domingo, 30 de setembro de 2007

sobre o fim da novela

Eu não assisti a novela das oito que passa às nove, sempre nesse horário estou ou em reunião da escola ou fazendo minhas aulas de dança ou com amigos, mas na última semana sucumbi e assisti o último capítulo.
Algumas questões me vieram à mente...

1) Ninguém é obrigado a ver vídeo de viagem, batismo, casamento de ninguém... todo mundo sabe que esse vídeos só divertem quem viajou, casou ou batizou seus filhotes. Por que, meu deus, somos obrigados a ver vídeo de confraternização de empresa??? Me expliquem, o quê era aquele showzinho mequetrefe do Milton Nascimento e aquele bando de gente se fingindo de descontraída ao final??? Presisamos mesmo ver todo o staff da novela dando tchauzinho para a câmera? fingindo cantar uma música que não conhece, tentando ignorar a câmera e tal ( era até engraçado)? Se abraçando entre si?
No meu tempo, no final de novela sempre havia um casamento, ou, ok, mesmo um nascimento, a gente chorava, se divertia, via que o mundo era bom e os bons sempre ficavam felizes para sempre no final e pronto. Ninguém submetia à gente a vídeozinho de festinha de final de ano da empresa. Horror, horror...

2) Hilário o diálogo entre o Tony Ramos e a Glória Pires:
O Gilberto Braga deu um jeito do cara descobrir em dois dias que tinha dois filhos e no dia seguinte perder os dois. Um, porque não era dele mesmo; outro, porque morreu, assassinado pelo irmão invejoso, nos braços do pai recém descoberto. Uma coisa assim tragédia grega. Parece que ele foi muito malvado durante a novela inteira, então precisava desse sofrimento final para expiar um pouco suas culpas e poder ter um final feliz com a Glória Pires, até porque afinal com esse casal ninguém mexe, ela já até virou homi por ele e ele até já virou mulher por ela, têm que terminar juntos e felizes. Então bota o homi para sofre um pouco, em fast forward. Aí vem o Tony, com todos os seus pêlos e tal, chorar nos braços da amada: " Eu achei que tinha um filho.. perdi... Descobri que tinha outro.. perdi... Perdi dois filhos, de repente... "
E a Glória, com sua cara de cavalo, consternada e emocionada, anuncia para o maridão: "Mas você tem um filho! Um terceiro!!!Está aqui, dentro de mim!!!"
Geeeeeeeeeeente!! só rindo.

3)Sempre converso com meus alunos sobre finais de trama, especialmente tramas de suspense, assassinatos, etc. É uma arte, construir um bom suspense, muitos personagens têm que ter o famoso motivo e a tal da oportunidade, há que se espalhar umas pistas falsas por aí para confundir o leitor ( ou espectador), um monte de mensagens subliminares e entrelinhas que abrem suspeitas e espaços para teorias e mais teorias. Em novela, bolões são feitos para ver quem adivinha o final, a mídia preenche todo seu espaço com as mesmas reportagens de sempre,"Quem matou..." essas coisas.
O fato é que as peças do jogo devem estar todas na mesa, bom é aquele que consegue ordená-las da maneira correta, e perceber quem verdeiramente é capaz de realizar o assassinato em si. A Agatha Christie arrasa quando, por exemplo, cria uma trama onde, simplesmente, todos os suspeitos são o assassino, e as doze facadas foram dadas por doze pessoas.
O Gilberto Braga quis fazer um final tão surpreendente, mas tão surpreendente, que inventou uma história complicadíssima que eu mesmo não entendi bem.
A Vera Holtz não sabia quem era o pai do seu filho??? Como assim???
Ninguém entendia nada, e o coitado do Wagner Moura, morrendo, teve que desperdiçar todo seu imenso talento tentanado explicar, enquanto morria, uma das histórias mais furadas que já ouvi na vida:
A mulher perdeu o filho na maternidade, resolveu adotar outro, que pegou ali mesmo, no hospital, sem contar para ningupe que itnha perdido o original. O outro, que pelo que entendi ela achava que era um genérico aí qualquer, era o filho do Tony Ramos ( que ele também não sabia que existia, fruto de um caso com um aempregada aí qualquer do passado), herdeiro, herdeiríssimo. Só o irmão malvado sabia disso tudo e é claro que não vai contar nada para ninguém. . Aí o irmão cresce com inveja, o outro cresce traumatizado e confuso achando que é bastardinho, e o irmão malvado , que quer virar o herdeiro ele mesmo, bola um plano que, se eu entendi bem, é assim:
matava o Tony Ramos, aí matava o irmão bastardo herdeiro, aí matava a mãe, aí simulava um atendado contra si próprio para evitar suspeitas e depois acabava rico, herdeiro e feliz.
?????????
Please!!!
Putz! mas e a Thais? ficou faltando uma explicação para o assassinato da Thaís!
Fácil: Flash back. Um belo dia, sabe-se lá porquê, o Wagner Moura decide contar todo seuplano para seu comparsa. Bota a gêmea malvada para ouvir tudo enquanto mijava (e sabe-se lá porque o Wagner Moura resolveu contar tudo para o seu comparsa num belo dia). Como boa malvada quis chantagear, foi muito gananciosa e quis 40 por cento da herança. era muito, adeus irmã gêmea.

