segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
"Eu do lado certo"
É assim: eles têm que escrever sobre si, mas descrevendo-se ao contrário do que são. Devem falar daquilo que gostam, que odeiam, de suas personalidades, comidas prediletas, família, corpo... sempre ao contrário. É bem divertido e desmonta o que seria uma auto-descrição banal e já solidificada que cada um de nós tem sobre si mesmo. Eles se divertem contando como são velhos, os meninos falando que são meninas, as meninas faladno que são meninos, contando como amam comer jiló com beterraba, como odeiam pizza e ver tevê e assim por diante...
Ao me entregar o texto, um deles perguntou:
- E quando você vai nos pedir para entregar uma redação falando do "Eu do lado certo? "
- "Eu do lado certo? " - perguntei, sem entender muito.
- É, ué... Já escrevi sobre o "eu ao contrário", agora queria escrever sobre "eu do lado certo", ué...
E nas redações um menino escreveu que amava viver. Achei que havia se atrapalhado, muitos se atrapalham e acabam falando de si " do lado certo" ao invés de falar de si ao contrário. Chamei o moleque:
- aqui, onde você colocou que amava viver... é isso mesmo ou você ama viver de verdade e se enganou?
- Não. - me disse o menino, impassível, do alto do seu metro de altura - eu odeio viver.
- É mesmo? - perguntei, procurando fazer um ar tão indiferente quanto o dele ( quando aparecem essas coisas a gente tem que prestar atenção mas, ao mesmo tempo, não dar muita bola nem se mostrar muito impressionado) - então, você não gosta de viver...
- É. - respondeu-me, lacônico - Inclusive, eu sempre como maionese em excesso que é para apressar a minha morte.
- Tá, só para saber. - respondi, e o menino que come maionese em excesso para apressar a sua morte voltou a sua mesa, e foi passar a limpo sua bela redação.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
as histórias maravilhosas que os alunos me contam:
Pois bem, alição de casa da semana passada era muito simples:
- observar.
- Como assim?
- Observar, prestar bastante atenção em alguma coisa. Qualquer coisa. Pode ser uma pessoa, um lugar, um sentimento, um diálogo, um jeito da pessoa se mexer e falar, o que vocês quiserem. Tem que prestar muita atenção mesmo, e trazer essa observação para a sala de aula.
No dia marcado, todos haviam trazido suas observações, e puseram-se a escrever. Todos menos um:
- Pedro... Por que você não está escrevendo?
- Ih... não tive nada para observar professora.
- Como não? e tudo aquilo que eu falei, sobre o mundo, as pequenas coisas...?
- Sabe o que é? Desde que você deu essa lição, o mundo ficou vazio... vazio, vazio...
Fiquei ali por alguns minutos, olhando o moleque. Sorríamos, eu e ele, enquanto outro escrevia sobre a professora de português, meio louca e meio descabelada.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
começam as aulas
Uma semana antes do carnaval. Coisas do calendário escolar...
Tenho saudades dos meus alunos, e ao mesmo tempo, tenho um pouco de medo. Minha vida mudou tanto nessas férias, eu mudei tanto, que nem sei. Vou ver como estou ali também. Poruqe a lulu que terminou o ano é diferente da lulu que começa o ano. Mesmo. As mudanças internas foram mais longas, é claro, mas estou diferente, minha vida está diferente. Será que estarei diferente na sala de aula?
De qualquer maneira, a cada ano entro na sala de aula, para o primeiro dia de aula, como se fosse a primeira vez.
Todo ano, fico nervosa e ansiosa.
Todo ano, há dez anos, a primeira pisada na classe parece ser definitiva. Tento ser muito muito brava e assustar muito todo mundo. Raramente consigo.
Neste ano, durante as férias, nem pensei na escola. Me constituí e reconstituí de jeitos que não incluíram o estar na sala de aula, escrevi muito, arrumei minha casa, fiz milhões de aulas de dança, conheci pessoas, comecei a morar sozinha. Tudo mudou, mas meu trabalho cntinua exatamente o mesmo, e isso também me dá uma certa estranheza.
A sala de aula é o meu lugar.
Um dos meus lugares.
Um lugar que talvez também tenha que ser reinventado.
Ou não. Não sei ainda.
Para ser uma boa professora é necessário um grande nível de doação. O bom professor, na sala de aula, não olha para si mesmo e sim para os alunos, e abre, com generosidade, caminhos para que eles possam crescer e aprender. Se a gente tá muito auto centrado, muito inseguro ou muito envaidecido, muito preocupado com algo ou muito distraído, é difícil as ulas saírem boas. Pelo menos comigo é assim. A hora de entrar na sala de aula é a hora de esquecer meus problemas pessoais e me focar e concentrar naquele momento. E aquele momento é dos alunos.
Eu levo minha profissão muito à sério, me sinto muito responsável por coisas importantes na vida de muita gente. Para o bem ou para o mal.
Quanto mais novo o aluno, mais importância os professores têm. Por uma série de razões. É claro que aquele super professor na faculdade pode transformar nossa maneira de ver o mundo, apresentar novos universos e tal, mas aí, de certa maneira, já estamos formados.
Quem cuida do seu filho de cinco anos de idade é alguém muito, muito importante na vida dele.
Há uma inversão cruel de status e salário na carreira de um professor que faz com que os professores que lidam com crianças menores sejam os que ganham pior, e o salário aumenta na medida em que aumenta a idade, e o nível dos alunos. E a pessoa se forma mesmo quando criança. Professores do fundamental 1 são muito mais determinantes para a formação de alguém do que qualquer professor do endino médio. Muitos pais entram também nessa lógica e investem tubos de dinheiro para colocar o filho no ensino médio mais caro da cidade, enquanto o filho mais novo vai ser alfabetizado na escolinha perto de casa, tá bom... ele é criança ainda. As crianças bem formadas desde pequenas são geralmente os melhores alunos em qualquer nível que venha depois. Até a faculdade. É claro que estou sendo bastante fatalista aqui, e há mil histórias de virada, intelectual e moral, ao longo da vida de cada um. O que eu queria dizer é que um professor de quinta série, sexta, sétima, oitava é alguém que pode marcar muito a vida de alguém. E em português isso fica muito evidenciado e forte. Porque trabalha-se com escrita e leitura, com a fala e os vários tipos de comunicação, com a relação da pessoa com o mundo e consigo mesma, com as possibilidades de expressão e construção dessa relação. Isso não é pouco.
Quando faço meu planejamento anual penso nessas coisas. Porque não quero, nem posso, me eximir dessa responsabilidade. Na escola em que leciono sou responsável pelo curso de português inteiro do fundamental 2. Dou aulas da quinta à oitava série, de redação, gramática e literatura. O moleque vai me ver quase diariamente por quatro anos da vida dele. Eu tenho que fazer o meu melhor. Dar um curso que forme os alunos, como leitores, escritores e donos da sua linguagem.
E todo começo de ano me dá uma tremedeira. Uma insônia na véspera da primeira aula. Um medo de que nada vai dar certo.
Uma vontade de que amanhã já chegasse logo, e uma saudade de ouvir o sinal, pegar minha caixinha de giz, e voltar logo para a sala de aula.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Acabaram as férias. Voltei.
São Paulo, 15 de dezembro,
Crianças,
Pais, famílias, queridos colegas educadores,
É cheia de honra e nervosismo que estou aqui, hoje. Obrigada. Eu, como vocês sabem, estudei aqui no equipe, me formei aqui, na oitava série e no terceiro colegial. Fui educada aqui, pelas mesmas mãos e pelo mesmo espírito que agora educa vocês. Então, estar aqui, agora, sendo homenageada pelos meus alunos, é algo muito forte. Uma espécie de ciclo, e de continuidade porque essa formação, que essa escola me deu, foi o que me fez querer ser educadora. Vocês sabem, um de vocês escreveu isso de um jeito bonito um dia: para mim, ser educadora é um jeito de ajudar o mundo.
Eu gosto de saber que a gente leu, sentiu e pensou muito, juntos, sobre grandes obras da literatura. Lemos sobre um adolescente cujo pai fôra assassinado e cuja mãe casara-se com o tio. Esse menino, príncipe da Dinamarca, convive com os fantasmas de sua família e com as desrazões de si próprio e do mundo. Incapaz de abrir-se para o amor de Ofélia, preso entre a necessidade de vingança e uma vontade de justiça, cheio de urgência de crescer e tomar logo seu lugar no mundo, briga com a questão que ficou tão famosa: ser ou não ser.
Crianças: sejam.
Optem sempre por ser. Com quantas faces vocês tiverem. Tortos, pela metade, na busca. Tenham sempre, coragem de ser. Porque mesmo se não tivermos nada, mesmo se não formos nada, a parte disso, temos em nós todos os sonhos do mundo. Sejam e sonhem, sempre. Uma vez o Silvio, que foi meu orientador educacional aqui no equipe, disse que os adultos mais felizes são aqueles que foram fiéis aos seus sonhos adolescentes. Não se percam dos seus sonhos. Não fujam para o subsolo.
Lemos sobre as mulheres de uma cidade que, cansadas de perderem seus homens para a guerra, fizeram uma greve de sexo. E então, sem suas mulheres, os homens perceberam que mais que fazer guerra, o bom mesmo na vida era fazer amor. E amar, e viver em paz, na paz.
Lemos também sobre um cara cujo sonho era ficar num campo de centeio, que ficasse ao lado de um precipício, vendo crianças brincar. A função dele, no mundo, seria apanhar as crianças desatentas, que, correndo demais ou distraídas, corriam o risco de cair no abismo. Esse cara tinha dezessete anos, perdera seu irmão mais novo, fora expulso de três escolas, crescera 17 centímetros num ano, e queria ser só isso: um apanhador no campo de centeio.
