não é mais aqui
Tem post novo no novo diário da lulu!!
Corram lá.
Atenção, muita atenção:
O diário da lulu está mudando de casa, indo para um lugar mais bacana, ao lado de pessoas bem legais.
No começo do ano recebi do Milton Ribeiro
o gentilíssimo convite para fazer parte do projeto O pensador selvagem, um espaço de pensamento livre, reflexão e ação aqui, nesse mundo internético.
Aceitei logo de cara e agora finalmente vou-me embora para lá.
Os arquivos antigos do Diário da lulu ficam aqui também, mas o blog inteiro está lá, desde os seus primórdios, com os comentários e tudo, uma maravilha essa tecnologia.
O blog está cada vez mais ativo, a escrita voltará a ser diária, e ainda estou chegando na nova cara que o blog vai ter.
ATENÇÂO:
para ler os novos posts, só lá. Aqui, ficam os antigos.
Nova lulu, novo lugar também.
Então prestem bastante atenção, copiem o novo endereço, coloquem-no nos seus blogs, na sua barra de favoritos, assinem o feed para receber de cara todos os textos novos da lulu, ajudem a divulgar, o blog e a idéia do OPS!
O endereço é esse daqui ( clique em cima do link, ou copie o endereço) :
Diário da lulu
http://opensadorselvagem.org/blog/diariodalulu/
Encontro vocês lá, tá bom????
Um beijo grande a todos.
lulu.
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No sexto ano ( antiga quinta série) inicio o trabalho de redação pedindo que escrevam um texto intitulado: Eu ao contrário.
É assim: eles têm que escrever sobre si, mas descrevendo-se ao contrário do que são. Devem falar daquilo que gostam, que odeiam, de suas personalidades, comidas prediletas, família, corpo... sempre ao contrário. É bem divertido e desmonta o que seria uma auto-descrição banal e já solidificada que cada um de nós tem sobre si mesmo. Eles se divertem contando como são velhos, os meninos falando que são meninas, as meninas faladno que são meninos, contando como amam comer jiló com beterraba, como odeiam pizza e ver tevê e assim por diante...
Ao me entregar o texto, um deles perguntou:
- E quando você vai nos pedir para entregar uma redação falando do "Eu do lado certo? "
- "Eu do lado certo? " - perguntei, sem entender muito.
- É, ué... Já escrevi sobre o "eu ao contrário", agora queria escrever sobre "eu do lado certo", ué...
E nas redações um menino escreveu que amava viver. Achei que havia se atrapalhado, muitos se atrapalham e acabam falando de si " do lado certo" ao invés de falar de si ao contrário. Chamei o moleque:
- aqui, onde você colocou que amava viver... é isso mesmo ou você ama viver de verdade e se enganou?
- Não. - me disse o menino, impassível, do alto do seu metro de altura - eu odeio viver.
- É mesmo? - perguntei, procurando fazer um ar tão indiferente quanto o dele ( quando aparecem essas coisas a gente tem que prestar atenção mas, ao mesmo tempo, não dar muita bola nem se mostrar muito impressionado) - então, você não gosta de viver...
- É. - respondeu-me, lacônico - Inclusive, eu sempre como maionese em excesso que é para apressar a minha morte.
- Tá, só para saber. - respondi, e o menino que come maionese em excesso para apressar a sua morte voltou a sua mesa, e foi passar a limpo sua bela redação.
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21:22
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Então na sétima série comecei o trabalho com crônicas. O grande lance de se trabalhar com crônicas é, ao meu ver, despertar nos alunos um senso de observação das pequenas coisas do dia a dia, fazer com que percebam que a matéria literária é também aquela bem próxima, das coisas pequenas e grandes que acontecem ao redor da gente: o café da manhã qu etomamos, uma briga com o irmão, uma pessoa vista na rua. Quero que eles agucem seus sentidos para a vida e que percebam que a vida é feita dos pequenos momentos, das pequenas belezas, das horas e dos dias. O pessoal tem mania de achar que as redações têm que versar sobre grandes acontecimentos, sequestros, mortes, roubos e fugas, coisas assim. No trabalho com crônicas, procuro mostrar que não é bem assim, que o muito grande pode estar numa fração bem pequena na nossa existência, que basta observarmos e prestarmos atençao nas coisas dos nossos dias e noites, nas pessoas que nos rodeiam, nas conversas que escutamos, que temos matéria de sobra para o escrever. Matéria essa muito mais interessante, e verdadeira, do que aquelas ditas grandes ou sensacionais.
Pois bem, alição de casa da semana passada era muito simples:
- observar.
