiro, e que devemos tomar cuidado, pois ele pode ser, e é, destruído a qualquer instante.





A vida, em cada um desses filmes, é uma vida que se alimenta de esperança, da mãe em relação ao filho, do pai em relação ao filho,esperança nos homens e no amor, de uma prostituta solitária e maltratada. São personagens em busca de possibilidades de uma vida mais inteira, de construção, em meio a um mundo inóspito.






Ladrões de biclicleta é um filme clássico, do neo realismo italiano. Filmado no pós guerra, mostra um país destruído e em grandes dificuldades. Um filme sobre pais e filhos, sobre o amor dos pais, e essa relação que se estabelece entre o pai e sua prole, que aliás - tenho a impressão - não é tão retratada no cinema e nas artes em geral quanto as relações entre mães e filhas. A história se passa logo após a Segunda Grande Guerra, com a Itália destruída e o povo passando necessidade. Ricci (Lamberto Maggiorani) consegue um emprego após muita espera. Só que esse emprego, de colador cartazes na rua, lhe pedia como obrigação uma bicicleta. Ricci e sua mulher Maria (Lianella Carell) conseguem um dinheiro para uma, possibilitando que ele realize o seu trabalho, aquela bicileta representa a possibilidade de comida na mesa, de recuperação da dignidade do pai. O menino Bruno (Enzo Staiola), filho do casal, acompanha todos os passos. Logo no primeiro dia de trabalho, a bicicleta é roubada. Pai e filho mergulham pelas ruas da cidade, à procura da bicicleta.




Dançando no escuro é outro filme que dói. Um filme que ultrapassa todas as regras de até onde a tragédia pode ir. Quando achamos que Selma, a personagem magnificamente interpretada por Björk não pode se ferrar mais, algo acontece e ela cai mais fundo, até o fim. Nele, as músicas de A noviça rebelde são desconstruídas uma a uma, virando do avesso um musical sobre a liberdade e a união familiar, e virando pelo avesso a própria noção de musical. Selma, que tem uma doença degenerativa e hereditária nos olhos, é roubada também. E como é cruel o roubo daqueles que não têm mais nada. Selma perde o dinheiro duramente economizado para a operação de seu filho, para que seu filho possa enxergar, e então se envolve em uma série de acontecimentos inexoravelmente trágicos. Não há nada de dramalhão na condução do filme, que é árido como são os filmes do diretor, e sustentado por duas magníficas atrizes, Björk e Catherine Deneuve, que emprestam às suas personagens uma força e uma capacidade de esperança comoventes. Uma história de amor de mãe.






Noites de Cabíria é um filme quase patético, a personagem, Cabíria é uma prostituta que não somente acredita nos homens, como também crê no amor e na vida. Isso é o que há em comum nesses três filmes, e que machuca, mas é bonito ao mesmo tempo. Sempre, até o fim, há o amor pela vida, apesar dela mesma.
Cabíria é constantemente enganada, ludibriada, humilhada, esquecida - faz tudo, absolutamente tudo pelos homens que crê que ficarão com ela.
Também perde tudo, também se ferra, mas ao final ainda guarda um sorriso e, sem nada, dança no meio da rua.

Fellini, sobre o filme, escreveu o seguinte texto, que encontrei na revista Contracampo e cito em parte aqui:


(...)

É sempre difícil remontar justo à fonte da inspiração, mas eu poderia contar a esse propósito como nasceu o fim de Noites de Cabíria. Ele não nasceu apenas como fim, mas também como a idéia geradora de todo o filme. Quando um certo jornal de esquerda me acusou de ter uma atitude evasiva perante a realidade, de nunca sugerir nas minhas histórias uma solução, um ponto de vista preciso, esforcei-me em agir com humildade sem levar em conta a irritação que senti ao ler coisas que realmente não esperava, e disse a mim mesmo: efetivamente, Zavattini e de Sica sugerem a inscrição a um partido, assim como sugerem alguma coisa a seus personagens, dão-lhes uma direção, e isso porque eles têm uma certa fé que eu não tenho, ao menos não num sentido preciso. É por isso que, ao fim de seus filmes, suas histórias e seus personagens satisfazem mais que os meus. Então eu me disse: talvez esses senhores tenham razão. A meus personagens, não termino por dizer ao fim do filme: “Vocês compreenderam direitinho, é preciso comprar tal jornal, ou também é preciso se casar, ou também ir à igreja...”. Não termino por lhes dizer nada.

