quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Filmes com criança: a culpa é dos adultos, esses adultos....




Filmes com criança são fofos.
Eu sei, você sabe, todos nós sabemos.
Não precisa muito:
Um sorrisinho, uma brincadeirinha, um comentário puro e inocente, o câmera fechada naqueles olhos infantis e lá estamos nós, sorrindo feito bobos ou nos debulhando em lágrimas, pensando assim: que fofo!

Acho que o primeiro que inaugurou essa leva foi o Cinema Paradiso. O maravilhamento do cinema sob o olhar do menino, e como são expressivos os olhos das crianças!
E então veio a farra: o holocausto sob o olhar da criança, a guerra sob o olhar da criança, a ditadura brasileira sob o olhar da criança, a ditadura argentina sob o olhar da criança, a política sob olhar da criança... façam suas listas.

Outro dia, vendo a lista dos filmes mais badalados, quase caí para trás: ou eram filmes para crianças ( maravilhosos: desde o surpreendente transformers até o maravilhoso ratatuille) ou eram filmes com crianças como protagonistas. Essa coisa fofa e linda que é mostrar o mundo através do olhar infantil.

Ok, alguns são terríveis, aterrorizadores mesmo. O Labirinto do fauno talvez seja o exemplo mais acabado disso: mesmo o mundo encantado da criança é um mundo de sombras, onde o bem e o mal não são facilmente distinguíveis, onde são pedidas provas cruéis, pessoas morrem e tudo o mais.

Crianças sofrem muito, e não são santas nem boas. Os bons filmes, e as boas narrativas com crianças, não se esquecem disso.
Mas...

Outro dia comprei o cedê do pato fu: daqui pro infinito. Um cedê pop gostoso, bom de ouvir no carro. E lembrei do Arnaldo Antunes, e lembrei da Adriana Calcanhoto e fiquei pensando: eles fazem música para criança ou para adulto?

Eu adoro música de criança, me acabo cantando Os Saltimbancos, mas... na minha época, música de criança era vendida como música de criança. Me assusta um pouco, adultos ouvindo músicas de criança.

E a maioria dos leitores de Harry Potter também é adulta, assim como os espectadores dos filmes da Disney e Pixxar, assim como os espectadores do Senhor dos Anéis e assim como assim por diante.

Ok, talvez as produções voltadas para o público infantil e adolescente sejam mesmo melhores que aquelas voltadas para o público dito adulto, mas eu fico achando, fico achando mesmo, que há algo de... senão podre, muito estranho no Reino da Dinamarca.

Tudo isso porque fui ver o filme A culpa é do Fidel.
O trailer é sensacional ( ok... eu continuo acreditando em trailers...) e a idéia, ótima:

Uma garotinha francesa, feliz e burguesa, vê sua vida progressivamente ser arruinada à medida que os pais se politizam, viram comunistas e envolvem-se com as políticas da década de sesseta, setenta. Logo ela passa a ganhar de presente roupas estranhas e coloridas, bordados de flores, gorros peruanos. Logo ela perde sua babá querida, exilada cubana, e passa a ser cuidada por babás esquisitas, exiladas de países como o Vietnam, China ou Grécia, que lhe servem comidas estranhas com ingredientes exóticos e ignoram o bom e velho pain au chocolat. Pior: ela muda-se para uma casa menor que logo é invadida por homens barbudos que não param de fumar cigarros esquisitos, é tirada da aula de catecismo, e logo passa a ter vergonha de levar suas amiguinhas para dormir em casa.

Fui ver, porque afinal tem a ver também com a história da minha vida. Estudei numa escola alternativa onde as meninas chamavam-se Inaê, Erecê, Ialê... ( sempre confundia as três) , e os meninos: Caê, Cauã, Tom e Gil. Havia até uma Luz Morena. Juro. Chamar Luana era tipo normal.

