quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

os papos lá em casa:

- Qual o limite do seu cartão de crédito, Lulu?
- Não sei....
- Não acredito lu, como não sabe?
- Não sei... eu quase não uso, porque me atrapalho, cê sabe...
como as pessoas sabem os limites dos seus cartões de crédito?
- Hm... talvez porque venha na fatura? Cê tem alguma aí?
- Hm... acho que eu guardo em algum lugar...
-Ai, ai... você tá com o homem errado. Você devia ter casado com um contador, daqueles bem importantes, de uma empresa bem rica, que cuidasse de todas as suas contas.
- Ah... seria mesmo uma boa!

Alguns instantes depois, volto de meus pensamentos:

- Mas... precisa ser contador? Não pode ser, assim, alguém com uma profissão mais interessante? sei lá... executivo....?

e ele, consigo mesmo:
- ai, ai... o pior é que ela levou a sério e tá mesmo pensando no assunto....

cinema às três da tarde e supermercado às três da manhã.

Por mim só iria ao cinema no meio da semana, três da tarde, eu e as velhinhas, já disse. E só faria supermercado às três da manhã, eu e os baladeiros, eles comprando vodka, eu ali, escolhendo alfaces.

Por mim, também não abriria nunca mais na vida nenhuma correspondência de banco, sairia gastando e o dinheiro viria, normal, conforme as necessidades e precisões e nem precisava ficar sabendo de quantias.

Para que a vida não entrasse numa rotina absoluta cheia de tédio, os sábados volta e meia raptariam algum dia da semana, esta quarta, por exemplo... entrariam no meio e ficariam ali, sendo sábado em plena quarta. E largaríamos tudo para ir passear.

Eu viajaria só de trem e faria tudo a pé, em caminhos sem ladeiras e cheios de árvores, e os livros e cadernos, por mim, nem pesariam tanto na bolsa. Por mim não preenchia um diário de classe nunca na vida e as aulas começariam sempre às nove da manhã e iriam até três da tarde, e a frequência seria livre e só viria quem quisesse.

Por mim, bebida não engordava, sorry amigas chocólatras, troco o sonho de valsa pelo vinho. Por mim saía para dançar beber conversar paquerar namorar umas quatro vezes por semana, sem preocupação alguma, com nada. Por mim ia ao cinema diariamente e cultivaria pelo menos três horas de ócio e vontades bestas por dia. Por mim, teria pelo menos umas três vezes mais sapatos do que tenho. E por mim teria sempre vontde, pique e animação para mais uma aula de ginástica.

Por mim, para cada dia de regime, um quilo a menos. Por mim, amigos deviam se encontrar sempre, toda semana, sem essa de sem tempo e desaparecimentos do mundo adulto. Por mim ficava lendo ficção o dia inteiro, de vez em quando um filminho, volta e meia uns poemas, levantava só para escrever.
Hm...

Os crentes que me perdoem mas essa história da criação do mundo toda nas mãos de um cara só... ai que desperdício.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

ataque macunaímico:

Ai que preeeguiça!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


e lulu adverte: alugar qualquer temporada de 24 horas em devedê tira o sono e aumenta a anti-sociabilidade.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

diálogos com adolescentes

Enquanto isso, na escola...


-Sabe, eu queria saber, se os livros que a gente vai ler esse ano são profundos.
- Por quê?
- Porque eu queria ler uns livros bem profundos, sabe? -
- Pódeixar! - respondo, hiper séria pro totoco de gente que me interpela, hiper séria também, de treze anos recém feitos, mal entrada na sétima série.

a outra, também sétima série:

- Queria te agradecer, pelo caderno que você me deu, para que eu escrevesse sempre.
- Que bom, você aproveitou?
- Sim! Muito! Sabe... eu não gosto de férias... nas férias eu deprimo, sabe? aí eu percebi que quanto mais deprimida eu fico, mais inspirada, então nessas férias eu escrevi muito, muuuito mesmo, não parei de escrever.... Brigada mesmo!
- Hum.. que bom... !
(acho), pensei com meus botões.

na sexta série:

- E nesse ano a gente vai escrever histórias de terror?
- Vai.
- E pode ser uma história bem grande assim de vários capítulos?
- Pode.
- Quando, quando?
- Daqui a dois meses.
- Dois meeeses??? Tudo isso?
- É.
- Hum... diz o menino - depois de amaldiçoar o livro que leremos antes dos de terror e mistério, olhando para mim - ...Hum... Sessenta dias?
- É.
- Promete?
- Prometo.
- Tá bom. Olha lá, sessenta dias, heim?
- Pódeixar.

ai, ai...
depois acham que criança num sofre e que adolescente é chato.