Lemos sobre outro,que certa manhã acordou de sonhos intranquilos e encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
E à medida que líamos, conversávamos. E a gente conversou que às vezes o mundo nos transforma em insetos mesmo. Nos atropela. Quer que a gente se molde, quer nos obrigar a esquecer nossos sonhos, porque parece que não dá, e a gente entra na roda viva, e um dia acorda em forma de barata. Cuidado, crianças. Ser, é também resistir a essa metamorfose. Ser é resistir. Porque o mundo aí fora é duro, uma vida viva é uma vida atenta, fiel a si mesma e aos seus valores. E para isso é necessário muita força e integridade, e não dá pra ter preguiça.
E não é possível ser, sem que se olhe para o outro. Um olhar de cuidado. Se tem uma coisa que o Equipe ensina é olhar para o mundo com olhos atentos e inquietos, incomodados e ativos. Os outros, o mundo, nos fazem, e dão até sentidos para a nossa existência. Que vocês sejam, e sejam conduzidos por padrões éticos, humanos, atentos ao outro.
Mas como é difícil se colocar no lugar do outro! Quase impossível. Mal posso escrever de mim, professora, vou escrever do outro? Não consigo, não consigo criar um personagem que seja diferente de mim... Conseguem. Conseguiram. E cresceram, e podem – e vão - crescer ainda mais. Nesse exercício tão difícil e tão importante que é aceitar o diferente, aceitar o estranho, e se colocar no lugar do outro.Isso também é ser. Ninguém é, se não olha para fora de si mesmo, e não consegue identificar um pouco de si no outro, por mais diferente e estranho que o outro seja. Acho que essa foi uma das grandes coisas que talvez tenhamos aprendido no curso de literatura deste ano.
Lemos sobre o índio valente, cuja tribo havia sido massacrada e vagava com seu pai, cego, pela floresta, e que chorara na presença da morte, na presença de estranhos, ao lembrar-se do pai só e cego, perdido na floresta. Lemos como o índio foi solto e depois rejeitado pelo pai por sua suposta covardia. Lemos a luta que houve, e que não houve guerreiro mais valente que aquele índio que chorara.
Lemos um livro inteiro onde as coisas mal acontecem. Onde o narrador, um homem mais rico e letrado, quer falar de uma nordestina quase analfabeta, que mal sabia falar, mal tinha consciência de si. Que nunca experimentara a felicidade. Que tem sua hora da estrela quando – como um operário na construção - anda na contramão, atrapalhando o tráfego. E morre. E não há ninguém que preste no livro, e a Clarice ainda por cima escreve prosa como se escrevesse poesia.
E depois lemos sobre o homem do subsolo, a classe reclamando que só líamos livros tristes, e poemas tristes, e lá vamos nós ler Dostoiévski.
"Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto, Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno." (p. 19)
Pois é, esse daí não consegue nem ser um inseto decente. Looooooooooseeeeerrrrrrr. Doeeennnnteeeeee.
- Sabe quem é esse cara, professora? Você já viu aquele programa, linha direta?
- Já.
- Então, ele é um desses caras que aparecem no linha direta, esses caras doentes.
- Será? O quê vocês acham, gente?
- Eu acho que não... - falou uma menina, bem tímida mas convicta - porque... sabe? O que é legal nesse cara é que ele tem consciência de como ele é ridículo e patético, ele sabe disso. Ele tem raiva do mundo mas acho que tem raiva principalmente de si. E... sabe? eu acho que eu até me identifiquei em algumas partes do livro... não assim com essa raiva toda que ele tem do mundo, de todo mundo, tal... mas da vergonha que ele sente de si próprio às vezes... da vontade que ele tem de não falar com ninguém e ser grosseiro com todo mundo... De como às vezes ele é superior a todos, e às vezes se sente super inferior.
- Sabe o que eu gostei no livro? - um outro aluno - como ele sempre pensa que deve fazer uma coisa e nunca faz aquilo que pensa que deve fazer. Ele está lá num lugar e pensa: eu preciso dar um soco nesse cara, ou: eu preciso ir embora... mas fica lá, andando de um lado para o outro e não faz nada daquilo que gostaria de fazer, ou que acha que tem que fazer. Eu achei isso muito legal.
- Eu acho que esse livro me ajudou a entender melhor as pessoas...
- Por quê?
- Ah... sei lá... o cara tem coragem de falar um monte de coisa que todo mundo sente um pouquinho mas não tem coragem de confessar, ele vai lá e confessa, sabe?
Uma menina vira para o outro que disse odiar o cara com todas as forças:
- Você nunca faz uma coisa da qual se arrependeu depois? Ou deixou de fazer por falta de coragem e depois ficou pensando nisso durante dias e dias, e isso virou uma coisa enorme na sua cabeça? Você nunca quis fazer algo e acabou fazendo justamente o contrário? Eu fiquei com um pouco de pena do cara, sabe? mas gostei dele, de uma certa maneira, sei lá.
- Eu não tô gostando do livro porque dá aflição e angústia.
- Eu acho que o cara devia tomar coragem, se matar e deixar a gente em paz.
- Por que alguém vai escrever um livro sobre um cara desses?
E aí a gente conversou que a razão, o bom senso, a racionalidade não são suficientes para explicar o que é o ser humano. Que o cara, e a gente, tem impulsos auto-destrutivos, que todo mundo tem... Que nem sempre a gente age com racionalidade, quem nem sempre dá, e vale a pena, ser um winner na vida. Que tudo isso aliás é meio ridículo, que há o subsolo do humano, e que esse não pode ser negado. Porque todo mundo aqui sabe que a gente tem às vezes prazeres e desejos perversos... todo mundo aqui já fez alguma vez alguma coisa muito nada a ver, perigosa ou auto-destrutiva prá caramba, só para flertar com o perigo, para testar limites, sei lá. Pô... Que todo mundo é meio loser mesmo e ainda bem, porque essa figura do cara que sempre consegue tudo aquilo que quer, que sempre faz tudo aquilo que acha que deve fazer, que tá sempre feliz, realizado e se dando bem com todo mundo... é muito chata. Sabem, o homem do subsolo leva ao máximo um lado que todo o mundo tem, vamos chamar de lado loser, para vocês verem o ridículo dessa expressão. Ainda bem que alguém escreveu um romance sobre ele, porque o ser humano não tem controle absoluto sobre si próprio, tem o inconsciente, tem um prazer que a gente sente na dor, tem um monte de coisa... Essa obrigação de ser feliz, de se dar bem em tudo, de conseguir as coisas, é na verdade não só ridícula como muito dura também.
E o pior: ele é um cara que tem a consciência hipertrofiada. Pensou demais, observou demais, refletiu demais. A resposta possível que ele dá para tudo isso, para o ridículo das pessoas que observou, para a hipocrisia do mundo, os bajuladores, etc. é a inércia. Pois para ele não adianta fazer alguma coisa, porque nada do que ele fizer vai mudar ou alterar o estado do mundo e das coisas. Mas isso não impede que ele sinta raiva, muita raiva. O discurso dele é inteiro raivoso, e é bacana um discurso raivoso, o mundo precisa também disso. E eu acho que dá para agir também, não precisa entrar na inércia porque o mundo é uma droga, a ação vale a pena, e no mínimo faz a gente ficar mais feliz.
O mundo não está dado, ele não é harmonioso, é a gente que tem que construir o nosso mundo, sabe? Ir juntando as pecinhas partidas, criando nossos sentidos... o romance moderno trata justamente dessa construção: o herói do romance moderno tem que construir a si mesmo e ao mundo, criar um sentido para si e para as coisas do mundo. Esse é o grande tema.
E muita gente abdica de si mesmo e dos seus sonhos, se aprisiona ao máximo para poder inserir-se no mundo, não virar um loser, ganhar muito dinheiro, sei lá. Tem muita gente muito infeliz por aí, gente demais. E é difícil mesmo. Porque por outro lado ninguém quer virar uma barata ou um personagem do Dostoiévski que nem barata conseguiu virar. Mas é bacana a literatura mostrar que o mundo é um pouco isso aí mesmo. Que é uma batalha a gente ser fiel a nós mesmos, e para isso a gente tem que lembrar o tempo inteiro que essa construção do mundo e de nós mesmos nos dá uma coisa muito muito preciosa e bacana: liberdade. Ninguém está predestinado a nada, ninguém tem um lugar fixo, cada um pode ser livre para viver seus desejos, construir sua vida, lutar pelos seus sonhos, lutar pela construção de um mundo melhor. A resposta para esses livros não precisa ser uma tristeza e uma depressão, pode ser pelo contrário: ação, e mesmo, talvez, um certo alívio, porque não é humano vencer, se dar bem e ser racional o tempo inteiro, e esses livros mostram que nem é isso que interessa.
Que vocês sejam. Muito fiéis a si mesmos, que consigam, nesse mundo louco e desigual, encontrar caminhos verdadeiros e que lutem sempre para viver de acordo com suas verdades, desejos e sonhos. Que possam ter uma vida muito verdadeira, e feliz. Quando vier a questão, ser ou não ser, espero que vocês possam sempre responder que sim. Sejam. Vivam. Sejam grandes, inteiros, sejam felizes. Eu acho que dá.
Com todo meu amor,
Lu
domingo, 4 de novembro de 2007
Carta de uma aluna
Os meus alunos não sabem que o blog existe, mal suspeitam que são personagens de posts e centro de discussões, crises, e relatos luluzísticos.
No entanto, a oitava série, a tal dos livros tristes, do Dostoiévski, etc. ( leia aqui) , me convidou para ser a paraninfa deles, na formatura. Fiquei bastante tocada, e resolvi mostrar o blog para essa turma que, afinal de contas, tá saindo do ginásio ( fundamental 2), e foi uma turma que me fez crescer e pensar muito. Eles adoraram, se sentiram chics e bcanas, e são mesmo.