ô, gente... o Gilberto Braga teve quase um ano para bolar a trama... custava ter pensado num final mais coerente?
Se fosse aluno meu, mandava reescrever tudo, e dava zero no quesito verossimilhança. Toda ficção usa o recurso da coincidência para resolver questões do enredo, isso é ok. Todo mundo se cruza na rua, vai ao mesmo hospital, a mesma delegacia, tudo isso é ok. Mas essa solução abusou de todas as regras de convencimento.
Fica fácil criar um final surpreendente assim, quando vale tudo. Achoq ue o Wagner Moura podia ter contado a seguinte historinha:
na verdade, eu sou um alienígena que veio do planeta Zonskry com a missão de matar todo mundo que, um dia, usasse sapatos brancos. A Thaís, naquela sexta feira, usou sapatos brancos. Mamãe também... o Tony Ramos adora usar sapatos brancos, todos tiveram que ser mortos! Eu odeio sapatos brancos, e no meu planeta há uma previsão de que, um dia, um ser humano do planeta terra que usava sapatos brancos iria ao nosso planeta, tomaria nosso reino e escravizaria todos nós. Não podia deixar que isso acontecesse... por isso matei, ou tentei matar, todo mundo...

4) Decididamente a Alessandra Negrini é linda mas só fica bem em papel ou de engraçadinha ou de mulher malvada, nunca vi heroína mais sem graça, não é à toa que ninguém tava nem aí para o destino dela. E, não custa perguntar... por que ninguém pôs uma amarra nos braços do Fábio Assunção? Nunca vi alguém se mexer tanto e de modo tão exagerado! Começou até a me dar aflição. Fora o lance do biquinho... que biquinho é aquele que o cara fica fazendo toda hora? será que alguém falou algum dia que era sexy?
Mistério...
E um dia alguém será capaz de me explicar qual a graça que há numa perseguição de carro. Não há final de novela, ou filme de ação, que não nos obrigue a assistir entediados um carro perseguindo o outro pelas ruas de alguma cidade. Direito a close no rosto do mocinho e do bandido, direito a passageiro atirando no carro de trás, freadas bruscas, carros de polícia queimando e assim por diante... Uma chatice sem fim. Ok, brincar de carrinho é legal, e explosões e tal são legais, mas... a gente precisa ficar assistindo à brincadeira dos outros? é chaato...

4) Palmas para a Camila Pitanga, que realmente arrasou e tomou a novela para si. O final dela como Monica Veloso foi bacana também, e o Wagner Moura realmente é um grande ator, ele o comparsa dele eram os melhores o tempo inteiro, e não só porque os vilões são mais interessantes, os caras são bons atores, e pronto.