Eu adoro.

Lulu, contente de voltar prá sala de aula. Logo volto a xingar.

e quem quiser dar dicas de livros, profundos ou nem tanto, ainda tá valendo. Eu leio todos comentários, mesmo de posts antigos, então podem ir e dar dicas para a lulu. Dicas para leituras na escola de modo a não odiar sua professora e muito menos os livros, aqui.


e é claro que a enquete continua, tô vendo se mais gente se manifesta. ;)

questão:

Existem as feias bonitas?

domingo, 4 de fevereiro de 2007

domingão à noite


(para os que entendem disso e olham para o céu, não essa lua não é de hoje, é uma lua do alvorecer e não do anoitecer, mas a foto é bacana e resolvi deixar)

Para mim, não tem hora mais difícil que o entardecer do domingo. Fico toda crepuscular também, deprimida mesmo e tenho que fugir com todas as minhas pernas e forças de qualquer tevê que esteja ligada, porque se ouço, por um segundo que seja, a voz do tal do Faustão ou a musiquinha do fantástico, caio em depressão absoluta, é assim efeito imediato. Eles falam, eu caio. Juro.

Mesmo sem esses sons do horror, domingo à tarde é sempre meio esquisito. Não que a semana seja ruim, que não traga boas promessas e tal, mas o final do domingo parece-me sempre triste, um pouco vazio, dia de pizza, de ficar em casa, sei lá, de preparos. O mais chato é viver de acordo com os dias e o fim do domingo lembra a gente dos tais dos tempos. Dia de acordar cedo na manhã seguinte, de lembrar das obrigações, ai que chato!! Era a favor de sermos contra todas as obrigações.
Boas mesmos são as noites de quinta-feira, que antecedem as noites de sexta, e já têm um pouco de cara e gosto de final de semana. As noites de sábado são bacanas também, apesar da proximidade com o domingo. E bom bom mesmo, para subverter tudo isso, é ir ao cinema em plena terça feira à tarde, quando estão todos trabalhando e ali na sala fica só você, e três velhinhas. Mas isso é assunto para outro post.

Que domingo à noite, sem a pizza, resta o vídeo, e aqui em casa alugamos a quinta temporada do 24 horas. Por enquanto o Jack salvou o mundo democrático e livre das mãos dos terroristas malvados de nomes estranhos já umas três vezes, e ainda estamos na parte da manhã!!! Ninguém me conta nada, que daqui a vinte e quatro horas reapareço, mas o que quero mesmo saber é se o Jack sacrificará mais uma vez seu grande amor em nome da pátria. Vejamos do que é feito esse mocinho.

e lembrei da música do domingo, e acho que lembrei tudo errado. Lembro assim, uma música totalmente apocalíptica, que eu cantava aos berros:

hoje é domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de barro, bate no carro, carro é de ouro, bate no touro, touro é valente, bate na gente, a gente é fraco, cai no buraco o buraco é fundo, acabou-se o mundo.

Eu lembrei tudo errado ou é assim mesmo e essa é um das músicas mais malucas e trágicas da histórias das músicas malucas e trágicas que a gente canta quando é criança?

a gente é fraco e o mundo é curto. Perfeito.

geeente.... quem conhecer outras versões, mais alentadoras, por favor, me fale.

E esse era para ser um post poético, de tom melancólico, com a foto da lua e tal, mas fica mais um de besteiras que afinal de contas é disso mesmo que vive esse diário. :)
boa semana para todos e todas nós.
fiquem com a lua,
Lulu.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

insônia

parte 1:a hora e a vez do encontro.

E ontem me deu uma insônia forte, brava, daquelas que você pensa que nunca mais na vida irá dormir de novo. E não aguentando mais a companhia dos meus pensamentos no escuro, nem aquela sensação horrível de corpo e mente desobedientes e em ritmos acelerados na hora errada, levantei e pronto. E fui ler e decidi que não podia ler nada de trabalho, porque aí que não dormia mesmo.

Levantada, fui ao escritório flertar com meus livros, estariam eles ali essa noite? Sim porque às vezes meus livros me traem e fecham-se para mim, como que somem; nenhum me quer, nenhum é suficiente, nenhum é o que eu queria e precisava que fosse naquela hora exata. A gente está louca para ler, e não encontra livro algum.