- Como assim?
- Observar, prestar bastante atenção em alguma coisa. Qualquer coisa. Pode ser uma pessoa, um lugar, um sentimento, um diálogo, um jeito da pessoa se mexer e falar, o que vocês quiserem. Tem que prestar muita atenção mesmo, e trazer essa observação para a sala de aula.
No dia marcado, todos haviam trazido suas observações, e puseram-se a escrever. Todos menos um:
- Pedro... Por que você não está escrevendo?
- Ih... não tive nada para observar professora.
- Como não? e tudo aquilo que eu falei, sobre o mundo, as pequenas coisas...?
- Sabe o que é? Desde que você deu essa lição, o mundo ficou vazio... vazio, vazio...
Fiquei ali por alguns minutos, olhando o moleque. Sorríamos, eu e ele, enquanto outro escrevia sobre a professora de português, meio louca e meio descabelada.
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21:07
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Porque então no dia seguinte ao bang bang a gente acorda e quer olhar o sol e ficar numa boa, na aventura da vida.
PS: excelentes discussões nos comentários sobre filmes com crianças. Corram lá para ver.
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11:08
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porque às vezes a gente se sente assim como se abatida. Ou porque, simplesmente, às vezes eu queria ser a Uma Thurman, no Kill Bill.
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13:14
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Fui a comícios quando pequena, fiz muita boca de urna quando criancinha, lembro com emoção do povo reunido na minha casa, se preparando para ir ao comício das diretas já, tinha - e tenho - medo de polícia. Lembro, também com emoção, quando minha mãe foi votar pela primeira vez e me levou junto, e me mostrou o que era o voto e a democracia. Meus pais tinham amigos torturados, exilados, desaparecidos. Tenho um primo querido que nasceu no Chile e cresceu no exílio, um tio que foi procurado vivo ou morto. Meu avô, que ensinava russo na Universidade, foi preso várias vezes. Cresci em meio a discussões políticas, cantei muita música revolucinária, aprendia lições de marxismo e socialismo, noções de igualdade e luta, usava sainhas indianas desde pequena, e burguês para mim era uma espécie de xingamento bem sujo. Todos, a minha volta, eram barbudos, e minha mãe usava umas jóias de prata africanas que acho lindas até hoje.
há duas histórias paralelas que correm no filme:
Ao final, a luta política é massacrada, morre o Capitão e morrem também os Revolucinários. Esses são os nossos tempos, a gente fica se perguntando se a luta política morreu, e eu fico achando isso perigoso, muito perigoso. A saída que o filme apresenta, e o filme apresenta uma saída, é no plano mágico, onde a menina ainda vive, restitui seu lugar de princesa e tudo. No plano da história o bebê é o único sobrevivente e será criado por Mercedes, que não lhe contará sua verdadeira história e poderá criar outra, quiçá mais feliz. O filme não abdica da complexidade e aí está um dos seus gandes méritos. Mas o final da história está no plano mágico, da criança, único lugar possível de harmonia, onde cada personagem pode ter seu lugar na História. Do labirinto da história, aquela real, não há saídas, apenas massacre e violência. Um bom filme, que faz pensar e não abdica da complexidade. Um filme também desencantado com os rumos da história e da política, como tantos filmes nossos contemporâneos, um pouco como nós.


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Então a casa está, finalmente, arrumada. Preciso de um novo colchão, mas dá-se um jeito. Ainda não sei cozinhar só para mim. Ainda gasto mais do que ganho.
Levanto e ouço música. Leio.
Minha fase Henry Miller passou, li tudo dele que me caiu nas mãos. Comecei aler Pais e Filhos, do Turguêniev.
A casa anda sempre cheia, acho que os vizinhos vão reclamar.
As aulas recomeçaram e tem duas coisas lindas no primeiro dia de aula:
1) As crianças pequenas chorando de saudades de casa, de saudades da mãe, de susto com o mundo novo.
A professora pega a criança no colo, leva para a classe e fala assim:
- Olha quanta coisa legal a gente vai fazer !
O menino, chorando e fungando, responde assim:
- Eu sei... mas é que eu estou com muita saudade da minha casa.
A mãe fica num canto, meio escondida, olhando seu pequeno, esperando para ver se ele aguenta passar o dia fora, sozinho na escola nova pela primeira vez.
As mães e os pais de crianças pequenas, que vão deixar os filhos pela primeira vez na escola às vezes não aguentam e choram um pouco também e se escondem, para que os filhos não vejam as suas lágrimas e fiquem em paz em seus novos lugares.