5) Por último... sobre as propagandas... é impressão minha ou estão cada vez piores?
Tenho visto pouca tevê mas, pelo que eu me lembre, no horário nobre da globo, especialmente em fim de novela, passavam as propagandas mais bacanas, caras, emocionantes, engraçadas, criativas. Aquelas que a gente lembra, viram ícones e tal.
Só vi aquelas propagandas trash das casas bahia, supermercados num sei o quê com ofertas de quilo de carne, móveis estofados, e tevê com carrinho e controle remoto. Outras, os caras nem precisam mais se preocupar com texto, inventam alguma palavra ou expressão nova, e ficam repetindo por quinze segundos, para ver se entra nas nossas cabeças. Ou ainda, propagandas de carro e cerveja. Tantos as propagandas de carro como as de cerveja estão cada vez mais parecidas entre si. Carro: o cara - estressado, infeliz, preso pelo horário e pelo trânsito, entra no carro. Imediatamente o cenário muda, começa a tocar alguma musiquinha cool, ele sai do trânsito, vai parar num lugar paradisíaco qualquer, conquista a liberdade e passa a ser dono do seu próprio nariz e mundo, um mundo de horizontes abertos e sem fronteiras. Ops! propaganda de celular também diz isso. Pois é...
E quem aguenta ver um monte de povo feliz em algum boteco, pedindo Aquela cerveja senão a festa, o pagode, o samba, o refrãozinho insuportável - e junto com todos eles, a felicidade - acabam.
A cerveja vem junto com alguma mulher bem linda, que aliás é ignorada porque todo mundo só quer beber.
ai, ai...


Enfim, esse foi o resultado de minha semana novelística. Fiquei muito decepcionada, adoro chorar em final de novela, e nesse não teve sequer um casamento decente.
Ficam aqui meus sinceros protestos.

Milton! já corrigi! ;-) O mestre manda, a gente obedece. :-)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Sushi dormindo.

Alguns leitores mais assíduos e persistentes talvez lembrem-se do nvovo gatinho que tivemos aqui em casa, que achei que havia perdido mas estava debaixo da geladeira, e tal. ( relato dessa importante aventura de minha vida, aqui)















Meleca acordada.






Depois talvez alguém tenha aocmpanhado minha preocupação maternal com a amizade que meus felinos estabeleceriam ou não entre si. Queria que eles se amassem, se acompanhassem, ficassem amiguinhos.

Um só rugia pro outro, e mostrava as garrinhas.
Lulu ficou aflita, pois é da paz enão exigia menos de seus gatinhos.






Aos poucos, queridos leitores, eles foram se aproximando, com muita cautela e cuidado porque aqui nessa casa ninguém facilita com a palavra amor.


Meleca se aproximando so Sushi:



Resposta do Sushi prá Meleca:


Um dá uma corrida no outro, os dois se enxergam, um dá uma lambidinha no cu do outro, e fica por isso mesmo, sem muita intimidade, sem beijo na boca, nem nada.


No entanto, há uma certa cordialidade, principalmente quando o cansaço é tanto e o edredon, um só.

Aí não há espaços para frescuras.

O sono dos justos:

o Sushi tem o dobro do tamanho da Meleca, se espalha inteiro. A melequinha se enrola como uma bolinha, e apóia sua cabecinha no próprio rabo. A Meleca é auto-suficiente, precisa da gente para ligar o computador pois o lugar preferido dela é em cima do monitor , fornecer comida e água - só. De resto, vem quando quer, e gosta que também qu ejoguemos bolinhas de papel pela sala, ela sai correndo, pega e traz de volta. Acha que é cachorro, essa gata.

A melequinha gosta de estar por perto, mas não é dada a exposições públicas de afeto.

Uma lady, essa meleca.

( Para ver a Melequinha empoleirada no monitor da lulu, clique aqui, no post: sobre o ótimo uso do computador)

Já o Sushi se espalha, e é chegado num colo, vai subindo em cima da gente sem pedir licença, e sem a menor preocupação com preliminares ou conquistas.
Um gato viciado em colo, louco, tarado. Basta a gente se sentar em qualquer lugar e lá vem ele, carregando junto consigo seus quase dez quilos. Vem, se acomoda, dá umas tantas voltas ao redor de si mesmo, e se ajusta, entre as pernas, sobre a barriga, nas coxas mesmo.

Aqui ele , entre as pernas da dona. O cara é, basicamente, um folgado.
Queria treiná-lo para ficar andando sobre as costas da gente, fazendo massagem, mas ainda não consegui.