No fundo, essa é uma atitude muito inumana da parte de um autor perante seus personagens. Portanto, investindo toda minha boa vontade (como se eu tivesse enfim resolvido dizer a meu personagem: “Você compreendeu bem, você fará isso ou aquilo”), me perguntei: “O que vou lhe dizer?”. E depois de pensar sobre isso durante muito tempo, percebi que não saberei o que lhe sugerir, porque não sei o que dizer a mim mesmo. Assim sendo, aos meus personagens, que são sempre tão infelizes, a única coisa que poderei oferecer será minha solidariedade: e assim poderei, por exemplo, dizer a um deles: “Escuta, não posso te explicar o que não sei, mas, em todo caso, te amo o suficiente e te ofereço uma serenata”. E assim, para Noites de Cabiria, pensei: quero fazer um filme que conte as aventuras de uma infeliz que, a despeito de tudo, espera confusamente, ingenuamente, por melhores relações entre os homens, simplesmente melhores relações; e ao fim do filme quero lhe dizer: “Escuta, fiz você passar por todo tipo de desgraça, mas você me é tão simpática que quero compor-lhe uma pequena serenata”. E depois, sobre essa idéia talvez um pouco ingênua, imaginei uma cena. Tratava-se de uma mulher, de uma personagem infeliz que, ao fim de uma aventura ainda mais terrível que as outras, deveria perder de maneira absoluta e definitiva sua confiança na humanidade que a rodeava. E então me perguntei: por que essa personagem, num dado momento, não pode se convencer de que há alguém que lhe diz gentilmente e com simpatia: “Você tem razão”? E assim essa personagem se tornou Cabiria, e suas aventuras se tornaram aquelas de uma prostituta que vive como um pequeno camundongo num meio aterrorizante, continuamente esmagada pela realidade, mas que atravessa a vida com inocência e aquela misteriosa confiança. Ao fim do filme eu a faço encontrar um grupo exuberante de pessoas bem jovens, de uma humanidade ao limiar da vida, que gentilmente, debochando um pouco mas com candura, exprime-lhe sua gratidão cantando uma canção. Foi dessa idéia que, finalmente, nasceu todo o filme.

(O texto inteiro, que fala também sobre o amor que Fellini sente por sua mulher, está aqui : Adaptar o personagem ao autor ).

Não quero rever Dançando no escuro nem Ladrões de bicicleta. Revejo de vez em quando Npites de Cabiria, porque no final, há uma serenata. São entanto, grandes filmes.

Três filmes tristes. Necessários.

















em tempo:





E agora, agorinha mesmo, leio nos blogs amigos que Bergman morreu. Ele, autor também de filmes tristes e de sombras.
Foi coincidência, ou não, esse post de hoje.

fica aqui, então, uma serenata,

e o sorriso de Giulietta, Cabíria, para o Bergman.























quarta-feira, 25 de julho de 2007

Um lugar, na platéia


Acabei de rever o filme Um lugar, na platéia. Está em cartaz já há algum tempo, em SP ainda é possível ir vê-lo no Belas Artes, numa daquelas salinhas chinfrins e com som ruim. Mesmo assim, vale muito, mesmo.

Ando em crise com o cinema.
São poucos, bem poucos, os filmes recentes que eu vi e saí com a sensação de ter visto um belo filme.
Há, ao meu ver, uma crescente infantilização do que é produzido no cinema, e isso não é apenas porque o maior público de cinema é adolescente. Isso é também porque nós, adultos (hahahaha), vamos também, cada vez mais, a filmes de crianças.

Sim, eu fui ver Harry Potter.
Também vi homem aranha 1, 2 e 3. Vi Shreck 1, achei o máximo, vi Shreck 2, achei fraco, não vi o três, obrigada. Piratas do Caribe, quarteto fantástico, onze homens e tantos segredos...
o que mais? Desenhos animados, filmes de super heróis, refilmagens, sequências...
Vi tudo isso, não me empolguei com nada.