Fui a comícios quando pequena, fiz muita boca de urna quando criancinha, lembro com emoção do povo reunido na minha casa, se preparando para ir ao comício das diretas já, tinha - e tenho - medo de polícia. Lembro, também com emoção, quando minha mãe foi votar pela primeira vez e me levou junto, e me mostrou o que era o voto e a democracia. Meus pais tinham amigos torturados, exilados, desaparecidos. Tenho um primo querido que nasceu no Chile e cresceu no exílio, um tio que foi procurado vivo ou morto. Meu avô, que ensinava russo na Universidade, foi preso várias vezes. Cresci em meio a discussões políticas, cantei muita música revolucinária, aprendia lições de marxismo e socialismo, noções de igualdade e luta, usava sainhas indianas desde pequena, e burguês para mim era uma espécie de xingamento bem sujo. Todos, a minha volta, eram barbudos, e minha mãe usava umas jóias de prata africanas que acho lindas até hoje.
Enquanto meus amiguinhos iam para a Disney, passava as férias no Peru, na Bolívia, na praia de pescadores de não sei aonde, nos confins do Piauí.

Ganhei e usava gorros peruanos e sainhas indianas desde criança, tinha amigos que levavam tofu e bardana de lanche para a escola e morria de vergonha de ver minha mãe dançando Gal, descalça na sala, como se não houvesse amanhã. Minhas músicas de infãncia são Tom Zé, Caetano, Novos Baianos, Gil e assim por diante. Só ouvi falar de deus pelas empregadas, bastante preocupadas com meu destino pós mortem.

Aprendi desde pequena a valorizar a política, a liberdade, o pensamento, a luta por um mundo justo, as artes, as vanguardas artísticas, o amor, a paz, essas coisas.

Fui conhecer meu primeiro malufista só aos quinze anos de idade.

Juro.

Quando criança, brincava de fazer greve. Uma vez fiz até uma passeata com uma amiguinha: "edo, edo , edo, não queremos dormir cedo!"

Tinha que ver aquele filme.

Fui.

Há cenas boas, identifiquei-me com várias situações, ri um pouco e tal. Mas...

Alguma coisa me incomodava, e conversando com a Ana Paula, uma das amigas brilhantes que tenho, percebi o que era:
esses filmes com crianças acabam, ao final, se eximindo da crítica, e mesmo da política.

Vejamos, por exemplo, O Labirinto do Fauno, o melhor filme dentro desse gênero, dentro dessa última leva:

há duas histórias paralelas que correm no filme:
a história dos adultos, sob o fascismo e a brutalidade franquistas, representada pelo espaço da casa e pela figura do Capitão, atento ao seu relógio quebrado, às regras, à procriação, à manutençao do regime. Dentro desse espaço, há aqueles que buscam caminhos de luta dentro da própria casa (o caso de Mercedes, a governanta, dona das chaves da despensa, que quer cantar uma cantiga de ninar para a menina mas esqueceu-se da letra; ou do médico, que envolve-se mesmo que tardiamente, pois não há neutralidade possível dentro de um regime de exceção) e há aqueles que lutam na floresta, organizados em grupos políticos subversivos. Esse é o plano da História, aquela política e social, feita pelos homens e mulheres.
Há, também, a história da criança. A menina desde o início carrega consigo um livro de contos de fadas e logo na primeira cena vê, na floresta, indícios de um mundo mágico e encantado. O plano da história, sob olhar da criança, mescla-se com o plano da fantasia, do mito, da narrativa mágica.

Logo aparece a figura do fauno, e à narrativa histórica, que ocorre no plano da casa e se estabelece sob o conflito do filho do Capitão que está para nascer e a busca pelos subversivos escondidos na floresta, mescla-se a narrativa mágica, que se estabelece sob as tarefas que a menina princesa deve cumprir para restituir seu lugar de princesa e reestabelecer a ordem a e harmonia no plano mágico. São duas espécies de luta que correm em paralelo. Em jogo: a liberdade e a vida.

O labirinto do fauno é o labirinto da história, e nele se enlaçam os fios da narrativa dos homens e mulheres e os fios da narrativa mágica.

Não interessa, é claro, se o plano mágico é somente fruto do delírio da menina imaginativa ou se acontece "de verdade". No cinema é tudo "representação", mesmo os filmes baseados em fatos reais são de mentirinha, e isso - a suposta veracidade do mundo narrado - não é critério para analisar obra de arte alguma.