Enfim... a paz reina na casa da lulu. Melequinha e Sushi convivem em harmonia e é divertido ficar na companhia dos dois.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

gente

Eu gosto de algumas gentes, mas eu não gosto de todas as gentes.
Eu gosto de gente que que fala aquilo que pensa, que pensa, e sabe ser sincera. Odeio gente falsa.
Gosto de gente que conta histórias, adoro gente que sabe contar uma história e conta as histórias por inteiro. Tem gente que sempre conta as histórias ou fofocas pela metade, ou que você pergunta: e aí? como foi a festa, e responde: foi boa. Eu gosto de gente que conta como foi a festa, quem estava e quem faltou, o quê se comeu e bebeu, se dançaram ou não, como era a casa e tudo o mais que há para contar. Adoro quem conta a história da vida, conta do término do namoro, conta das suas falhas e conquistas, adoro gente com histórias para contar.
Eu gosto de gente que sabe dar carinho e atenção, embora eu mesma às vezes falte e não dê a atenção devida a muita gente que eu gosto.
Eu gosto de gente que sabe ouvir e presta atenção no que a gente diz, não gosto de gente que quer sempre ser o centro de tudo e só sabe falar de si próprio e se desinteressa por tudo que não lhe diz respeito.
Gosto de gente apaixonada, odeio gente entediada com a vida. Gosto de gente apaixonada e pode ser por qualquer coisa: encanamentos, selos, livros, cavalos, sapatos, o que for. Gosto de ouvir gente apaixonada falando de suas paixões, sério. Gosto de quem se dedica a suas paixões.
Gosto de gente generosa, que gosta de, por exemplo, cozinhar para os amigos enquanto conversa.
Gosto de gente que gosta de comer e beber, desconfio muito de gente que não come nem bebe - a não ser que seja por razões médicas.
Gosto de gente que se entrega, que chora e ri sem vergonha. Gosto de gente que se expõe, sem medo do ridículo.
Gosto de gente que sabe apreciar coisas bacanas, e depois comenta: nossa, como foi bacana. Que lembra da gente quando vê ou vive alguma coisa legal e comenta: nossa, vi isso e lembrei de vc, que sabe agradecer e sabe pedir por favor. Odeio gente mal educada. Gosto de gente que sabe brigar, embora eu mesma não saiba direito.
Gosto de gente ética, odeio os espertalhões, odeio quem fura fila ou engana os outros e ainda se orgulha disso, gosto de quem se preocupa com os outros.
Gosto de gente que aprecia diferenças, que é aberto ao novo e tem coragem e curiosidade de experimentar aquilo que não conhece.
Gosto de quem se apaixona, gosto de quem se perde, gosto de quem sabe rir de si próprio. Gosto de gente que tem coragem de expor suas opiniões e sabe ouvir a dos outros.

Gosto de gente torta, louca, falha. Odeio gente perfeita, que geralmente exibe a própria perfeição como um troféu. Assim: nossa... não preenchi o diário de classe. Não? eu preencho tudo, todos os dias, meu diário é perfeito, como é que vc esquece?
Gosto de quem vive uma vida viva.
São poucos, por isso não gosto de todas as gentes mas há por aí muita gente de quem eu gosto, e é suficiente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

lulu de dieta

No fim de semana do meu aniversário era o fim de semana do meu aniversário, então comemorei sexta, sábado e domingo. Sexta com vinho e jantar em casa, sábado comida de lutador de sumô no bairro da liberdade ( sim, mas esse post fica para outra hora) e domingo, bacalhau e mais vinho.

Segunda e terça passei me recuperando. Ginástica, caminhadas, blablabla...

Ontem, estava determinadíssima. Comi cereal integral, leite desnatado e banana no café da manhã, com direito a linhaça e tudo (sei lá o que linhaça faz, mas já me falaram tanto dela que só de tomar uma colher por dia já me sinto vivendo uns cem anos). Tão saudável que estava, fui caminhando ao trabalho e almocei uma salada verde com croutons. Só. Nem uma quichezinha para acompanhar. Era algo assim inacreditável. Bebi água com gás com uma rodela de limão por favor.
Me senti chiquérrima, num lugarzinho bacana almoçando salada verde, Carrie Bradshaw, aqui vou eu. Não é só vc e suas amiguinhas que ficam comendo saladas e pratos de frutas em lugares badalados enquanto bebem bebidas vermelhas.
Aquele prato de salada ( bastante overrated - ou seja, caro - por sinal) havia me colocado na turma.