Uma aluna depois foi pra casa e me escreveu assim:
"Estava eu aqui navegando pela internet, quando me lembrei de seu blog que mal havia visto, fui lá e pelo pouco que li quis comentar, não consegui, tentei mandar como depoimento, só para que você conseguisse ler ao menos, também não consegui, então anexei e estou te mandando como e-mail.
Beijos, ."
Resolvi colocar o e-mail aqui, para falar que é bom, é muito bom fazer algo que dá um sentido para a nossa existência. E que todo mundo fala tão mal da educação, da moçada que tá aí, de sei lá o que, de adolescentes chatos, mas olha só, que besteira. Chove bastante em São Paulo, mas hoje eu estou achando o mundo bonito.
Aqui, a carta que ela me escreveu, como era para ser um comentário pro blog, achei que devia publicá-la aqui:
e, outra aluna, escreveu assim, nos comentários:
Lu, não sei quem escreveu isso, pelo jeito me parece a Ana. Há algum tempo penso e quero te escrever algo que demonstre quão diferente você tornou minha vida. Todos os processos que você me fez passar me fizeram, muito embora de um jeito forçado, amadurecer. E eu sou muito grata por isso, e por todo o resto. Pouquíssimos professores, talvez nenhum, teria entendido, ou sequer ouvido, minhas bobas crises adolescentes em relação aos livros e projetos. Talvez nem acreditado nelas, pensando que seriam apenas uma desculpa para fugir de certas responsabilidades.
Para você, professora, dediquei um poema que você mesma me mandou fazer, dizendo homenagear os mentores que nos guiam por essa vida. Por você, escrevi na ficha de inscrissão pro médio, que queria ser professora porque estes tiveram mais influência sobre mim do que qualquer outra pessoa.
Tenho medo de ter sido mimada demais por você, e nunca mais achar outro mentor que me entenda tão completamente, e me acalme. Porém, levo comigo tudo o que aprendi com você, não só em relação à escola, mas também como pessoa, e tenho a certeza de que isso me ajudará sobre qualquer dificuldade.
Sentirei tua falta, de verdade. Beijo.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
ensinar ou apender
"Ficamos muito, e durante muito tempo, preocupados com o ensinar.
A nossa tarefa é outra.
Nossa tarefa é propiciar ao nosso aluno oportunidades planejadas que favoreçam o desenvolvimento de capacidades, habilidades e atitudes que o transformem num cidadão.
Esta dimensão, a dimensão política do nosso fazer deve ser resgatada para justificarmos a nossa presença como categoria profissional.
Favorecer a transformação de crianças egocênricas em cidadãos é a função social que nos distingue das demais e da qual não podemos abrir mão sob pena de continuarmos sendo uma corporação anacrônica de doadores de aula, substituíveis por qualquer tio de plantão.
Uma vez, um velho rabino disse que os professores começam ensinando o que não sabem, depois de algum tempo ensinam o que já aprenderam, depois de mais algum tempo ensinam o que é importante e só depois de muito tempo percebem que sua tarefa não é a de ensinar mas a de criar condições para que os alunos aprendam.
Era sábio o velho rabino"
( Extraído do texto "Avaliação" do professor Mauricio Mogilnik)
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
rápidas impressões sob o signo da outubrite
Queria falar sobre Orgulho e Preconceito, da Jane Austen, que estou terminando de ler com a sétima série. Segundo um dos alunos: um livro chato sobre um monte de gente desocupada que só pensa em casamento.
A classe está dividida. Uns amam o livro, outros odeiam, até aí, nada de novo sob o sol, nada que fira o meu orgulho.
Alguns preconceitos meus, inclusive, foram solapados rapidamente. Confesso que escolhi esse livro pensando em duas coisas: na história da procura por livros felizes e nas meninas.
Sim, porque a maioria dos livros clássicos que a gente lê na quinta e na sexta série são livros de aventura com cara de menino. Olhem só: A Ilha do Tesouro, Julio Verne, Edgar Allan Poe... mesmo o do Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente, parece-me ser mais de menino que de menina. Então, decidi dar um romance bem clássico, sobre a vida das pessoas comuns, entretidas, no mais, em casar e também em garantir uma boa renda que lhes permita uma boa sobrevivência.
Para as mulheres, se não há herança em jogo, como acontece com os pobre dos Bennet, a família que protagoniza o romance, resta casar com alguém rico, oras bolas.
Cada livro que leio com meus alunos traz novas discussões.
Por exemplo, quando a gente leu o Cavaleiro Inexistente fiquei uma aula inteira discutindo com uma aluna que estava muito revoltada porque era IMPOSSÍVEL existir um cavaleiro inexistente e que então tudo aquilo era uma bobagem sem fim.
Foi uma discussão linda, sobre justamente o que é, afinal de contas, a literatura.
Na sexta série começamos a ler o que eu chamei de primeiro livro de gente grande deles, Capitães da Areia. É bem engraçado, e depois quero falar mais sobre isso, porque no livro tem um monte de sacanagem. São dois os temas principais que surgem: o da liberdade e o do sexo. Liberdade porque sempre, sempre, tem um ou dois meninos na classe ( e geralmente são meninos) que ficam realmente invejando a vida dos capitães da areia. Que não queriam ir para a escola, que não queriam ter pai e mãe dando bronca, que queriam viver de brisa e assaltos ocasionais, em liberdade. As discussões são sensacionais, principalmente porque o resto da classe geralmente fica hiper revoltado mas quando vai argumentar a favor da escola, por exemplo, fica sem argumentos. Afinal de contas, escola serve prá quê? Discussões e discussões.
E tem o lance do sexo . Logo no início do livro, há uma cena onde um menino bonitão de quinze anos, o Gato, se apaixona pela Dalva, uma prostituta. Faz que faz e ela acaba indo para a cama com ele. Ele, todo rápido, sem jeitos, e ela o inicia nas artes do amor. Há muitas gírias no livro, tive que explicar, por exemplo, o que era tocar uma bronha. Percebi que essa parte tava incomodando todo mundo e resolvi ler em voz alta.
Tá. agora imaginem ler isso em voz alta para uma turma de moleques e molecas de 12 anos.
Pois é.
Uns simplesmente têm ataques de riso compulsivo, acho que é nervoso, não param de rir.
Outros ficam ruborizados, outros ficam me olhando para ver o que eu vou fazer com tudo isso.
Eu falo que eles já são praticamente adultos ( hahahaha) , que já tá na hora de ver tudo isso com maturidade e vou em frente, sem nem piscar, explicando como na hora do sexo é importante prestar atenção no que o outro tá sentindo e fazendo. Pois é... a gente ganha pouco, MESMO.
E tem o Pedro Bala... Uma das minhas alunas mais velhas falou que faz parte do curso de literatura da escola se apaixonar pelo Pedro Bala, o líder dos capitães. Enfim... que delícia que é quando a gente se apaixona por um personagem de algum livro.
Em Orgulho e Precnceito há alguns choques iniciais.
Primeiro: ninguém trabalha nessa joça? Não, ninguém trabalha. Aliás, uma das vergonhas da família dos Bennet é que eles têm dois parentes que ganham seu sustento com o suor do rosto, um é advogado outro, comerciante. Um horror. Trabalhar é coisa de pobre, gente, eu explico. Nobre que é nobre vive de renda, acabou-se.
Como gasta o tempo aquele que vive de renda? Ué... viajando, caçando, indo a bailes, casando, falando dos outros, tendo filhos, casando os filhos, essas coisas...
E as mulheres? às mulheres restava pouco a não ser ser ter um bom dum dote. Não sendo esse o caso, torcer para ser bem linda, costurar, pintar, dançar, tocar piano e saber conversar da melhor maneira possível e torcer para arrumar um belo dum marido. Pronto. Às mães, cabe o maior empenho para que isso ocorra.
Uma bobagem sem fim? Não.
Porque a Jane Austen salva.
Salva como? Sendo extremamente irônica e mordaz em relação a essa sociedade. (E como é difícil explicar e fazer com que os alunos entendam ironia! )
Escrevendo diálogos sensacionais, e criando personagens que são extraordinariamente verossímeis, reais, interessantes e complexos. E no meio disso tudo, há algumas discussões de fato importantes, sobre casamento, amor, a condição da mulher, dinheiro, fofocagem e maledicência, beleza, orgulho e preconceito.
É impressionante como o livro continua atual.
E aqui vai, finalmente, a revelação do meu preconceito que foi desfeito: muitos meninos adoraram o romance. Se acabaram. Foram os primeiros a terminar de ler. Legal né? Achei o máximo. Bobagem a minha achar que esse negócio de namoros e seduções só interessaria às meninas.
Enfim.... mil coisas para contar.
Estou indo para a roça, eu, essa paulistana urbaníssima que achava que goiabada cascão era aquela goiabada que vinha em lata, que vendia no supermercado, com o Cascão ( da Mônica e do cebolinha) na embalagem.
Volto domingo, querendo muito organizar a minha vida para voltar a escrever com mais regularidade por aqui.
Um beijo a todos,
Lulu.
Para quem chegou agora e se interessou sobre esse negócio de aula de literatura para adolescente, passeiem pelo lulu na escola , acho que é o melhor negócio. Mais beijinhos, e bom feriado a todos.
sábado, 15 de setembro de 2007
"professora, puta cara loser, esse Dostoiévski ."

"Puta cara loser, esse Dostoiévski, professora!"- falou um aluno. "Sabe... eu acho que eu me identifiquei um pouco com ele... - respondeu outro aluno."