Ao final, a luta política é massacrada, morre o Capitão e morrem também os Revolucinários. Esses são os nossos tempos, a gente fica se perguntando se a luta política morreu, e eu fico achando isso perigoso, muito perigoso. A saída que o filme apresenta, e o filme apresenta uma saída, é no plano mágico, onde a menina ainda vive, restitui seu lugar de princesa e tudo. No plano da história o bebê é o único sobrevivente e será criado por Mercedes, que não lhe contará sua verdadeira história e poderá criar outra, quiçá mais feliz. O filme não abdica da complexidade e aí está um dos seus gandes méritos. Mas o final da história está no plano mágico, da criança, único lugar possível de harmonia, onde cada personagem pode ter seu lugar na História. Do labirinto da história, aquela real, não há saídas, apenas massacre e violência. Um bom filme, que faz pensar e não abdica da complexidade. Um filme também desencantado com os rumos da história e da política, como tantos filmes nossos contemporâneos, um pouco como nós.

Parece que as atuações políticas possíveis e que fazem sentido no mundo de hoje estão no campo da ecologia, da ação individual, da formação de pequenos grupos que vão lutar por seus direitos específicos. É claro que ficamos descrentes na política, nos políticos, nos partidos, nas revoluções e etc. Isso pode ser um sinal de crescimento, mas parece-me um pouco perigoso. Triste, e perigoso, pois as grandes estruturas que oprimem sim e transformam todos os aspectos da vida e a própria vida em mercadoria, objeto vendável, permanecem as mesmas, não importa quão ecológicos ou politicamente corretos sejamos. Sim, meus amigos: a lulu acha que o velho Marx estava certo . Não nos prognósticos, mas no diagnótico o cara acertou bem. Além de lutar pelo nosso jardim, nossa liberdade de amar e ser e nossas galinhas felizes, há que se manter em vista as grandes estruturas. Elas não são naturais, são opressoras e podem, talvez, ser mudadas.


Isso porque o que me incomodou no filme A culpa é do fidel é justamente uma espécie de descompromentimento com a política e o mundo dos adultos que esses filmes atuais narrados sob a perspectiva de olhos infantis acabam por criar.


A criança não pode fazer nada para mudar o mundo. à criança são dadas explicações simplistas, a criança não tem escolha, não vota porque simplesmente ainda não tem condições de decidir-se por determinadas políticas ou candidatos. A criança percebe um monte de coisas legais sobre o mundo e o ilumina mas é criança, não pode se comprometer nem fazer escolhas.

Quando eu brincava de polícia e ladrão, sempre brigava com meus amiguinhos e amiguinhas sobre quem seria o ladrão. Ninguém queria ser polícia.

Ok,
é uma cena fofa.

Vamos combinar: nada complexa.

Agora, com o tropa de elite, meus alunos brincam de ser polícia. Normal, crianças. E os adultos?
Com o tropa de elite, brincam de ser polícia também. Cansei já de ver professor imitando o Capitão Nascimento.


O bom da Mafalda, uma grande personagem infantil, é que ela sempre colocava os adultos em situações de constrangimento. Alienada era a Suzanita, cujo projeto era ser mãe e ter muitos filhos. Mas mesmo a Suzanita ocupa um papel importante, importantíssimo, no mundo da Mafalda, pois se somos muito Mafaldas, vamos confessar baixinho que também temos um lado Suzanita. Ou não. Ou lutamos contra esse lado. Mas o mundo é complexo.

O problema de filmes de crianças é quando eles abdicam da complexidade e da crítica. Quando tudo torna-se uma melodia pop e fácil, boa para se ouvir no carro em meio ao trânsito. Quando as questões de adulto parecem que podem ser resumidas nas respostas das crianças. Quando a estrutura do mundo, por um ato de vontade, parece que pode ser reduzida à perspectiva do olhar infantil.

é fofo.

mas não é assim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

primeiros dias

Então a casa está, finalmente, arrumada. Preciso de um novo colchão, mas dá-se um jeito. Ainda não sei cozinhar só para mim. Ainda gasto mais do que ganho.
Levanto e ouço música. Leio.
Minha fase Henry Miller passou, li tudo dele que me caiu nas mãos. Comecei aler Pais e Filhos, do Turguêniev.
A casa anda sempre cheia, acho que os vizinhos vão reclamar.
As aulas recomeçaram e tem duas coisas lindas no primeiro dia de aula:

1) As crianças pequenas chorando de saudades de casa, de saudades da mãe, de susto com o mundo novo.
A professora pega a criança no colo, leva para a classe e fala assim:

- Olha quanta coisa legal a gente vai fazer !
O menino, chorando e fungando, responde assim:
- Eu sei... mas é que eu estou com muita saudade da minha casa.
A mãe fica num canto, meio escondida, olhando seu pequeno, esperando para ver se ele aguenta passar o dia fora, sozinho na escola nova pela primeira vez.
As mães e os pais de crianças pequenas, que vão deixar os filhos pela primeira vez na escola às vezes não aguentam e choram um pouco também e se escondem, para que os filhos não vejam as suas lágrimas e fiquem em paz em seus novos lugares.