Eu AMO filme pipoca, aqueles que a gente vê para se divertir, e não para pensar sobre o mundo, deus e sua época. Não tenho nada contra, e não é novidade que em Holywood há no máximo dez roteiros básicos que são refeitos e travestidos de novidades: menino encontra menina, depois desencontra, depois encontra de novo, professor fodona que muda toda a escola decadente, herói em crise na vida que se vê obrigado a salvar sua família e o mundo e com isso recupera sua dignidade, e assim por diante... ok.
São filmes bacaninhas e a gente vai ao cinema assisti-los por isso mesmo. Porque sabe o que esperar, porque é confortável, gostosinho, como um sanduíche ou um bom prato de batatas fritas. Há um certo conforto na repetição, somos um pouco como crianças, que gostam de ouvir sempre a mesma história. Eu adoro batatas fritas, mas há fritas e fritas.

O que acontece é que mesmo os blockbusters estão cada vez piores. Não há personagem, o enredo não se sustenta e efeitos especiais tecnicamente perfeitos escondem filmes fracos, muito fracos, mesmo como entretenimento. Melhor ficar em casa, assistindo Dr House.


Do outro lado, há os filmes denúncia, que mostram o mundo cão e tal. Esses também me enchem. Ou os filmes cabeçosos, que às vezes são bons, às vezes, insuportáveis. Ou, ainda, filmes com criança, velhinhos ou cachorros. Tenho uma teoria sobre filmes argentinos, por exemplo: sempre tem ou uma criança, ou velhinhos, ou cachorros. Já repararam?

pois é... falta, muito, um bom filme despretensioso que, simplesmente, conte uma boa história, com bons personagens, essas coisas. Nem estou pedidndo uma fotografia artística, uma trilha sonora interessante, algum espanto ou originalidade narrativa, nada disso. Simplesmente, uma boa história, bem contada, através de imagens em movimento.

O filme Um lugar, na platéia é um filme assim.

A construção do enredo não tem nada de original, e no começo dá até um certo nervoso por causa disso. Trata-se da fórmula que o Robert Altman fazia tão bem, e que virou meio modinha quando o filme quer ser alternativo: várias histórias de personagens marcantes, autônomas entre si, que se entrecruzam no final ou durante o filme.

O lugar de cruzamento dos personagens do filme é um café parisiense, que fica em frente ao Ritz, ao lado de uma casa sofisticada de leilões, um teatro bacana, uma sala de concerto. Logo no início a singularidade do lugar é explicada: não há na região um supermercado, uma mercearia, um boteco, qualquer outro lugar que seja simples, onde seja possível comer um sanduíche de presunto honesto e barato. Por isso, o tal café é frequentado tanto por varredores de rua quanto por hóspedes chiques do Ritz ou artistas que querem se sentir um pouco normais de vez em quando ou querem, simplesmente, tomar um café.

A protagonista do filme, Jessica, é uma moça simpática que veio do interior da França viver um pouco do luxo e do glamour de Paris. Como não é rica, vai trabalhar em lugares luxuosos. A certa altura ela diz que tudo o que quer da vida é um bom lugar na platéia, que não seja nem muito longe, nem muito próximo da orquestra. E aí está a maior qualidade do filme, e a razão pela qual quis resenhá-lo aqui. Em meio a grandes personagens, que são grandes artistas cheios de talento e realizações, a personagem principal é uma espectadora. Uma mulher bacana, sem grandes pretensões a não ser curtir o que há de bom por aí.
Essa é a grandeza do filme, sua simplicidade e a absoluta falta de pretensão com que a arte e o fazer artístico são tratados.

Freqüentam o café um senhor de idade, colecionador de arte que venderá, em três dias, toda a a coleção que construiu ao longo da vida inteira. Uma atriz adulta, que está para estrear, no teatro, uma comédia de costumes e é a personagem principal de uma novela de sucesso que, para o seu desgosto, lhe dá fama e, principalmente, um dinheiro irrecusável. Um grande concertista, pianista, que não agüenta mais sua vida de concertos carésimos entre Japão e Europa, agendados até o ano de 2012.
Todos hiper e absolutamente bem sucedidos. Todos em crise, e todos, e isso é o que emociona, absoluta e sinceramente apaixonados por aquilo que fazem, pela arte.

A crise de todos eles tem a ver justamente com uma espécie de glamourização e importância excessiva que se dá à arte, ao ser artista, à posse de obras de arte, ao dinheiro, ao que supostamente é chique e de bom gosto. Em meio a isso, o prazer se perde.