Esse post é continuação dos posts Três tigres tristes
Professora, queremos livros felizes.
Sobre o narrador de Memórias do subsolo, do Dostoiévski, na sala de aula, oitava série:
-Professora, eu ODEIO esse cara, odeio, odeio, odeio. Ele é o maior loser de todos os tempos!
( eu comecei a rir, achei engraçado, e o aluno tem razão: o herói do Memórias do Subsolo é mesmo o maior loser de todos os tempos:
"Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. (...) Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (...)Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais."(p.15)
Desempregado aos quarenta anos, por vinte foi um funcionário "maldoso, grosseiro, e encontrava prazer nisso".
"Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto." (p.17)
Aos quarenta anos, viveu sua vida toda. " Viver além dos quarenta é vulgar, imoral!" Ainda por cima é feio, e nem ao menos tem o consolo da expressão inteligente.
Na primeira parte do livro, dedica-se a falar de si:
"Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto, Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno." (p. 19)
O cara não consegue nem ser um inseto decente. Looooooooooseeeeerrrrrrr. Doeeennnnteeeeee.
O diálogo na sala de aula continuava:
- Puta cara chato, meu! Sério, professora, sabe do que eu acho que esse cara precisava? Precisava ser preso e enrabado por três negões, aí ele ia deixar de frescura.
( risos, são bons, esses meus alunos)
- Sabe quem é esse cara, professora? Você já viu aquele programa, linha direta?
- Já.
- Então, ele é um desses caras que aparecem no linha direta.
- Será? O quê vocês acham, gente?
- Eu acho que não... - falou uma menina, bem tímida mas convicta - porque... sabe? O que é legal nesse cara é que ele tem consciência de como ele é ridículo e patético, ele sabe disso. Ele tem raiva do mundo mas acho que tem raiva principalmente de si. E... sabe? eu acho que eu até me identifiquei em algumas partes do livro... não assim com essa raiva toda que ele tem do mundo, de todo mundo, tal... mas da vergonha que ele sente de si próprio às vezes... da vontade que ele tem de não falar com ninguém e ser grosseiro com todo mundo... De como às vezes ele é superior a todos, e às vezes se sente super inferior.
- Sabe o que eu gostei no livro? - um outro aluno - como ele sempre pensa que deve fazer uma coisa e nunca faz aquilo que pensa que deve fazer. Ele está lá num lugar e pensa: eu preciso dar um soco nesse cara, ou : eu preciso ir embora... mas fica lá, andando de um lado para o outro e não faz nada daquilo que gostaria de fazer, ou que acha que tem que fazer. Eu achei isso muito legal.
- Eu acho que esse livro me ajudou a entender melhor as pessoas...
- Por quê?
- Ah... sei lá... o cara tem coragem de falar um monte de coisa que todo mundo sente um pouquinho mas não tem coragem de confessar, ele vai lá e confessa, sabe?
Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui (…)
Agora, quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?
(p. 52)
Uma menina vira para o outro que disse odiar o cara com todas as forças:
- Você nunca faz uma coisa da qual se arrependeu depois? Ou deixou de fazer por falta de coragem e depois ficou pensando nisso durante dias e dias, e isso virou uma coisa enorme na sua cabeça? Você nunca quis fazer algo e acabou fazendo justamente o contrário? Eu fiquei com um pouco de pena do cara, sabe? mas gostei dele, de uma certa maneira, sei lá.
- Eu não tô gostando do livro porque dá aflição e angústia.
- Eu acho que o cara devia tomar coragem, se matar e deixar a gente em paz.
- Por que alguém vai escrever um livro sobre um cara desses?
Isso que é o mais lindo, gente. Que alguém vá escrever um livro sobre um cara desses. Que alguém vá falar que a razão, o bom senso, a racionalidade não são suficientes para explicar o que é o ser humano. Que o cara, e a gente, tem impulsos auto-destrutivos que todo mundo tem... Que nem sempre a gente age com racionalidade, quem nem sempre dá, e vale a pena, ser um winer na vida. Que tudo isso aliás é meio ridículo, que há o subsolo do humano, e que esse não pode ser negado. Porque todo mundo aqui sabe que a gente tem às vezes prazeres e desejos perversos, ou teve - na infância, sei lá... todo mundo aqui já fez alguma vez alguma coisa muito nada a ver, perigosa ou auto-destrutiva prá caramba, só para flertar com o perigo, para testar limites, sei lá. Pô... Que todo mundo é meio loser mesmo e ainda bem, porque essa figura do cara que sempre consegue tudo aquilo que quer, que sempre faz tudo aquilo que acha que deve fazer, que tá sempre feliz, realizado e se dando bem com todo mundo... Vamos combinar, gente... é um saco. E é falso também... Sabem, esse cara leva ao máximo um lado que todo o mundo tem, vamos chamar de lado loser, para vocês verem o ridículo dessa expressão. Ainda bem que alguém escreveu um romance sobre ele, porque o ser humano não tem controle absoluto sobre si próprio, tem o inconsciente, tem um prazer que a gente sente na dor, tem um monte de coisa... Essa obrigação de ser feliz, de se dar bem em tudo, de conseguir as coisas, é na verdade não só ridícula como muito dura também.
E o pior: ele é um cara que tem a consciência hipertrofiada. Pensou demais, observou demais, refletiu demais. A resposta possível que ele dá para tudo isso, para o ridículo das pessoas que observou, para a hipocrisia do mundo, os bajuladores, etc. é a inércia. Pois para ele não adianta fazer alguma coisa, porque nada do que ele fizer vai mudar ou alterar o estado do mundo e das coisas. Mas isso não impede que ele sinta raiva, muita raiva. O discurso dele é inteiro raivoso, e é bacana um discurso raivoso, o mundo precisa também disso.
Sabem, quando vocês falaram aquele negócio de livros tristes eu fui estudar. E li um livro que chama A teoria do Romance, do Georg Lukács. E uma das coisas que ele diz lá é que o romance moderno é mesmo necessariamente meio triste, ou é triste ou é entretenimento.Porque na modernidade o mundo não está dado, ele não é harmonioso, não tem um sentido a priori, uma essência que faz com que tudo tenha seu lugar e a vida faça sentido. É a gente que tem que construir o nosso mundo, sabe? Ir juntando as pecinhas partidas, criando nossos sentidos... Para o Lukács, o romance moderno trata justamente dessa construção: o herói do romance moderno tem que construir a si mesmo e ao mundo, criar um sentido para si e para as coisas do mundo. Esse é o grande tema.
O problema é que, para esse autor, essa construção necessariamente está fadada ao fracasso. Porque se o herói se adapta e vence no mundo ele perde algo de si mesmo, da sua verdade. Ele se torna, sei lá, ou um pouco hipócrita, um pouco cínico, sei lá... perde a sua integridade. Isso acontece por exemplo no romance Ilusões Perdidas, do Balzac, que mais tarde vocês deveriam ler. Por outro lado, se o herói mantém sua integridade, ele não cabe no mundo. Aí vira por exemplo um inseto, coitado, como na Metamorfose. Ou mesmo no Apanhador no campo de centeio. O Holden acha todo mundo meio ridículo, meio patético, tem uma consciência e o Holden só se ferra. Tem um amigo meu que inclusive acha que esse romance é reacionário, porque no fundo diz que se você tem essa consciência hipertrofiada e quer ser fiel a si mesmo e aos seus valores, você vai acabar tendo um troço, sendo expulso de todas as escolas, e terminando numa clínica de repouso.
Eu não sei, gente, se tem uma saída. Eu sei que é verdade que muita gente abdica de si mesmo e se aprisiona ao máximo para poder inserir-se no mundo, não virar um loser, ganhar muito dinheiro, sei lá. Tem muita gente muito infeliz por aí, gente demais. E é difícil mesmo. Porque por outro lado ninguém quer virar uma barata ou um personagem do Dostoiévski que nem barata conseguiu virar. Mas é bacana a literatura mostrar que o mundo é um pouco isso aí mesmo. Que é uma batalha a gente ser fiel a nós mesmos, e para isso a gente tem que lembrar o tempo inteiro que essa construção do mundo e de nós mesmos nos dá uma coisa muito muito preciosa e bacana: liberdade. Ninguém está predestinado a nada, ninguém tem um lugar fixo, cada um pode ser livre para viver seus desejos, construir sua vida, lutar pelos seus sonhos, lutar pela construção de um mundo melhor - mesmo que isso signifique ficar um pouco `a margem, sei lá. A resposta para esses livros não precisa ser uma tristeza e uma depressão, pode ser pelo contrário: ação, e mesmo, talvez, um certo alívio, porque não é humano vencer, se dar bem e ser racional o tempo inteiro, e esses livros mostram que nem é isso que interessa.Essa foi a aula de ontem. Quis escrevê-la, sem nenhuma obrigação de amparo teórico nem nada, porque muita gente acompanhou e pensou sobre a questão dos livros tristes na literatura. Essa foi a minha resposta, e sabem? eu acho que , ao final, deu certo e valeu a pena a insanidade de ler Dostoiévski com a oitava. Cerca de 70 por cento da classe gostou, e esse tipo de conversa, esse tipo de reflexão são bem importantes, nunca a classe esteve tão em silêncio e concentrada como ontem. Enfim, eu tenho muitos amigos fiéis a si mesmos, que conseguiram, nesse mundo louco e desigual, encontrar caminhos verdadeiros e que lutam sempre para viverem de acordo com suas verdades e desejos. É possível, a medida que fico mais velha, me sinto cada vez mais livre, e traço minha vida para ser cada vez mais verdadeira, e feliz. Acho que dá sim.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
As respostas maravilhosas que meus alunos dão:
Explique a diferença de significado entre as palavras em itálico nas seguintes frases:
Não houve nada de mais. Eu te amo demais.