Ginástica depois do trabalho, aula de dança, e missoshiro e shimeji de janta, nadica de carboidratos, uma coisa assim... manequim 36. Já estava pensando quanto será que um Manolo Blahnik deve custar ...


Fui dormir, com um pouquito de fome, mas fome é para os fracos.


Acordei, um vazio existencial dentro de mim roncava em altos brados: queremos bons tratos! Sim, acordei faminta, uma fome atávica e antiga.
Peguei o maridón e lá fomos nós para a padaria mais próxima. Ele pediu um mamão e suco. Eu ri:
- moço, quero um misto quente.
- No pão integral? ( aquele garçom estava me provocando)
- Não, pão francês, com miolo.
- Queijo branco? ( era uma verdadeira conspiração)
- Presunto e queijo prato, moço, no pão francês, tradicional. E uma média sem leite por favor (sim, média sem leite. Eu sei... outro post).

Jornal na mesa, sol na rua, meu amor ali na minha frente, tudo estava certo enquanto saboreava dois ( sim, caros leitores... DOIS ) mistos quentes deliciosos e me despedia sem nenhuma pena ou culpa da chata da Carrie Bradshaw.


Porque essa lulu aqui will never be hungry again.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

silêncio

porque às vezes tem gente falando muito, com pouco, ou nada, a dizer. Porque às vezes é difícil falar de coisas que a gente nem sabe o que são. Porque é bom ficar em silêncio, às vezes.

Deixo aqui dois links, um que me emocionou muito, da Marta Bellini, sobre leituras:
Lulu, literatura, lendo...

e outro, um relato chiquérrimo da comemoração do aniversário da lulu, ali, no Tablóide da uol. Sim, lulu também é society!:
Na véspera, uma conclusão: a academia ignora os concursos de miss.

( sim, a professora do colégio que cantou em japonês sou eu... hihihi)
Não percam.


sábado, 15 de setembro de 2007

"professora, puta cara loser, esse Dostoiévski ."




"Puta cara loser, esse Dostoiévski, professora!"- falou um aluno. "Sabe... eu acho que eu me identifiquei um pouco com ele... - respondeu outro aluno."

















Esse post é continuação dos posts Três tigres tristes

Professora, queremos livros felizes.



Sobre o narrador de Memórias do subsolo, do Dostoiévski, na sala de aula, oitava série:


-Professora, eu ODEIO esse cara, odeio, odeio, odeio. Ele é o maior loser de todos os tempos!

( eu comecei a rir, achei engraçado, e o aluno tem razão: o herói do Memórias do Subsolo é mesmo o maior loser de todos os tempos:

"Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. (...) Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (...)
Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais."(p.15)

Desempregado aos quarenta anos, por vinte foi um funcionário "maldoso, grosseiro, e encontrava prazer nisso".

"Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto." (p.17)

Aos quarenta anos, viveu sua vida toda. " Viver além dos quarenta é vulgar, imoral!" Ainda por cima é feio, e nem ao menos tem o consolo da expressão inteligente.

Na primeira parte do livro, dedica-se a falar de si:

"Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto, Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno." (p. 19)



O cara não consegue nem ser um inseto decente. Looooooooooseeeeerrrrrrr. Doeeennnnteeeeee.

O diálogo na sala de aula continuava:

- Puta cara chato, meu! Sério, professora, sabe do que eu acho que esse cara precisava? Precisava ser preso e enrabado por três negões, aí ele ia deixar de frescura.

( risos, são bons, esses meus alunos)

- Sabe quem é esse cara, professora? Você já viu aquele programa, linha direta?
- Já.
- Então, ele é um desses caras que aparecem no linha direta.
- Será? O quê vocês acham, gente?
- Eu acho que não... - falou uma menina, bem tímida mas convicta - porque... sabe? O que é legal nesse cara é que ele tem consciência de como ele é ridículo e patético, ele sabe disso. Ele tem raiva do mundo mas acho que tem raiva principalmente de si. E... sabe? eu acho que eu até me identifiquei em algumas partes do livro... não assim com essa raiva toda que ele tem do mundo, de todo mundo, tal... mas da vergonha que ele sente de si próprio às vezes... da vontade que ele tem de não falar com ninguém e ser grosseiro com todo mundo... De como às vezes ele é superior a todos, e às vezes se sente super inferior.


