Leituras: os direitos do aluno leitor e não leitor. (3-7)
Inspirada por um post do Rafael Galvão e outro do Alex, sobre a leitura na escola e os livros infanto-juvenis, decidi escrever um texto sobre o que penso sobre tudo isso, que acabou se transformando em uma espécie de manifesto, pelos direitos dos alunos leitores e não leitores. Ficou um texto longo, bastante pessoal, que publicarei aqui aos poucos, um por dia, em meio ao dia a dia do Diário da Lulu. No total, os direitos são esses ( basta clicar em cada um que o post aparece) :1)O aluno não precisa gostar do livro lido.
Inclusive, é livre para odiá-lo.2)Ao aluno deve ser oferecido sempre o que há de melhor na literatura universal, passando por todos os gêneros.3)A literatura não é objeto santificado, sagrado nem de culto máximo.4)Livros inteligentes devem ser tratados com inteligência.5)Se o aluno não lê nada, mas nada mesmo, é porque, provavelmente, não sabe ler.6)Os alunos têm direito a excelentes bibliotecas e a livros baratos.7)Os alunos têm direito a professores ultra bem remunerados e com tempo para dedicarem-se a eles.
3)A literatura não é objeto santificado, sagrado nem de culto máximo.
Literatura é mais uma das coisas que existem no mundo. Pronto. Eu gosto de literatura mas odeio, com todas as minhas forças, esportes coletivos, fico nervosa até hoje, nem sei o que é o tal do espírito esportivo. Isso não me faz um ser nem melhor nem pior que minha amiga que ganhava todas as competições de vôlei da escola, somos apenas diferentes.
Tudo bem, não gostar de ler. Fica parecendo que quem gosta de ler é um ser superior, inteligente, iniciado, sensível. Vamos com calma. Pela dessacralização da literatura.
Mais: literatura boa não é literatura chata e difícil. Ler é, sobretudo, bacana, divertido, emocionante, gostoso. É simples, é bom, mas não é tudo no mundo. Aqui, eu cito o Alex, que ao falar sobre livros infanto-juvenis, explicou com concisão e estilo o que eu estou tentando falar:
E, por fim, é sempre importante matar esse senso-comum preconceituoso de que leitura é algo inerentemente lindo e que todos devem sempre ler mais e mais e mais. Leitura não faz de ninguém uma pessoa melhor. Leitura é bom pra quem gosta de ler e para quem tem carreiras que dependam de domínio da língua. Dependendo da criança, do seu tipo de inteligência e das suas inclinações, pode ser mais saudável passar seus dias praticando esportes, resolvendo quebra-cabeças, jogando videogames, tocando guitarra, construindo móveis, etc etc, do que passivamente lendo.
Esse mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de passar o dia se bronzeando na praia ou jogando bola em terreno baldio.
E tem mais: os pais (e as mães) atrapalham.
Típica cena de reunião de pais, chega a mãe (como diz o Fernando Sabino numa crônica maravilhosa: “na reunião de pais só havia mães”) e diz, toda brava e preocupada até as entranhas:
- Meu filho não gosta de ler...Não sei mais o que fazer... obrigo, tiro do vídeo game, coloco de castigo, e ele continua não gostando de ler...
Calmamente, com minha cara de mais simpática do mundo, pergunto:
- é... um problema isso... ler é tão bom... qual foi o último livro que a senhora leu?
Batata. A pessoa nem lembra... e não há problema, mas os pais forçam a maior barra, muitas vezes com a melhor das intenções, e tornam a leitura um grande dum monstro, sagrado, mas nem por isso menos monstruoso.
Os pais falam mal de livros que o filho tá amando, censuram leituras (como assim minha filha vai ler Edgar Allan Poe? E os pesadelos? Ela é muito nova para ler sobre cadáveres... Como assim meu filho vai ler Tolkien? Essa porcaria? Ele tem que ler literatura brasileira... e assim por diante...ou.."Nossa filho, cê tá lendo essa porcaria? pára de perder tempo com quadrinhos..."), e se desesperam e descabelam porque o filho não lê.
E depois não deixam os moleques brincar com o livro, o objeto livro. Que façam castelos, muralhas, que brinquem com os livros. Que folheiem livros enormes, sublinhem, desenhem entre as páginas, amassem, levem para a praia, para a banheira, que leiam muito gibi, que o livro faça parte do cotidiano da casal. Que passem noites inteiras lendo, que descubram a biblioteca perto de casa. Que desmistifiquem o objeto livro, porque ler para ser educado é um porre.
Tenho um amigo que falava que ODIAVA ganhar brinquedo educativo, se sentia enganado cada vez que aparecia alguém com mais um brinquedo de madeira. Ele pensava: oh não... lá estão eles querendo me enganar de novo, eu achando que estou brincando e esses malditos adultos querendo me educar!!!
Ele tá coberto de razão, não se esqueçam, as crianças são extremamente inteligentes.