A diferença é que o de mais da primeira mostra a quantidade, e o da segunda, a gravidade.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Três tigres tristes
na sala de aula...
Esse negócio de ser professor, professora, pode ser muito legal e também pode ser um inferno.
Quando andei melancólica, semana passada, entrei na classe sem pique, sem pisar firme, um pouco distraída, um pouco desatenta. Sabem o que acontece? as classes crescem, os alunos se multiplicam e vc sai devorada, uma manada passa sobre você que mal se recupera e já tem que entrar na classe seguinte. Os meninos atropelam. A sala de aula demanda cem por cento de atenção e empenho, não dá para estar na frente da lousa pela metade, distraído, sem convicção. Não dá, simplesmente porque se vc piscar, três papéis amassados voam em sua direção, dois meninos começam a brigar, um terceiro a chorar, e outro se distrai tanto que até esquece que tá na sala de aula, uma menina lixa as unhas enquant outro grupinho fofoca. E eu aprendi já a separar a professora da pessoa, e não fico mais em crise de segurança se a aula não dá certo, mas é chato, é claro que é - todo professor é meio vaidoso, de preferência a gente gostaria de ser ouvido, né?
A atenção tem que ser full time, ficamos de pé, tomamos decisões morais e éticas o tempo inteiro. Viro árbitro de coisas sobre as quais nem tenho muita certeza, as aulas têm que ser preparadas, os trabalhos corrigidos com critérios e justiça. Não tem nada de abstrato no trabalho do professor, e a gente vê coisas acontecendo, boas ou ruins. Se enxerga pelos olhos dos alunos, que por sua vez se enxergam através dos nossos olhos.
E como todo bom professor é também ao mesmo tempo bem cabotino e exibido ( no mínimo, gostamos de ouvir nossa própria voz) é legal saber ou achar que fazemos parte da vida das pessoas, eu fico achando que posso até fazer algumas transformaçõezinhas, ajudar, dar segurança, proporcionar descobertas, imprimir alguma marca positiva da minha passagem pela vida deles e delas. Além disso, quando o cansaço não é grande demais, dar aulas é bem divertido, capaz até de alguns momentos serem inclusive tocantes.
ouvir os alunos...
Então, quando os alunos vêm com alguma reclamação, ou demanda, eu ouço. Não tenho paciência para ouvir reclamações de pais ( escuto, mas não ouço) , mas as dos alunos eu ouço. Às vezes são reclamações sem sentido, frutos de malandragem ou uma certa preguiça, fruto de um medo de falhar, de falta de empenho; reclamações pelo mínimo esforço, pedidos de exceções, rever prazos, dar segunda chace, rever a nota, menos lição de casa, a gente sabe e lembra. Essas eu faço o maior esforço para ignorar, vez por outra cedo, mas só tenho a crescer se ceder cada vez menos e me tornar cada vez mais exigente.
Outras vezes os alunos vêm dizer coisas que talvez façam sentido.
Como contei, os alunos da oitava série ( quinze, dezesseis anos) vieram me falar que a literatura que lemos no curso de português é muito deprimente. Que o curso de português é meio deprimente, que é difícil.
Que é muito duro ler um livro triste atrás do outro.
Outros acham simplesmente chato, esse povo que só quer falar de angústia e de como o mundo é ruim.
Um deles falou:
- eu não aguento mais esse negócio de anti-heróis! Por que vc não dá um livro sobre pessoas felizes e bem realizadas e bem resolvidas?
Eu adorei, e na hora respondi:
- Porque pessoas felizes e bem realizadas e em harmonia com o mundo não vão escrever literatura. Para quê? se estão felizes e realizadas e de bem com o mundo?
e falei mais:
- A arte é expressão da vida, gente, do mundo. Vamos combinar que ele não tem sido assim, dos melhores. Os temas da literatura no século XX e mesmo no XIX são mesmo a solidão, a falta de sentido, a crueldade e a violência, o desencontro, a procura do eu, a desigualdade social, as injustiças do mundo, sei lá.
São difíceis os grandes livros solares, iluminados, para cima.
E eu fiquei pensando, pensando, pensando. Fiz enquete com meus amigos e amigas, conversei um monte. Peço a ajuda de vocês. Poucos se lembram de grandes livros alegres.
Continuei pensando.
Talvez coisas que para mim e pros meus amigos faziam sentido na adolescência, um desacordo com o mundo, uma certa procura de si mesmo, uma vontade de superação e mudança, de intensidade, de ir contra a hipocrisia e as injustiças do mundo, de me afundar em crises e tal, talvez não façam mais sentido para essa adolescência.
Talvez não adiante dizer: o mundo é ruim, ninguém ao redor da Macabea prestava mesmo, é assim mesmo. Porque os alunos me perguntam: e daí?
eu sei lá.
Outros falam: eu nem quero saber disso. ué, que diferença vai fazer?
Outros falam: eu não aguento saber disso, é ruim, é uma droga.
Outros, ainda: eu não sei lidar com isso.
Eu, lulu, não sei também.
Leio, me emociono, vou dar aula, escrever, namorar, pensar, escrever, dar mais aulas, viver com ética, me livrar de prisões que me deixam infeliz, escrever, viver com intensidade e verdade.
Minha resposta é essa, a deles não sei qual é.
Não há respostas e isso pode ser uma coisa inclusive bacana dessa geração, não há nenhum caminho pronto, ideológico, político, partidário, o que seja, cada um acaba tendo que achar o seu. E tudo bem, é legal ser feliz, é ótimo, mas é interessante esse negócio de muita negatividade ser meio insurpotável.
E eu fiquei pensando que essa busca da felicidade é bem válida, não é ruim. E que talvez eles sejam a tal geração prozac que não aguenta a dor e tal, mas talvez eles tenham também um pouco de razão.
E fui procurar livros felizes.
Em primeiro lugar uma explicação necessária:
não há uma lista de livros obrigatórios que devem ser dados no fundamental 2 ( ginásio). A gente não sofre nem a pressão do vestibular, então é genial, podemos dar, basicamente, o que quisermos.
A minha opção, construída com total apoio da escola, foi a de oferecer aos alunos uma perspectiva geral dos grandes livros da literatura, para que eles saíssem dali com uma formação cultural e literária sólida, passando por diferentes gêneros, conhecendo autores, percebendo influências, lendo sempre o que há de melhor em cada gênero. Tudo isso está melhor explicado no manifesto pelos direitos dos alunos leitores e não leitores, que escrevi há algum tempo atrás e pode ser lido aqui.
E o curso fica mais ou menos organizado assim:
Na sexta série leio um livro chamado Os amigos ( publicado pela Martins Fontes que aliás talvez seja a editora que tem o melhor acervo nesse sentido, dos chamados livros infanto-juvenis) que trata basicamente de amizade, crescimento, essas coisas. Depois passamos para a fase histórias de detetive, medo, suspense (Agatha Christie, Conan Doyle, Edgar Allan Poe e Maurice Leblanc) . Depois, nesse ano, lerei O fantasma da Canterville, do Oscar Wilde, que parodia histórias de fantasmas.
No final da sexta série eles lêem Capitães da Areia. Aí começamos a discutir a literatura e suas relações com a história e com a sociedade.
Na sétima lemos crônicas, para observar a captura do cotidiano. Depois, lemos o Ítalo Calvino, O Cavaleiro Inexistente ( ou o Visconde partido ao meio) . O Ítalo Calvino é um autor mais solar, uma prosa divertida, que também discute o próprio fazer literário, um livro bacana. Resolvi dar Jane Austen, já na procura por livros de tom mais ameno, mas não sei se vai dar certo, eu adoro, mas os meninos talvez morram de tédio no meio do caminho, não sei - vou contando. E depois eles lêem O Apanhador no Campo de Centeio.
Tenho tido muita vontade de incluir no curso O senhor das moscas, lê-lo com a sexta série, talvez, mas é mais um livro triste e terrível. Lindo de morrer, mas terrível. O médico e o monstro também é bacana, há inúmeros livros bacanas, todos meio soturnos, ou tristes, ou terríveis.
Adoraria trabalhar com ficção científica, mas nunca dá tempo. 1984, ou o Eu robô, do Asimov ou ainda Fahrenheit 451, do Bradbury.
Deveria incluir o gênero teatral no curso, mas não sei lidar direito com a leitura de peças de teatro, me perco um pouco, então fica assim mesmo, sem teatro.
E na oitava série eles lêem poemas ( bastante Fernando Pessoa, e uma passada de olhos cronológica pelos grandes poetas da língua portuguesa) e alguns grandes livros de prosa que eu acho que dá para eles lerem. Olhem uma lista inicial que eu fiz:
Ray Bradbury, Fahrenheit 451.
Graciliano Ramos, Vidas Secas/ São Bernardo.
Luís Fernando Veríssimo, O Jardim do Diabo.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro. Contos.
Clarice Lispector, A hora da estrela.
Melville, Bartleby, o escrivão. (e a edição da Cosac desse livro.... Que tal descosturar um livro em classe, todo mundo junto? )
Gabriel Garcia Marques, Crônica de uma morte anunciada/ Doze contos peregrinos/ Cem anos de solidão....
Kafka, A metamorfose
Hemingway, O velho e o mar.
Hoffman, O homem de areia.
( e atenção, alguns livros não fazem parte da escola, têm que ser descobertos e lidos sozinhos: On the road, do Jack Kerouak, por exemplo, é um deles. Literatura erótica também, é claro! Fundação, do Asimov, também, assim como Harry Potter e a trilogia do senhor dos anéis)
O que mais? sempre aceito sugestões e adoro histórias de leituras na escola e fora dela, podem me contar, é um presente que vocês me dão.