- Sabe o que eu gostei no livro? - um outro aluno - como ele sempre pensa que deve fazer uma coisa e nunca faz aquilo que pensa que deve fazer. Ele está lá num lugar e pensa: eu preciso dar um soco nesse cara, ou : eu preciso ir embora... mas fica lá, andando de um lado para o outro e não faz nada daquilo que gostaria de fazer, ou que acha que tem que fazer. Eu achei isso muito legal.

- Eu acho que esse livro me ajudou a entender melhor as pessoas...
- Por quê?
- Ah... sei lá... o cara tem coragem de falar um monte de coisa que todo mundo sente um pouquinho mas não tem coragem de confessar, ele vai lá e confessa, sabe?

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui (…)

Agora, quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?
(p. 52)


Uma menina vira para o outro que disse odiar o cara com todas as forças:
- Você nunca faz uma coisa da qual se arrependeu depois? Ou deixou de fazer por falta de coragem e depois ficou pensando nisso durante dias e dias, e isso virou uma coisa enorme na sua cabeça? Você nunca quis fazer algo e acabou fazendo justamente o contrário? Eu fiquei com um pouco de pena do cara, sabe? mas gostei dele, de uma certa maneira, sei lá.

- Eu não gostando do livro porque dá aflição e angústia.
- Eu acho que o cara devia tomar coragem, se matar e deixar a gente em paz.
- Por que alguém vai escrever um livro sobre um cara desses?

Isso que é o mais lindo, gente. Que alguém vá escrever um livro sobre um cara desses. Que alguém vá falar que a razão, o bom senso, a racionalidade não são suficientes para explicar o que é o ser humano. Que o cara, e a gente, tem impulsos auto-destrutivos que todo mundo tem... Que nem sempre a gente age com racionalidade, quem nem sempre dá, e vale a pena, ser um winer na vida. Que tudo isso aliás é meio ridículo, que há o subsolo do humano, e que esse não pode ser negado. Porque todo mundo aqui sabe que a gente tem às vezes prazeres e desejos perversos, ou teve - na infância, sei lá... todo mundo aqui já fez alguma vez alguma coisa muito nada a ver, perigosa ou auto-destrutiva prá caramba, só para flertar com o perigo, para testar limites, sei lá. ... Que todo mundo é meio loser mesmo e ainda bem, porque essa figura do cara que sempre consegue tudo aquilo que quer, que sempre faz tudo aquilo que acha que deve fazer, que tá sempre feliz, realizado e se dando bem com todo mundo... Vamos combinar, gente... é um saco. E é falso também... Sabem, esse cara leva ao máximo um lado que todo o mundo tem, vamos chamar de lado loser, para vocês verem o ridículo dessa expressão. Ainda bem que alguém escreveu um romance sobre ele, porque o ser humano não tem controle absoluto sobre si próprio, tem o inconsciente, tem um prazer que a gente sente na dor, tem um monte de coisa... Essa obrigação de ser feliz, de se dar bem em tudo, de conseguir as coisas, é na verdade não só ridícula como muito dura também.
E o pior: ele é um cara que tem a consciência hipertrofiada. Pensou demais, observou demais, refletiu demais. A resposta possível que ele dá para tudo isso, para o ridículo das pessoas que observou, para a hipocrisia do mundo, os bajuladores, etc. é a inércia. Pois para ele não adianta fazer alguma coisa, porque nada do que ele fizer vai mudar ou alterar o estado do mundo e das coisas. Mas isso não impede que ele sinta raiva, muita raiva. O discurso dele é inteiro raivoso, e é bacana um discurso raivoso, o mundo precisa também disso.