2) A ansiedade e confusão dos meninos do sexto ano ( ex quinta série). Eles vêm com suas mochilas, seus cadernos novos, e sempre, sempre vêm com TODOS os livros pedidos, de todos os dias da semana, um peso enorme. A gente chega na classe e nunca viu uma classe tão quieta. Pede uma redação e nunca viu tantos meninos tão empenhados em escrever. A confusão é enorme: muitos professores, matérias novas, cadernos novos. Um menino perguntou:
- Eu não estou entendendo... Quantos cadernos é para eu colocar em cima da carteira?
- Que matéria você tem agora?
- Ciências.
- Então agora você coloca só o de ciências.
- Tá bom.
E então ele vai lá, coloca o caderno de ciências em cima da mesa, arruma o estojo com milhares de lápis, canetas, canetinhas, borrachas, e espera a aula e a nova vida começarem.

Eu lembro do meu primeiro dia na quinta série. É um novo mundo e é muito legal. Crescer é muito legal também.

Eu, no meu novo mundo, estou toda pronta. E vivo. E cresço.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

carnaval em S.P.

o bom de passar carnaval em São Paulo, sem tevê, é que a gente nem percebe que é carnaval.

cidade vazia. adoro.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A história dos meus livros, parte 1



Ali, meus livros da infância, que li e continuo lendo, seja por razões de ofício, seja por prazer mesmo.

O Monteiro Lobato inteiro, usado, mil vezes lido, viajado, levado comigo para todas as casas onde morei. Histórias do mundo inteiro, Harry Potter, os novos livros de criança.

Eu lia Reinações de Narizinho num sítio que meu pai tinha em Campinas. E ali, eu pude fazer uma das coisas mais legais do mundo de se fazer quando se lê literatura:
no sítio do meu pai tinha uma jabuticabeira. Eu, menina, me empoleirava na jabuticabeira, levando coigo meu livro. Abria as páginas bem confortável, e comia jabuticabas, enquanto lia que Narizinho "não fazia outra coisa senão chupar jabuticabas. Volta e meia trepava à árvore, que nem uma macaquinha. Escolhia as mais bonitas, punha-as entre os dentes e tloc! E depois do tloc, uma engolidinha de caldo e pluf! - caroço fora. E tloc, pluf, - tloc, pluf, lá passava o dia inteiro na árvore. " E havia o Rabicó, um leitão muito guloso, que vinha postar-se embaixo da árovre, à espera dos caroços. " Cada vez que soava lá em cima um tloc! seguido de um pluf! ouvia-se cá embaixo um nhoc! do leitão abocanhando qualquer coisa. E a música da jabuticabeira era assim: tloc! pluf! nhoc! - tloc! pluf! nhoc!"

Eu aprendi a comer jabuticabas junto com a Narizinho. Até hoje ouço essa música, mas fico na minha, ouvindo bem baixinho, sem contar par aninguém, lembrando dessa parte feliz da minha infância, quando vvia aquilo que lia nos livros, e ficava torcendo para adormecer ao lado de um riacho e aparecer um prícipe escamado, que cutucasse meu nariz achando muito estranha aquela caverna peluda. E o prícipe escamado me levaria para o Reino das Águas Claras, onde as fadas me fariam o vestido mais lindo e o Dr Caramujo daria uma pílula que faria minha boneca falar sem parar. Fui ali que aprendi a viver aquilo que leio, e que aprendi que as fronteiras entre literatura e vida são bem bem tênues. Ok, podem dizer que sofro de Bovarismo desde então. Aceito o diagnóstico.

Ontem estava lendo o conto O Gato Preto, do Edgar Allan Poe para o sétimo ano ( ex sexta série, depois explico isso ) . Eles têm doze anos, mais ou menos. É um conto muito assustador, narrado em primeira pessoa. O narrador vai contando como a raiva e a maldade vão se apoderando dele de maneira tal que ele, que outrora amava os animais, passa a maltratá-los e espancá-los. A certa altura ele conta como, embriagado, retira um canivete do boso e arranca o olho de seu gato. Nesse momento, um menino, aluno novo, todo pequenininho e assustado, levanta a mão e pergunta:

- É de verdade isso?