Os perfeitos, aqueles que parecem nossos pares ideais, que nos traduzem e endendem, às vezes se escondem ou foram todos tomados por outras e outros, emprestados a alguém, já têm dono. Percorro minhas estantes....Nada. Talvez algum livro solitário e sem leitores sonhe comigo assim como sonho com ele, solitários à espera um do outro, ele em alguma prateleira obscura de uma livraria da cidade, eu aqui, no meu canto... mas nem sei da existência desse e acabo amaldiçoando os que tenho ali comigo. Meus olhos examinam as lomabadas... russos, não, Machado, nem pensar, aquele já li, o outro dá preguiça....
Tento, pego um... devolvo. É daqueles livros bons, simpáticos, legais até, mas cuja química não rola... e dizemos: "desculpa... olha, não é você, sou eu... de volta para a estante, um dia a gente se vê."

Difícil, o encontro com um livro, no meio da noite, sem preparo nem planejamento.

Pensava sobre tudo isso, o sono cada vez mais longe, quando um livro do Guimarães piscou para mim da estante. Será? Não é muito cabeça? Hum... Olho de novo. O tal virou de ladinho se oferecendo todo, deu mais uma piscada, aguçou minhas memórias, lembrei-me dos prazeres já vividos ali e não teve jeito, escolhi-o, e disse: ok, és meu e sou tua, por essa noite.

Peguei para ler Sagarana e, afoita e impaciente, fui logo para o último conto do livro, para ver se dormia, sem que a ansiedade de estar ainda no começo, toda uma relação por construir, me acordasse de vez e irremediavelmente. Comecei a ler A hora e a vez de Augusto Matraga.

No começo, em meio ao sono e mau humor de uma noite não dormida, não entendia nada, demora, para a gente pegar o jeito do Guimarães. É quase como um novo sotaque, uma nova música de uma afinação diferente, demora para pegar, mas depois flui, e fica tudo fácil, e lindo. Para mim demorou umas duas páginas, mas a piscadela havia sido tão irresistível que dei-lhe a chance do jantar depois do drink, apesar dos pequenos desencontros nas preliminares.

E logo me entreguei. A certa altura, tão afoita e desinibida, até levantei do sofá e fui buscar um lápis e marquei-lhe as páginas, sublinhei palavras, acompanhei o o conto inteiro, até que, madrugada, chegamos juntos ao fim.

Recuperei o ar e depois desse encontro perfeito, pude até dormir, satisfeita.

parte 2: as lembranças depois do sono.

Como escreve bem, o Rosa. Já que não sou ciumenta, nem possessiva, bem humorada depois de uma noite bem lida, partilho com vocês as partes sublinhadas. ;)

começando pelo provérbio capiau maravilhoso, que abre o conto:
"Sapo não pula por boniteza,
mas porém por percisão."

isso serve para as palavras dele também, que não estão ali por boniteza, mas por percisão. E como é preciso, o Rosa.

a certa altura, Nhô Augusto e sua vida inteira caem, e o anúncio da sua tragédia é narrado assim, olha que preciso:

"Quando chega o dia da casa cair - que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, - o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é só a coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto não: estava deitado na cama - o pior lugar que há para se receber uma surpresa má. "

e, em outro pedaço, para falar do que é literatura, o que tanto teórico tenta dizer, ele vai lá e alcança com perfeição:

"E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor. "

E Nhô Augusto fica triste, profundamente triste, acho que deprimido, se pudéssemos falar assim, fica como já fiquei tantas vezes, e me vi ali:

"Mas daí em seguida, ele não guardou mais poder para espantar a tristeza. E, com a tristeza, uma vontade doente de fazer coisas mal feitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarrasse, e ficasse sem trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa das coisas, como os outros sabiam viver. "

e umas páginas depois Nhô Augusto levanta, como já me levantei, nos levantamos, junto com a pressa das coisas; depois de um tempo sem poder para espantar a tristeza, uma vez e quantas precisar levantamos, sem saber porque antes estávamos do outro jeito:

"E, uma vez de manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava? ! ... Não era pecado... devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar . . . "

e assim minha noite preencheu-se inteira, e eu inteira fiquei preenchida também. Porque aquela era A hora e a vez do Augusto Matraga, porque cada um tem sua hora, e eu estava lá, acordada, e vi tudo. E tudo ficou em ordem.