E o filme trata disso. Do prazer que se sente ao ver uma escultura que nos toca, que faz com que sintamos vontade de nos apaixonar. Do prazer de ouvir um concerto de piano, de ver uma peça engraçada. Prazeres simples, que no entanto ficam inacessíveis a pessoas como Jessica, a garçonete.

E não é preciso, muita atenção nessa hora, não é preciso que a arte seja chata para nos dar esse tipo de prazer.
É um prazer simples, uma boa obra de arte também é divertida, também nos retira do nosso dia a dia, também entretém, mas mais do que isso: nos lembra de nossa humanidade, dá uma vontade da gente ser melhor do que é, de viver uma vida mais inteira, mais corajosa, de Ser. Um bom livro não é um livro chato, um bom filme não é um filme que nos faz sentir nojo do mundo ou que nos faça sentir burros ou com sono, uma boa escultura ou pintura não é algo que não entendemos ou que, ao vermos, pensamos assim: nossa, como é fácil a vida de artista, até meu filho de quatro anos faria isso. Boas obras são aquelas que nos tocam, seja porque razão for, mas nos lembram de que a existência é algo que vale ser vivido.

O lance é que somos mais interessantes que o homem aranha e sua banal dualidade preto-malvado, vermelho-bonzinho.
Somos mais que um mundo constantemente salvo graças a poderes sobrenaturais, somos mais que um casal onde a mulher apaixonada pelo feioso se transforma em feiosa também para que o amor possa realizar-se ( tenho birra desse final do excelente shreck 1).

Somos mais, podemos mais, mas às vezes a gente deixa para lá, e acabamos nos esquecendo disso.

Uma aventura amorosa pode nos lembrar disso, que estamos vivos e pulsantes, que podemos ser melhores e mais fiéis a nós mesmos. Uma ida ao parque de diversões também pode exercer essa função, um dia de jardinagem, cozinhar, sei lá. A arte pode também ter um papel assim, de lembrar que é bacana viver. Um belo filme também.

Assistam, Um lugar, na platéia.
Nem muito longe, nem tão próximo, apenas um bom lugar.






terça-feira, 19 de junho de 2007

O homem que matou o facínora





A chegada, o trem e o senador.


O filme, dirigido por John Ford, começa como tantos outros filmes de farwest: um trem atravessa a tela, chega a uma estação, pára. Dele, saem dois personagens, um homem e uma mulher.
O trem sempre acompanhou não só a história do velho oeste como também a do cinema. São clássicas as primeiras projeções dos irmãos Lumiére nas quais um trem atravessa a tela e fazia com que os espectadores corressem assustados, era primeira vez que se via uma imagem em movimento dentro de uma tela.

Em relação aos weasterns o trem representa sempre o progresso e a civilização, em contraposição a um mundo sem lei, governado por cowboys e pistoleiros, um mundo sem fronteiras, à espera da civilização. Há um filme perfeito para se analisar essa questão, No tempo das diligências, falo dele outro dia.

No homem que matou o facínora o tema da conquista do oeste é também presente, e talvez em nenhum outro filme clássico de bangue bangue esse tema seja trabalhado de forma tão profunda e acertada.

Quem chega no trem é um político, senador, um James Stuart envelhecido de maneira um tanto forçada, os cabelos brancos como a neve. O senador e sua esposa, Hallie. Logo abordado pelo jornal local, o senador deixa sua esposa a sós com um outro homem já velho que veio buscá-la, e vai dar entrevistas para o jornal. Por que viera? Para um funeral. Um funeral de um certo João Ninguém. Como assim? O senador é interpelado pelos jornalistas, tem que contar a história dohomem que morrera e que o trouxe à cidade de Shinbone.

Enquanto é entrevistado, a mulher pede ao senhor que veio buscá-la para adentrar no deserto. A cidade acaba, chega-se na fronteira na natureza, ainda do desconhecido, e nessa fronteira, no deserto, há uma casa abandonada e velha. Ao redor da casa, cactos floridos em profusão. Você já viu uma flor de cacto? Eu nunca havia visto, e a flor de cacto é um dos elementos centrais do filme. Com um cacto em flor Hallie era presenteada, quando jovem, por um outro homem.