Sabem, quando vocês falaram aquele negócio de livros tristes eu fui estudar. E li um livro que chama A teoria do Romance, do Georg Lukács. E uma das coisas que ele diz lá é que o romance moderno é mesmo necessariamente meio triste, ou é triste ou é entretenimento.
Porque na modernidade o mundo não está dado, ele não é harmonioso, não tem um sentido a priori, uma essência que faz com que tudo tenha seu lugar e a vida faça sentido. É a gente que tem que construir o nosso mundo, sabe? Ir juntando as pecinhas partidas, criando nossos sentidos... Para o Lukács, o romance moderno trata justamente dessa construção: o herói do romance moderno tem que construir a si mesmo e ao mundo, criar um sentido para si e para as coisas do mundo. Esse é o grande tema.
O problema é que, para esse autor, essa construção necessariamente está fadada ao fracasso. Porque se o herói se adapta e vence no mundo ele perde algo de si mesmo, da sua verdade. Ele se torna, sei lá, ou um pouco hipócrita, um pouco cínico, sei lá... perde a sua integridade. Isso acontece por exemplo no romance Ilusões Perdidas, do Balzac, que mais tarde vocês deveriam ler. Por outro lado, se o herói mantém sua integridade, ele não cabe no mundo. Aí vira por exemplo um inseto, coitado, como na Metamorfose. Ou mesmo no Apanhador no campo de centeio. O Holden acha todo mundo meio ridículo, meio patético, tem uma consciência e o Holden só se ferra. Tem um amigo meu que inclusive acha que esse romance é reacionário, porque no fundo diz que se você tem essa consciência hipertrofiada e quer ser fiel a si mesmo e aos seus valores, você vai acabar tendo um troço, sendo expulso de todas as escolas, e terminando numa clínica de repouso.


Eu não sei, gente, se tem uma saída. Eu sei que é verdade que muita gente abdica de si mesmo e se aprisiona ao máximo para poder inserir-se no mundo, não virar um loser, ganhar muito dinheiro, sei lá. Tem muita gente muito infeliz por aí, gente demais. E é difícil mesmo. Porque por outro lado ninguém quer virar uma barata ou um personagem do Dostoiévski que nem barata conseguiu virar. Mas é bacana a literatura mostrar que o mundo é um pouco isso aí mesmo. Que é uma batalha a gente ser fiel a nós mesmos, e para isso a gente tem que lembrar o tempo inteiro que essa construção do mundo e de nós mesmos nos dá uma coisa muito muito preciosa e bacana: liberdade. Ninguém está predestinado a nada, ninguém tem um lugar fixo, cada um pode ser livre para viver seus desejos, construir sua vida, lutar pelos seus sonhos, lutar pela construção de um mundo melhor - mesmo que isso signifique ficar um pouco `a margem, sei lá. A resposta para esses livros não precisa ser uma tristeza e uma depressão, pode ser pelo contrário: ação, e mesmo, talvez, um certo alívio, porque não é humano vencer, se dar bem e ser racional o tempo inteiro, e esses livros mostram que nem é isso que interessa.



Essa foi a aula de ontem. Quis escrevê-la, sem nenhuma obrigação de amparo teórico nem nada, porque muita gente acompanhou e pensou sobre a questão dos livros tristes na literatura. Essa foi a minha resposta, e sabem? eu acho que , ao final, deu certo e valeu a pena a insanidade de ler Dostoiévski com a oitava. Cerca de 70 por cento da classe gostou, e esse tipo de conversa, esse tipo de reflexão são bem importantes, nunca a classe esteve tão em silêncio e concentrada como ontem. Enfim, eu tenho muitos amigos fiéis a si mesmos, que conseguiram, nesse mundo louco e desigual, encontrar caminhos verdadeiros e que lutam sempre para viverem de acordo com suas verdades e desejos. É possível, a medida que fico mais velha, me sinto cada vez mais livre, e traço minha vida para ser cada vez mais verdadeira, e feliz. Acho que dá sim.


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Aviso importante

O Diário da Lulu informa que domingo próximo, dia 16 de Setembro, sua dona, a Lulu, aniversaria.
O Diário da Lulu gostaria de informar que sua dona, Lulu, gosta muito de receber mimos, cartas, presentes, declarações e parabéns e que os mesmos podem ser enviados para o e-mail de lulu:
almluana@gmail.com já que o Diário às vezes fica um pouco sem jeito com excessos. A lulu não fica, nunca, portanto ela libera esse espaço aqui também. Para presentes maiores, champanhes, livros, sapatos e coisas assim, é só pedir o endereço que a minha dona infelizmente é meio facinha e certamente libera seu endereço para corrrespondência.

O Diário da lulu agradece àqueles todos que reviram suas páginas diariamente, ele acha isso tudo muito legal.

Sem mais, grato pela atenção de todos,

O Diário da Lulu.