O fato é que, por exemplo, da lista acima, os mais alegrinhos são o Verissimo e o Garcia Marquez, saindo da sexta série, o Italo Calvino também entra nesse rol, e talvez o Oscar Wilde (não o do retrato de Dorian Gray! outro livro super, mas sombrio à beça), e a Jane Austen. Os outros, todos, são tristes, duros, difíceis. Falam de um mundo desencontrado, de personagens partidas, coisas assim.
E outro dia a Vivien, minha querida Vivien, me perguntou sobre os meus livros preferidos. Os meus livros preferidos, os grandes mesmo, que para mim alcançam uma dimensão sublime, cósmica, sei lá, aqueles que eu levaria para uma ilha, não são apaziguadores. Ana karenina, Grande sertão, veredas, A hora da estrela, Crime e castigo. Colocaria Reinações de Narizinho aí também, esse apazigua, é bacana.
Talvez o Walt Whitman, com seu Folha de relvas, uma grande grande obra, também sublime, bastante solar, fora do signo de saturno, vivaz.
Outros? poucos, mesmo.
Não sei se a matéria da grande literatura é sempre negativa.
Nem sei também o que é esse tal desse sinal negativo. O mundo não tá mesmo bem, pelo contrário, viver é difícil e é muito perigoso, como já dizia o outro. A literatura, a grande literatura, talvez tenha mesmo que ir contra o mundo, mostrando seu avesso, permitindo espaços para a expressão das desigualdades, angústias, sofrimentos, ironias, passagem do tempo, morte, prisões, solidão, subversões, perigos, paixões, sei lá. A matéria da arte talvez não seja mesmo solar, não sei. Será?
Sei que agora me fizeram pensar.
Não tenho respostas.
Se você souber de alguma, me diga.
E se você tiver alguma opinião sobre o assunto, me diga também.
afinal, literatura deprime?
( para ler rindo)
beijos a todos,
lu.
em tempo, permitam-me colocar aqui o que a querida Meg, lá do metrô rosa mais lindo dessas bandas, escreveu para mim:
Sobre tudo que envolve leitura e literatura:este post, meg-avilhoso ao extremo da minha querida (sim, eu sei que ela é querida de todos mas eu vi primeiro, certo?) Lulu:
“Legal…mas tem história?” . Aliás, às vezes penso que só deveria existir um blog (perdão, guys) que era o blog do Lulu. Leiam o blog todo, inteirinho. E isto é pura verdade. O blog da Lulu é uma referência sobre vários assuntos na blogosfera. Imbatível!
Obrigada, Meg.
Post relacionado:
da dor e outras dificuldades.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
"professora, queremos livros felizes"
Reclamaram que a gente lê livros tristes demais e que tudo que a gente lê mostra que o mundo é uma merda, que as pessoas são angustiadas, infelizes, tal.
As três últimas leituras foram; O apanhador no campo de centeio, A hora da estrela, e agora, o Memórias do subsolo ( ver post anterior ) . Dostoiévski foi idéia deles, mas é claro que eles esqueceram. Essa classe também leu Kafka, A metamorfose, leu Hamlet. Lemos Fernando Pessoa e poemas em geral, Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes... fiz uma seleção.
Na aula, houve uma espécie de desabafo que foi muito muito interessante:
falaram que os livros que a gente lê em geral dão uma visão muito negativa do mundo e que não apresentam saída. Que falam que o mundo é uma merda e as pessoas imbecis.
Que a gente leu o Apanhador e todo mundo é hipócrita, horrível e o Holden ainda termina num hospital doente.
Que na Hora da estrela, quando a Macabéa tem seu único instante de felicidade na vida, logo depois de consultar a cigana que diz que ela será feliz, ela é atropelada e fica jogada no asfalto, que no livro inteiro ninguém, ninguém presta.
E que é muito difícil ler livros assim.
( uma aluna ficou com lágrimas nos olhos, juro, falou que não há tempo para elaborar, que é um em seguida do outro e que a cada um, ela muda a visão de mundo dela, passa a enxergar as coisas de outro jeito e que tá achando tudo isso uma droga. )
Que o curso de português acaba sendo muito difícil, porque eles escrevem, e lêem, e se expõem e sentem, e é tudo muito triste.
Que eles querem livros alegres.
e felizes.
que não aguentam mais ler livros que dizem que o mundo é ruim e difícil.
(continua... )
domingo, 19 de agosto de 2007
legal, mas... tem história?

E olhem que A hora da estrela é talvez o romance da Clarice que mais tem enredo, mais tem vínculos com o mundo concreto, social, etc. e por isso mesmo é o melhor.
Causou uma espécie de trauma.
Comecei a ler um outro livro com a classe e nas primeiras três linhas um menino levantou a mão:
- Luuu...
- sim?
- esse tem história?
Conversava com um colega sobre isso, um amigo meu que dá aulas para o colegial e estava enfrentando a mesma dificuldade com o Sagarana, de Guimarães Rosa. A hora e a vez de Augusto Matraga tem enredo, tem um super enredo maravilhoso, mas outros contos ali são dificílimos. Esse meu colega e amigo falava que os alunos em parte têm razão, muitas vezes a narrativa perde-se nos meandros e encantamentos da linguagem e acaba perdendo-se mesmo, literalmente.
Alguns livros constróem-se quase que inteiros em cima desse encanto com a língua, ou com o pensamento e emoções de personagens e suas construções. Oferecer um livro assim a um adolescente equivale a, basicamente, dar um tiro na própria cabeça.
Não é só com a criançada que isso ocorre. Quem tem paciência para longas elocubrações sobre o que vai no interior de alguém? Quem aguenta filmes lentos com enredos minimalistas? Ou filmes que se constróem basicamente em cima de falas filosóficas que parecem não chegar a lugar algum e imagens belas mas díspares entre si?
Poucos, muito poucos.
No entanto, no entanto...
"não conta o final!"
se o que importa é o enredo e se o que nos prende a um bom livro ou mesmo um filme é a pura curiosidade de saber o que vai acontecer, porque a gente relê tantas vezes a mesma história? Por que a gente revê mil versões de Hamlet mesmo já sabendo de antemão quem matou o pai dele e que tudo vai terminar mal? Por que uma mesma história, com os mesmos fatos, contada por um bom contador pode ser maravilhosa e, mal contada, fica chatésima?Saber o que vai acontecer de antemão talvez tire o encanto de muitas obras de sucesso que andam por aí, mas definitivamente não tira o encanto das grandes obras. Porque o que há de mais belo, mais original e mais emocionante numa obra de arte não é a história contada, mas como ela foi contada. Por isso um resumo não substitui um livro, por isso sou contra adaptações. Transformar experiências em linguagem é o grande lance e a grande dificuldade, a psicanálise sabe bem disso.
De qualquer maneira, é nesse como que reside a arte, é ali que se separam os grandes dos médios. É isso que tento mostrar aos meus alunos: no campo da arte, a forma não pode ser dissociada do conteúdo, por isso traduções são tão difíceis, quase impossíveis, por isso a maior emoção não está no fato de que o mocinho e a mocinha morrem no final devido a uma série de enganos e incompreensões familiares. A maior emoção é como essa morte, um dia, na Inglaterra, foi narrada. Todos sabem o final, o lindo é a narração desse final.
quantas histórias existem ?
Se formos pensar, todas as histórias do mundo são muito parecidas entre si. Amores e desamores, desejos, sexo, morte, encontros e desencontros. Infinitos são os personagens que as vivem, aquilo que sentem sobre o que vivem, infinitas são as maneiras de contá-las. E a cada nova maneira, faz-se uma nova história.
A marca humana, a marca da criação está na maneira de narrar aquilo que foi vivido, sentido, pensado, imaginado, sonhado.
A busca por fatos, por conteúdos, pelo que vai acontecer então é um pedacinho curtição de uma grande obra, o mais volúvel, que se perde com mais facilidade, basta alguém falador ao lado que já tenha visto o filme e... se o filme, ou o livro for só isso - puro enredo - acabou-se o porquê de lê-lo, de ver o filme.
Coisas que acontecem, e que não acontecem ...
cadê a porra da baleia?
Meu marido ama Moby Dick. Fez parte do nosso encontro minha descoberta de obras que eu não conhecia, ou não sabia apreciar: O senhor dos anéis, Star Wars. Ele diz que me fez virar uma nerd, basicamente. De minha parte... sei lá, ele passou a realmente gostar de sushi. Já havia lido todo o senhor dos anéis e o Hobbit, já parara de confundir Star Wars com Star Treck, já sabia que com a força não se brinca, mas ainda não havia lido Moby Dick. O livro foi e é a grande paixão literária dele. Fui ler.
"Call me Ishmael". Começa bem e tudo. E então vêm os capítulos descritivos. O óleo da baleia, a importância do óleo da baleia, o significado do óleo da baleia, a presença do óleo da baleia em todos os aspectos da vida. O que é uma baleia, quais os tipo de baleia que existem. Como se mara uma baleia. A função de cada um. O branco. Páginas e páginas inteiras sobre o significado da cor branca. E a obsessão do Ahab.
Confesso: tudo o que eu pensava era quando a maldita baleia ia, finalmente, aparecer.
Esposa apaixonada que sou, li o livro até o fim. A tal da Moby Dick aparece só no último capítulo, já aviso logo. Umas oitocentas páginas mais tarde. Quis morrer. Não rolou pra mim, achei tudo aquilo um saco. (depois redescobri o livro, ouvindo, num desses audio books, em inglês, e vi que era inclusive engraçado e tal, mas isso foi bem mais tarde)O problema é que eu fui ao livro atrás da história da caça da baleia, a caça concreta, e esse não é o barato. É um livro sobre uma procura, sobre uma espera, sobre uma busca. A ação, a grande ação, nesse sentido, o encontro em si, é uma pequena parte. É claro que interessa saber se afinal o Ahab encontra ou não, se vence ou não seu monstro branco, mas a procura obsessiva dele é o maior conteúdo do livro, as descrições, as divagações do narrador, a atenção aos detalhes, os grandes personagens ali presos, submetidos à obsessão desse capitão ferido, são a matéria desse romance.