Eu respondi:

- Não. É de mentira.

Menti. Há poucas coisas tão verdadeiras no mundo como a boa literatura, a boa ficção.
As crianças sabem disso. Os adultos que são bons leitores sabem disso também.

as fotos... para os curiosos, clicando em cima, elas ampliam e dá para ver meus livros de criança. A segunda está fora de foco, eu sei... mais tarde troco por uma de melhor resolução.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

começam as aulas

Amanhã começam as aulas.
Uma semana antes do carnaval. Coisas do calendário escolar...

Tenho saudades dos meus alunos, e ao mesmo tempo, tenho um pouco de medo. Minha vida mudou tanto nessas férias, eu mudei tanto, que nem sei. Vou ver como estou ali também. Poruqe a lulu que terminou o ano é diferente da lulu que começa o ano. Mesmo. As mudanças internas foram mais longas, é claro, mas estou diferente, minha vida está diferente. Será que estarei diferente na sala de aula?

De qualquer maneira, a cada ano entro na sala de aula, para o primeiro dia de aula, como se fosse a primeira vez.
Todo ano, fico nervosa e ansiosa.
Todo ano, há dez anos, a primeira pisada na classe parece ser definitiva. Tento ser muito muito brava e assustar muito todo mundo. Raramente consigo.

Neste ano, durante as férias, nem pensei na escola. Me constituí e reconstituí de jeitos que não incluíram o estar na sala de aula, escrevi muito, arrumei minha casa, fiz milhões de aulas de dança, conheci pessoas, comecei a morar sozinha. Tudo mudou, mas meu trabalho cntinua exatamente o mesmo, e isso também me dá uma certa estranheza.
A sala de aula é o meu lugar.
Um dos meus lugares.
Um lugar que talvez também tenha que ser reinventado.
Ou não. Não sei ainda.

Para ser uma boa professora é necessário um grande nível de doação. O bom professor, na sala de aula, não olha para si mesmo e sim para os alunos, e abre, com generosidade, caminhos para que eles possam crescer e aprender. Se a gente tá muito auto centrado, muito inseguro ou muito envaidecido, muito preocupado com algo ou muito distraído, é difícil as ulas saírem boas. Pelo menos comigo é assim. A hora de entrar na sala de aula é a hora de esquecer meus problemas pessoais e me focar e concentrar naquele momento. E aquele momento é dos alunos.

Eu levo minha profissão muito à sério, me sinto muito responsável por coisas importantes na vida de muita gente. Para o bem ou para o mal.

Quanto mais novo o aluno, mais importância os professores têm. Por uma série de razões. É claro que aquele super professor na faculdade pode transformar nossa maneira de ver o mundo, apresentar novos universos e tal, mas aí, de certa maneira, já estamos formados.

Quem cuida do seu filho de cinco anos de idade é alguém muito, muito importante na vida dele.

Há uma inversão cruel de status e salário na carreira de um professor que faz com que os professores que lidam com crianças menores sejam os que ganham pior, e o salário aumenta na medida em que aumenta a idade, e o nível dos alunos. E a pessoa se forma mesmo quando criança. Professores do fundamental 1 são muito mais determinantes para a formação de alguém do que qualquer professor do endino médio. Muitos pais entram também nessa lógica e investem tubos de dinheiro para colocar o filho no ensino médio mais caro da cidade, enquanto o filho mais novo vai ser alfabetizado na escolinha perto de casa, tá bom... ele é criança ainda. As crianças bem formadas desde pequenas são geralmente os melhores alunos em qualquer nível que venha depois. Até a faculdade. É claro que estou sendo bastante fatalista aqui, e há mil histórias de virada, intelectual e moral, ao longo da vida de cada um. O que eu queria dizer é que um professor de quinta série, sexta, sétima, oitava é alguém que pode marcar muito a vida de alguém. E em português isso fica muito evidenciado e forte. Porque trabalha-se com escrita e leitura, com a fala e os vários tipos de comunicação, com a relação da pessoa com o mundo e consigo mesma, com as possibilidades de expressão e construção dessa relação. Isso não é pouco.