Todos que conhecem o James Stuart sabem da certa cara de bobo que ele tem. O cara tem cara de inocente, de bom, essas coisas. O Hitchcock sabia disso super bem, e usava e abusava do certo ar naïve do rapaz. O senador é bom, correto e justo, logo se vê.







O passado, o deserto e o facínora.

Pois bem, a narrativa começa, e voltamos ao passado, ao tempo em que o trem ainda não chegava `a cidade, ao tempo em que James Stuart era novo e ainda tinha cabelos pretos, e tal.
O jovem Ranson Stoddart, o nome do personagem interpretado por James Stuart, um advogado recém formado, que chegar à cidade de Shinbone. Sua diligência é assaltada. Levam seu dinheiro, ele reage, apelando às forças da lei. A resposta: risos. Ali não há lei, a única lei é a da pistola e da bala. O que o jovem advogado carrega consigo? Livros. Livros de lei. E se recusa a carregar armas. Os livros são jogados ao chão, o chefe da quadrilha, que carrega consigo um chicote, bate e zomba do jovem advogado, que fica caído no chão, aos lados de seus livros, rasgados e jogados na lama.

Pronto, está dado todo o tema do filme.
A força das armas e da violência contra a força da lei, do conhecimento e da justiça.

Ranson
Stoddart, o personagem vindo do Leste, lutará para transformar a região em um Estado, o que significa ganhar fronteiras, direitos, escolas, o que significa ser regida pelas leis do Estado. Pela sua luta passa a alfabetização da população e a campanha pelo voto.

Até aqui, tudo um pouco esquemático, um tanto bobo. Mas então aparece a personagem do John Wayne, e um filme meio besta torna-se um filme de gênio.

Todos que conhecem John Wayne sabem a cara de meio mal que ele tem. Vamos combinar, o cara é todo torto, enrugado, essas coisas. Ali no filme está velho, rude. Seu personagem, Tom Doniphon, é o oposto de Ranson Stoddart. Não por ser fora da lei, pelo contrário, Tom Doniphon é honrado e bom. Ele é quem encontra Ranson na estrada, estragado pelos assaltantes. Leva o homem a um lugar onde sabe que ganhará cuidados, uma casa que oferece comida e bebida a todos da região. Nessa casa provedora está Hallie, por quem Tom é apaixonado. Claro, Stoddart se apaixonará por ela também. Tom Doniphon cuida de Ranson e logo lhe aconselha a carregar uma arma. Ranson Stoddart recusa-se, sua arma são os direitos pelos quais viera lutar.
Tom Doniphon é o melhor atirador da região. Só ele pode com o facínora, Liberty Valance, o homem que carrega consigo um chicote de prata. Só ele, com sua maestria, consegue impor alguma ordem e respeito àquela terra sem lei e sem ordem. Ele cuida das pessoas e protege a população.

A pistola e os livros.

O conflito que se estabelece entre Stoddart e Doniphon é o conflito entre a força e a lei. Um, Ranson Stoddart, acredita no poder das letras e da lei no processo civilizatório; Tom Doniphon acredita no poder da mão rápida no gatilho e de boa pontaria. Ambos querem o progresso, ambos querem que a região entre no mapa americano e deixe de ser terra de ninguém, controlada por criadores de gado. O caminho e os meios de um e de outro são diametralmente opostos.

Pois bem, pelo começo do filme, sabemos quem ganhou.
Ranson Stoddart tornou-se um senador respeitado e casou-se com Hallie. Tom Doniphon está sendo enterrado num caixão de madeira simples e anônima, sem suas botas e sem suas armas, sem honras e sem pompas, e no seu funeral há somente quatro pessoas.

E aí é que está. Tom Doiphon é o verdadeiro herói do filme. É ele o cowboy, e o cowboy é sempre solitário, e está sempre à margem. E o cowboy é sempre um bom atirador, e a ordem e a lei é sempre conquistada pelo tiro. Essa é a essência da conquista do oeste, e essa é a essência do filme. Na raiz da civilização e da conquista, na raiz da colonização de terras desconhecidas, esté sempre um ato de violência, e quem perpreta esse ato é o maior e mais emblemático herói americano de todos os tempos: o cowboy.

A história narrada pelo velho senador revelará a história apagada de Tom Doniphon. Que, ao final, será apagada novamente. Acompanhemos o filme.