(sobre Moby Dick, fui pesquisar imagens e encontrei isso aqui. vale o desvio)
traiu ou não traiu?
Eu adoro enredo, adoro uma fofoca, tenho fascínio por ações e reações humanas. Ao mesmo tempo, me perco loucamente nos labirintos da minha cabecinha maluca. Meu avô fala que temos macaquinhos no nosso trapézio, aquele ali que fica dentro do cérebro. Os meus fazem a maior bagunça, raramente me deixam em paz - passo um tempão para entender o que é que quero afinal de contas e mesmo assim nunca tenho muita certeza. Fico horas não só divagando sobre o sentido da vida e da existência e do mundo como também sofro com isso. Uma inutilidade completa, e talvez mesmo uma grande perda de tempo. Fico tempos sem ação, vivo e revivo histórias, diálogos, ações, eu não saem da minha cabeça, me perco em mim. E afinal de contas não foi uma idéia fixa que matou o Brás Cubas? Ai de quem culpar na doença. E afinal de contas, já que estamos no Machadão, que importa se a Capitu traiu mesmo ou não o Bentinho? O barato é o que o Bentinho diz sobre isso, e o que ele não diz, dizendo.
se você trabalhasse na lavoura e ficasse bem bem cansada não pirava tanto assim...
Talvez.
Andei melancólica e junto a melancolia vem sempre uma certa paralisia.As ações de fato ajudam e ajudaram. O Lord inclusive deu uma dica bem prática: saia para correr, lulu. Endorfina, ajuda. Corri, fui ao cinema, namorei, vi pessoas, melhorei. Conversei com um grande amigo, daqueles queridos do coração, e ele me falou isso: lulu, vai trabalhar uns dias limpando chão que tudo isso daí passa. Mas a depressão, a tristeza, a melancolia tomam conta também da minha faxineira. Porque as coisas de dentro, que não acontecem a não ser ali bem dentro são tão reais quanto as de fora. E elas acontecem, havendo tempo para se pensar nelas, havendo espaço para senti-las, ou não.
Aqui, meu alter ago de uma mulher trabalhando na lavoura: a estonteante Silvana Mangano, em Arroz Amargo, um belíssimo filme, aliás.Tá, confesso. Para essa mesma oitava série, ali, logo depois da Clarice, resolvi dar Dostoiévski, Memórias do subsolo. Okei. Pirei.
Em minha defesa digo que o pai de alguém havia falado para o filho que esse era o melhor autor do mundo e o moleque pilhou a classe inteira e ano passado todos falaram que queriam ler Crime e Castigo. Pe-di-ram. Que fique bem claro que dou aulas numa escola particular SP onde a maioria dos pais são intelectuais, artistas, profissionais liberais, etc. Por isso que esse tipo de coisa acontece. Enfim Crime e Castigo é enooorme. A orientadora vetou. Ficamos com Memórias do subsolo.
O livro tem duas partes, a primeira é pura angústia do personagem. Na segunda coisas acontecem. Pulamos para a segunda, quem gostar, depois lê a primeira. A angústia permanece. O cara se acha feio, e ainda por cima nem expressão inteligente tem. O cara se acha superior a tudo e a todos, ao mesmo tempo, se acha tão inferior que não olha nos olhos de ninguém. O cara sai à noite às vezes à procura de alguma experiência na vida. vê uma briga numa taverna, um outro é jogado pela janela. O cara fica querendo participar de uma briga, quer ser jogado pela janela.
- puta looser professora!!!
- meu, mata logo esse cara!!!
- ele merecia ser preso e comido na prisão!!!
Continuei lendo. O narrador tenta arrumar uma briga, mas é ignorado, não consegue nem isso. E pira. Fica dois anos pirando, planejando uma vingança sobre o outro que o ignorou e não se dignou nem a brigar com ele. Os alunos não acreditavam. ( sempre nas aulas iniciais sobre qualquer livro, leio o livro em voz alta com a classe, vamos lendo e conversando, é uma boa dica para quem dá aulas)
- meeeeeuuu!!!! por que alguém vai perder tempo escrevendo sobre um cara assim????
Até que uma menina levantou a mão:
-sabe, esse cara é meio pirado mesmo, mas... às vezes, eu piro muito com umas coisas que não têm nada a ver!! eu fico super encanada, pensando hooras.
Sorri um pouco, bem discretamente, estava salva:
- é... ás vezes eu me sinto também sem vontade de falar com ninguém...
- eu, ano passado, encanei com uma coisa que eu fiz e fiquei o ano inteiro encanado com essa coisa...
- eu já saí à noite procurando briga, por nada...
pronto. O livro tá rolando.
( dá para ler um trecho, aqui)
As histórias de dentro, as histórias de fora, e o mundo que se organiza.
Às vezes, essas coisas, as coisas de dentro, são traduzidas por grandes obras, que tratam não só das nossas vidas e ações mas também desses macaquinhos que vivem ali, em nossos trapézios, e às vezes parecem ter vida própria, dão o maior trabalho e não há lavoura que os acalme.
Não precisamos viver nossas vidas como personagens de Dostoiévski, ou como alguém num filme do Wood Allen, mas também não somos sempre o Bruce Willis que não só é duro de matar como também salva o mundo todos os dias. O bacana é, talvez, ter espaço para os dois, e para quantos mais vierem, e agir e curtir também a poesia do como a vida é feita.
Reconstruir a ordem do mundo e também a nossa, a cada vez, a cada novo perigo de destruição e perda de sentido.
Os livros ajudam - com ação ou sem ela.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007
dia de redação 2
Quero contrar da sexta passada, que não só foi dia de redação como também foi o primeiro dia de aula depois das férias, as aulas começaram na quarta feira, então só encontrei os meninos sexta.
Com a quinta série o grande estudo de redação é entender bem como se compõem as histórias, do que são feitas as narrativas e quais as regras da narrativa.
Perceber que toda história tem personagem ( tooodaaa? toda. mesmo se vc fizer as aventuras do ventilador maluco, o ventilador maluco será o seu personagem). Toda história se passa em algum lugar ( toooda?? toda. Um quarto, um país, uma casa, uma escola, um lugar que é o nada, uma encruzilhada, uma cozinha, mil cidades, um avião... ), toda história tem um tempo (uma duração. não existem ações fora do tempo, então toda história dura um tanto. Ela pode durar para sempre, e ter começado a acontecer desde tempos imemoriais, mas a narrativa vai pegar uma fatia de tempo e escolhê-la para narrar. Pode-se narrar um dia, a história pode ter a duração de uma almoço, pode acontecer em três minutos, em décadas e décadas, pode atravessar gerações. Muita coisa pode acontecer, em espaços mínimos e enormes de tempo, cada história tem o seu, mas todas as histórias duram algum tempo, desenvolvem-se no tempo). E o enredo. Como os personagens agem, vivem, pensam nesse espaços/espaços, por uma fatia de tempo determinada. ( toda história tem enredo? sim, mesmo nas que não acontece nada. Ai professora, essas são bem chatas, né?)
Os escritores são como espécies de deuses que, com elementos simples, criam mundos, personagens, determinam durações, e então criam histórias. Há histórias que primam pela excelência dos personagens. Outras, em que o espaço ocupa um papel fundamental ( vamos lá: o que seria de Harry Potter sem Hogwarts? Aquela escola é o máximo!), outras que centram-se na passagem do tempo, outras que centram-se no enredo, na sucessão de ações e acontecimentos. Pode haver histórias quase sem enredo (odiadas com todas as forças pelos adolescentes. Depois a gente fica mais tolerante com histórias quase sem enredo. Engraçado isso, talvez seja porque aprendemos a apreciar a estética literária em si, mais que a historinha, que importa cada vez menos. Afinal, o que dá mesmo a qualidade à obra não é o quê ela conta, mas como ela conta aquilo que conta. ). Há histórias sem marcação de tempo, de espaço, mas os elementos da narrativa são esses.
E aí, quando vamos contar a tal da história, aparece a figura do narrador, e então vem a última escolha que o escritor tem que fazer: escolher seu foco narrativo, como contará a história, com posicionará sua câmera. Toda história contada é contada de alguma perspectiva, não tem jeito.
Pode ser uma narrativa em primeira pessoa, e aí a perspectiva será toda parcial. Essa primeira pessoa pode ser a protagonista ou não da história ( e não há nada mais difícil que construir uma narrativa em primeira pessoa, na quinta série ainda não rola. Começa a poder acontecer lá pela sétima, ou oitava). Pode ser uma narrativa em terceira pessoa, e aí vem o tal do narrador que vai falar sobre o outro. O outro pode ser um outro mesmo, e o narrador pode ser quase transparente, ou seja, imparcial, onisciente, onipresente, etc. ou, o narrador pode ser um personagem da história, sem participar necessariamente dela, pode narrar algo que viu ou ouviu; o narrador pode ser um personagem. De qualquer forma, o narrador já não tem nada a ver com o escritor, e essa é uma lição importante aprendida na quinta série já, e esquecida, esquecida, esquecida. O que se confunde narrador e escritor por aí, não é brincadeira. De qualquer forma, o foco narrativo define tudo o que a história vai mostrar, e o que ela não vai mostrar.