2) A ansiedade e confusão dos meninos do sexto ano ( ex quinta série). Eles vêm com suas mochilas, seus cadernos novos, e sempre, sempre vêm com TODOS os livros pedidos, de todos os dias da semana, um peso enorme. A gente chega na classe e nunca viu uma classe tão quieta. Pede uma redação e nunca viu tantos meninos tão empenhados em escrever. A confusão é enorme: muitos professores, matérias novas, cadernos novos. Um menino perguntou:
- Eu não estou entendendo... Quantos cadernos é para eu colocar em cima da carteira?
- Que matéria você tem agora?
- Ciências.
- Então agora você coloca só o de ciências.
- Tá bom.
E então ele vai lá, coloca o caderno de ciências em cima da mesa, arruma o estojo com milhares de lápis, canetas, canetinhas, borrachas, e espera a aula e a nova vida começarem.
Eu lembro do meu primeiro dia na quinta série. É um novo mundo e é muito legal. Crescer é muito legal também.
Eu, no meu novo mundo, estou toda pronta. E vivo. E cresço.
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12:10
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o bom de passar carnaval em São Paulo, sem tevê, é que a gente nem percebe que é carnaval.
cidade vazia. adoro.
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Ali, meus livros da infância, que li e continuo lendo, seja por razões de ofício, seja por prazer mesmo.
O Monteiro Lobato inteiro, usado, mil vezes lido, viajado, levado comigo para todas as casas onde morei. Histórias do mundo inteiro, Harry Potter, os novos livros de criança.
Eu lia Reinações de Narizinho num sítio que meu pai tinha em Campinas. E ali, eu pude fazer uma das coisas mais legais do mundo de se fazer quando se lê literatura:
no sítio do meu pai tinha uma jabuticabeira. Eu, menina, me empoleirava na jabuticabeira, levando coigo meu livro. Abria as páginas bem confortável, e comia jabuticabas, enquanto lia que Narizinho "não fazia outra coisa senão chupar jabuticabas. Volta e meia trepava à árvore, que nem uma macaquinha. Escolhia as mais bonitas, punha-as entre os dentes e tloc! E depois do tloc, uma engolidinha de caldo e pluf! - caroço fora. E tloc, pluf, - tloc, pluf, lá passava o dia inteiro na árvore. " E havia o Rabicó, um leitão muito guloso, que vinha postar-se embaixo da árovre, à espera dos caroços. " Cada vez que soava lá em cima um tloc! seguido de um pluf! ouvia-se cá embaixo um nhoc! do leitão abocanhando qualquer coisa. E a música da jabuticabeira era assim: tloc! pluf! nhoc! - tloc! pluf! nhoc!"
Eu aprendi a comer jabuticabas junto com a Narizinho. Até hoje ouço essa música, mas fico na minha, ouvindo bem baixinho, sem contar par aninguém, lembrando dessa parte feliz da minha infância, quando vvia aquilo que lia nos livros, e ficava torcendo para adormecer ao lado de um riacho e aparecer um prícipe escamado, que cutucasse meu nariz achando muito estranha aquela caverna peluda. E o prícipe escamado me levaria para o Reino das Águas Claras, onde as fadas me fariam o vestido mais lindo e o Dr Caramujo daria uma pílula que faria minha boneca falar sem parar. Fui ali que aprendi a viver aquilo que leio, e que aprendi que as fronteiras entre literatura e vida são bem bem tênues. Ok, podem dizer que sofro de Bovarismo desde então. Aceito o diagnóstico.
Ontem estava lendo o conto O Gato Preto, do Edgar Allan Poe para o sétimo ano ( ex sexta série, depois explico isso ) . Eles têm doze anos, mais ou menos. É um conto muito assustador, narrado em primeira pessoa. O narrador vai contando como a raiva e a maldade vão se apoderando dele de maneira tal que ele, que outrora amava os animais, passa a maltratá-los e espancá-los. A certa altura ele conta como, embriagado, retira um canivete do boso e arranca o olho de seu gato. Nesse momento, um menino, aluno novo, todo pequenininho e assustado, levanta a mão e pergunta:
- É de verdade isso?
Eu respondi:
- Não. É de mentira.
Menti. Há poucas coisas tão verdadeiras no mundo como a boa literatura, a boa ficção.
As crianças sabem disso. Os adultos que são bons leitores sabem disso também.
as fotos... para os curiosos, clicando em cima, elas ampliam e dá para ver meus livros de criança. A segunda está fora de foco, eu sei... mais tarde troco por uma de melhor resolução.
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