Enquanto Tom Doniphon parte para o deserto para fazer seus negócios, Ranson se recupera, fica na hospedaria de Hallie, onde lava as louças em troca da comida e do abrigo que recebe. Logo começa a alfabetizar a população ( fato importante para que os moradores da região possam adquirir cidadania e assim, ter direito ao voto) e dar aulas sobre leis e direitos. Sua primcipal aluna é Hallie, que não sabia ler nem escrever.

É claro que o facínora, que representa os criadores de gado, a quem interessa a manutenção daquele lugar como um espaço de ninguém, sem lei, não gosta de nada disso e a certa hora chega à cidade para acabar com a festa.
A batalha de Ranson foi perdida. Nesse momento, a única alternativa que lhe resta é duelar com o facínora, enfrentar Liberty Valance não no voto, mas nas armas. O homem apaga a lousa de sua sala de aula vazia e pega em uma arma.

Vai à casa de Tom Doniphon, que procura ensiná-lo a atirar. Nessa outra aula, Ranson é humilhado por Tom, que ao mesmo tempo lhe lembra que Hallie é dele. Ranson, no entanto, dá um soco em Tom, e assim ganha seu respeito. O cara até que tem uma boa direita, e tem honra também. Os dois homens se separam.

Essa cena prenuncia o mote do filme inteiro, o futuro senador só conseguirá de fato o respeito e a força quando mostrar que detém também o poder da violência.

A noite do duelo chega. Todas as casas estão fechadas, ninguém sai às ruas. Toda a grandeza de John Ford monta um clima tenso, o final de Ranson parece evidente. O homem cambaleia, mal consegue segurar sua pistola.
Surpresa das surpresas, Ranson acerta o único tiro que dá, e mata o facínora, mata Liberty Valance. Ranson Stoddart torna-se uma lenda.

A partir daí, sua carreira ascende, é eleito representante da cidade, consegue o Estado, torna-se governador e depois senador por dois mandatos consecutivos.

A verdade e a lenda.

Voltemos à cena do duelo. à sombra, escondido, atrás de uma parede, está Tom Doniphon.
É dele o tiro que matara Liberty Valance, é ele The man who shot Liberty Valance ( título do filme em inglês). Tom permanece na sombra, não conta para ninguém da sua façanha. Queima sua casa, perde sua mulher, e conhecemos seu final. Somente Ranson sabe a verdade. A verdade que agora é contada.

Voltamos ao presente. O senador, de cabelos brancos, diz ao jornalistas que o ouvem, atônitos: agora vocês sabem a verdade, podem imprimi-la.
O editor do jornal rasga a entevista e diz uma frase que tornou-se clássica:

- Senhor, aqui é o Oeste, diz ele. Quando uma lenda torna-se um fato, publicamos a lenda.

Ranson sai da sede do jornal. Em cima do caixão pobre, um cacto florido, colocado ali por Hallie.
O funeral está no fim.
Ranson e Hallie esperam o trem. A região está totalmente diferente, junto com a civilização, chegaram escolas, comércio, a cidade cresceu, até o deserto floresceu. Aparece um homem, um cidadão, que vem cumprimentar o senador. E diz: que honra comprimentar o homem que matou o facínora.

Close para o olhar melancólico de Ranson. Nenhum de seus feitos como político é lembrado. Sua fama, a estrutura da sua força, o pilar de toda a sua carreira está no fato de que fora ele quem matara o facínora. Tom Doniphon estava certo.

E assim, o filme torna-se grandioso.

Porque tematiza a questão da política, da criação da lenda, da mentira sobreposta aos fatos. Porque mostra que no cerne da Lei está, sempre, um ato de violência. Que o passo para a "civilização" não pode ocorrer sem que escorra sangue. Que o poder dos livros e da lei não é suficiente. O homem tem que ter matado o facínora, com suas mãos. Tem que vencer o duelo. Depois vem a lei, depois vêm as letras.

A figura do senador é a mais melancólica possível. Ele é, na verdade, um perdedor, pois seu projeto não vingara.

Na essência da conquista do oeste, da entrada da Lei e da civilização, da conquista da fronteira, está sempre a violência e a força, reforçadas pela imprensa, pelos meios de comunicação, onde a lenda ganha da verdade.

E não é sempre assim?



O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance), 1962. Diretor: John Ford. Elenco: James Stewart, John Wayne, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O'Brien, Andy Devine, John Carradine, Woody Strode.