O que a gente faz na quinta série e no curso de redação em geral é uma série de exercícios que trabalham todos esses elementos da composição narrativa. Ninguém precisa sair escritor, mas é bacana poder inventar uma história, escrevê-la com clareza, e ter critérios de discussão e avaliação claros. A qualidade literária das histórias, o como elas são narradas, a escolha das palavras, a criação deimagens poéticas, quase nem ligo para isso, até porque isso acaba criando uma certa presunção, ou mesmo bloqueios. O importante é contar histórias, bem construídas, e compreensíveis. Quem sabe fazer isso, já sabe um monte.
No primeiro dia de aula da quinta série, falei um pouco disso tudo - e é fácil falar disso usando exemplos de narrativas infantis clássicas, onde todos esses elementos aparecem de forma bem evidente, especialmente o espaço: Nárnia, A Terra Média, A Terra do Nunca, A Ilha do tesouro... . Queria trabalhar com eles a noção de verossimilhança, fundamental em qualquer narrativa que se preze.
O povo acha às vezes que ser verossímil significa ser possível, dentro do nosso mundo. Então sai do filme de dinossauros falando assim: isso não é verossímil, que filme ruim.
Nadica disso.
( agora, permitam-me uma digressão)
Dentro desse mundo da ficção, o compromisso é muito mais com a verossimilhança do que com a mimese, a mimese acontece, mas é a verossimilhança o ponto principal. Explico-me:
a criação literária não precisa ser uma imitação do mundo tal como ele é. O critério de sentido de uma obra, de convencimento, não está no quão semelhante ao nosso mundo ela é. O que nos faz crer numa obra literária, ou num filme, é a tal da verossimilhança, no sentido interno, da coerência interna que tal obra deve ter. A obra deve ser semelhante a si mesma, fiel aos seus princípios internos de construção.
Por exemplo: eu posso inventar um mundo onde há dinossauros, e eu quero no entanto que esse seja o mundo contemporâneo, de hoje em dia, tal como ele é. Eu preciso , então, dentro das regras do mundo de hoje em dia tal como ele é, elaborar estratégias que convençam o espectador da possibilidade de existência de dinossauros andando vivos por aí. Então eu tenho que inventar alguma história que sustente a possibilidade de em uma ilha secreta haver um jardim zoológico pré histórico. Coloco cientistas vestidos de jaleco ali, incremento o lance com pitadas de teorias científicas da moda, teoria do caos, por exemplo, crio reuniões governamentais onde tudo isso é discutido, invento um milionário bem louco que financiou tudo aquilo, mostro experimentos genéticos, coloco logo no início do filme alguém dando uma aula sobre tudo isso ( geralmente para um ouvinte cético) e voilá! a ficção está montada, e a gente assiste e pode acreditar no que está vendo. Me entendam: essa crença não precisa ser uma crença ingênua, onde a gente sai do cinema e pensa: puxa, onde eu vou encontrar o próximo dinossauro? Mas tem que ter um nível de crença suficiente para a gente ligar prá se o menininho vai ou não escapar daquela ilha vivo. A apreciação da arte requer algum tipo de entrega, deve-se entrar no faz de conta, e quando a gente entra, e chora, torce, vibra, se emociona, passa nervoso, cria afeto pelos personagens, já é bem legal. Num nível mais sofisticado, é possível também apreciar as obras como quem ouve uma música erudita, reparando na composição, nas palavras, no ritmo, nas cores, na descrição, na arte mesma da forma da obra.
Se a obra não é verossímil, se ela não te convence, se é mal composta, a gente fica pensando assim: puxa, esse roteiro tem furo; puxa, esse ator até que tá bem; puxa, esse cenário tá bem feito...; puxa, onde será que a gente vai jantar depois? ...
nesses casos a gente não só lembra do faz de conta ( e Brecht que me perdoe, mas eu acho isso um saco) como também se distancia, não é levado, não comunga mais com a obra, e não há encanto de composição. A verossilhança, repito, é interna, e é fundamental dentro da obra de arte. A arte pode representar o impossível, e esse se torna ou não verossímil graças à técnica e arte do artista criador.
( fim da digressão)
Então os primeiros exercícios da quinta série do segundo semestre de aula foram dois:
1) imagine um lugar frio, muito frio, gelado mesmo. Uma temperatura média de menos dez graus. Um lugar onde o sol quase nunca aparece e quando vem é pálido e fraco, e dura somente algumas horas. Um lugar onde sempre é de noite, onde neva, e venta. Imagine as cores desse lugar, a sensação de estar nesse lugar. O quê se come num lugar como esse? Como as pessoas vivem?
Agora, crie dois personagens que vivem nesse lugar.
- Pode ser um ser? Tipo um monstro da neve?
- Pode. A única coisa é que a criação tem que ser bem completa, como é esse personagem que vc criou, do que ele vive, como ele vive, onde mora, o que come, tudo, tudo , tudo.
- Pode desenhar?
- Depois que vc tiver escrito, pode.
( quanto mais tempo durar a descrição inicial e alguma discussão, mais fácil fica o exercício, porque todo mundo fica imaginando mesmo, e aí é baba)
2)Imagine um lugar muito quente e sem praia. Um deserto, onde a média de temperatura durante o dia chega a ser 40 graus. Ali tudo é muito quente, à noite esfria, mas durante o dia é quente mesmo. O sol nunca dá uma trégua, e chove de vez em nunca. Há pouca água. Quais são as cores desse lugar? Como seriam as casas desse lugar? Qual a paisagem?
Agora, crie dois personagens, ou seres, ou bichos, que vivam nesse lugar. A descrição tem que ser bem completa, muito completa, o melhor que vc conseguir, quanto mais detalhe, mais eu vou me convencer de que esse bicho, ou homem, ou ser, existe mesmo. Só pode desenhar quando tiver acabado de escrever ( sim, tem que repetir todas as instruções novamente, umas dez vezes, pelo menos) .
Essa foi a aula de redação da quinta. Me empolguei tanto que quase não sobrou espaço para falar das outras séries. Mas a escrita é assim mesmo também, toma caminhos apesar da gente, toda essa construção teórica na verdade serve de pouco quando estamos escrevendo, as palavras é que mandam. Mas vamos lá:
Na sexta, eles estão revisando um livro de histórias de detetive que fizeram.
Na sétima, eles estão lendo e escrevendo histórias de realismo fantástico, ou mágico. O tema de redação foi:
Esfeluntes.
- Como assim?
- Esfeluntes, oras bolas.
- O que é esfeluntes?
- Não sei.
- E aí?
- e aí sei lá, ué. tem que aparecer esfeluntes na história.
- em qualquer lugar? de qualquer jeito? pode ser o que eu quiser?
- sim.
- Pode ser uma doença? um sentimento? um ser? uma coisa? um nome?
- sim.
- eu posso escrever qualquer coisa e botar esfeluntes no meio?
- sim.
- tá.
Juro, eles fazem. Primeiro, porque é divertido, ou pode ser divertido. Depois, porque essas são as regras do dia de redação: tem que produzir pelo menos vinte linhas. Não tem conversa. Depois pode levar para casa, melhorar, começar até de novo, mas quem não escrever vinte linhas na aula fica com zero. Sério. Sem frescura de inspiração, vai escrevendo, deixa que a sua mão lhe leve.
Sabem quantos zeros eu dei até hoje? nenhum. é gostoso escrever, a aula de redação acaba servindo como uma pausinha no tempo, cada um na sua, inventando os seus negócios. às vezes fica bom, às vezes fica ruim, mas não importa, esse exercício de fluidez de escrita é bem importante, escrever no ritmo do pensamento é algo que se adquire com o treino, com a escrita, e escrever se aprende escrevendo, então vamos lá. Esfeluntes.
E na oitava, mesmo esquema.
Oi e tal. Nada de perguntar das férias, nadica disso. Vamos ao ponto, uma redação, para hoje pelo menos vinte linhas. Se você resolver a história em menos linhas, ok ( na oitave eles já começam a ficar mais espertos). Tá, não tem tamanho mínimo nem máximo. Tem qualidade e honestidade.
Tema:
- a ponte.
- que pooonte?
- qualquer uma.
- mas como assim?
- "a ponte", gente. Comecem a pensar. Tem algo embaixo dessa ponte? de um lado e de outro? é esse o tema, a ponte. e nãos e esqueçam: tema não é título.
- pode ser uma ponte metafórica ou precisa ser uma ponte mesmo?
- pode ser a ponte que vc quiser. Vamos lá.
e assim passa o dia de redação. Sim, é o dia mais legal da semana.
Leia também: dia de redação.
LIVROS PRA CIMA
(bem, se não forem exatamente pra cima, são, pelo menos, engraçados ou saem um pouco da mesmice)
Ensina-me a viver - Colin Higging
(Record)
Contos de Eva Luna - Isabel Allende
(Betrand-Brasil)
A louca da casa - Rosa Montero
(Ediouro)
Pulp - Charles Bukowski (LPM)
Fup - Jim Dodge (José Olímpio)
Complexo de Portnoy - Phillip Roth
(Cia. da Letras)
A lua e as fogueiras - Cesare Pavese (?)
Ainda existem aveleiras - Georges Simenon (Nova Fronteira)
As pelejas de Ojuara - Nei Leandro de Castro (Nova Fronteira, mas tem uma edição mais recente de outra editora que não me lembro)
O dia do coringa - Josteen Gaarner
(Cia. das Letras)
Grego procura grega - Friedrich Dürrenmatt (?)
Um milhão de dólares e A vida alucinada de Balso Snell (Brasiliense)
Ópera de sabão - Marcos Rey (Cia. das Letras)
Galvez, o imperador do Acre - Márcio Souza (?)
Conversas na Sicília - Elio Vittorini (Cosac)
boa sorte
grande beijo
furio
28 de Agosto de 2007 19:10