Quando faço meu planejamento anual penso nessas coisas. Porque não quero, nem posso, me eximir dessa responsabilidade. Na escola em que leciono sou responsável pelo curso de português inteiro do fundamental 2. Dou aulas da quinta à oitava série, de redação, gramática e literatura. O moleque vai me ver quase diariamente por quatro anos da vida dele. Eu tenho que fazer o meu melhor. Dar um curso que forme os alunos, como leitores, escritores e donos da sua linguagem.

E todo começo de ano me dá uma tremedeira. Uma insônia na véspera da primeira aula. Um medo de que nada vai dar certo.

Uma vontade de que amanhã já chegasse logo, e uma saudade de ouvir o sinal, pegar minha caixinha de giz, e voltar logo para a sala de aula.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

listas

Coisas que eu acho chatas:

- fazer faxina.
- cozinhar para mim mesma.
- quando eu vou dormir e tem uma torneira pingando ou algum som estranho e intermitente pela casa, especialmente quando tá frio.
- quando eu chego em casa e há vários recados na secretária eletrônica, três de trabalho e um da ex faxineira.
- quando não ligam de volta nem para dizer então tchau.
- chuvinha.
- insônia.
- cuidar do carro.
- fazer supermercado, mesmo de madrugada.

Coisas que eu acho legais:

- me vestir e me arrumar e saber que estou bem.
- receber elogios.
- amigos e amigas que depois da balada acabam dormindo em casa, pois não têm como voltar.
- amigos e amigas que aparecem de repente.
- chegar em casa, colocar uma música, beber um copo de vinho e escrever.
- olhar a minha casa.
- dançar.
- acordar e cedo e estar animada para o dia.
- tomar café da manhã e ler jornal de papel.
- ligar e fofocar e contar da vida e dos causos para pessoas queridas.
- encontrar pessoas queridas.
- ler.
- frio.
- rir.
- me sentir bem.
- ser muito verdadeira, o mais que der.

Coisas que eu acho estranhas:

- uma sensação de constante novidade.
- contar para as pessoas que não vejo há tempos, que me separei.
- esse negócio de flerte e sedução e encontros e desencontros.
Na verdade é legal, mas eu ainda não me acostumei.
- dormir sozinha.
- o fato de que o mundo continua o mesmo, e tão diferente.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

lulu chiquérrima

Pois fiquem sabendo que o bloguinho da lulu está ali no super site de culinária: Panelinha, da Rita Lobo, indicado como um blog bacana, especialmente a parte lulu na cozinha. A descrição de mim ficou engraçada, reproduzo aqui:

"Lulu é uma garota esperta. Ela é moderna e meio doidinha. Escreve de um jeito bacana, dá dicas de cinema, livros e viagens. Mas o melhor de tudo é Lulu na cozinha!"

Vejam aqui.

Em homenagem a esse evento, resolvi completar e republicar um posto sobre o ovo frito perfeito, que não teve muita atenção mas que acho bem legal, porque fala de alguns princípios da cozinha da lulu. ( uia! como estou metida... )

E além disso...

Ganhei esse selo do blog A Balestra,
do Roberto Balestra.





Adorei!!
Repasso o selo para alguns blogs que mandam bem em literatura, cometendo a injustiça de deixar muitos outros de fora.
Ninguém precisa repassar nada por sua vez, nem mencionar o selo em seus blogs.
Fica como um carinho e agradecimento pelos bons textos sobre literatura que esses blogs têm :

Odisséia 2005, do Leandro Oliveira. Um blog crítico, fundamental.
Biajoni. O blog do Bia. Precisa mais?
O biscoito fino e a massa. Uma referência intelectual, política e de amor às letras e ao pensamento autônomo e crítico na rede.
Liberal, libertário, libertino. O cara fica publicando no blog os trabalhos que faz para a pós graduação. Uma cara de pau sem fim.
Polzonoff
. Um leitor turrão, meio deprimido, talvez meio de direita, meio casmurro. Sobretudo, um leitor sensível e inteligente, e um bom escritor. Um grande blog sobre leituras.
Subrosa. O blog da meg. Um blog apaixonado.

Por causa do site Panelinha, resolvi republicar um dos posts da lulu na cozinha, está logo ali embaixo.
Sobre a arrumação da biblioteca... gente! que trabalho! Ainda não acabou. Juro.