O Samurai e o Cowboy:
“Sete homens e um destino” é um belo filme de faroeste, refilmagem do belíssimo
“Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa.
Ainda gostaria de escrever sobre o samurai e o cowboy, já que os filmes de samurai parecem se adaptar perfeitamente ao farwest americano, bastando apenas mudar a paisagem e os figurinos. Além dessa adaptação, há ainda o magnífico Por um punhado de dólares, filmado por Sergio Leone e totalmente baseado em Yojimbo, também do Kurosawa. As duas versões americanas seguem par e passo os originais japoneses. O roteiro é praticamente o mesmo, as personagens são as mesmas, é incrível como dá certo.
Afinal, o que há em comum entre o samurai e o cowboy?
O que está em questão, especialmente em
Os setes samurais é a ética e a vida do herói.
Tanto o samurai como o cowboy são exemplares da figura do herói solitário, seu poder à serviço às vezes de um senhor, às vezes da grana, mas sempre guiados por um código de honra rígido dentro de uma vida que cotidianamente depara-se com a morte.
O agricultor e o guerreiro:
A história do filme
Os sete samurais é bastante simples: os camponeses de uma aldeiazinha estão sendo explorados por um bando de homens armados que vive da exploração dos camponeses da região. Todo ano, saqueiam as aldeias. Esse fora um ano difícil, não há arroz suficiente para os camponeses, quem dirá para o bando.
A história começa quando o tal bando chega à aldeia e avisa que passará ali no mês da colheita para buscar todo o arroz. Os camponeses são miseráveis e não poderão sobreviver após esse saque. Ficam entre resignar-se, e entregar todo o fruto do seu trabalho ao bando, ou lutar. Logo deparam-se com sua prórpia impotência, são camponeses, seu ofício é o plantio, entendem de terras e sementes, não de armas e espadas. Não sabem lutar.
Resolvem então contratar samurais que lhe ensinem a combater. Têm muito medo e pouca confiança em si mesmos, mas a solução dá uma esprança aos aldeões. Não têm como pagar os serviços de um samurai, mas vão mesmo assim à cidade à procura de ajuda. Na cidade são ridicularizados pro seus modos caipiras, sua fraqueza e pobreza.
Acabam por comover um grande samurai, que consegue convencer outros cinco a ajudar os camponeses na batalha em troca somente de algum arroz. Um homem bêbado que quer ser samurai - mas não é - acompanha o grupo, e acaba conquistando o direito de pertencer ao grupo por mostrar-se honrado e entender os camponeses.
O grupo de sete homens chega à aldeia, que se esconde cheia de medo. Logo há uma aproximação e grande parte do filme gira em torno da vida dos samurais na aldeia. Eles têm um ou dois meses para preparar todos para a guerra. Treinos e estratégias.

Os samurais são nômades, vivem à parte da sociedade, não têm família, não têm laços afetivos, não têm um lugar. Percorrem as cidades à procura de trabalhos. Os camponeses vivem suas vidas sempre no mesmo lugar, casam-se, criam seus filhos, são enterrados em lugar próximo.
O agricultor e o guerreiro.
Ao agricultor cabe cultivar, plantar-se num espaço, ficar ali por um longo período de tempo, colher os frutos, fazer filhos, uma vida no tempo, longa. Ao guerreiro cabe percorrer espaços, onde houver pagamento, onde for chamado, ele vai, e deve estar preparado a todo instante para a morte honrosa, o samurai não pode temer a morte e vive, sob seu código de conduta e honra, uma vida percorrida através de diferentes espaços, no tempo presente, provavelmente curta.
O samurai não tem uma casa, jamais pode ser agricultor, leva consigo tudo o que precisa e não pode apegar-se a ninguém, é um solitário, quase um pária da sociedade, que vive o tempo presente dentro do caminho do
bushidô.
Nesse momento de treino os camponeses têm que aprender a ser guerreiros - perder o medo, ganhar postura, prontidão, aprender o manejo das armas - e os sete samurais vivem uma vida de camponeses - plantam, cuidam das crianças, participam do dia-a-dia da aldeia, criam laços, apaixonam-se.
Surgem muitos conflitos, muitos camponeses ficam achando que seria melhor entregar tudo a arriscar perder a vida. Entre os samurais surge até um desejo de abandonar a vida de samurai, construir uma casa, plantar algo, ter família e a vida passa a ter mais valor.
Finalmente, chega o tempo da batalha.
É na guerra (diante da morte) que os propósitos de cada um são testados e que o sentido da vida de cada um ganha força e significado. Aos samurais cabe o sacrifício da própria vida, não por dinheiro mas pela dignidade e possibilidade de manutenção da aldeia e dos agricultores. Eles também ganham dignidade e morrem como heróis, e como heróis são lembrados. Sobre a montanha que ladeia a aldeia, agora segura, repousam suas sepulturas. Suas espadas são suas lápides.
A canção sobre o herói:

Todo herói deve ser lembrado. O helenista
Jean Pierre Vernant comentava que Ulisses precisava voltar para casa, para sua Penélope, principalmente para poder ser cantado pelos poetas. O herói grego torna-se herói quando sua história vira canto.
Na excelente série
Heroes o grande momento que dá dignidade e força ao Hiro ( perfeita encarnação de um herói) é quando seu amigo Endo lhe diz que ele será lembrado, como são lembrados o Super Man, os guerreiros Jedis de Star Wars, o surfista prateado. Hiro é ele mesmo personagem de história em quadrinhos, relatos de sagas heróicas, e vive sua história para fazer juz à história em quadrinhos em que ele é um herói. Vive-a não para ser cantado, mas porque já foi desenhado.
O dilema do herói:

Sempre na história do herói surge um momento de crise interna. Uma vontade de pertencer, de fazer parte, de ser normal, criar laços, fazer filhos, viver na aldeia e fazer parte dela, de fato. O homem aranha, o batman... todos eles enfrentam esse dilema, geralmente despertado por alguma mulher, mas não necessariamente.
Ao mesmo tempo que amam e querem viver uma vida normal, têm poderes e junto aos poderes vem uma responsabilidade: viver na normalidade significa abrir mão do uso dos poderes, e aí surgem dilemas éticos. Pois a aldeia precisa do herói, o poder do herói pode salvá-la, e herói deve sacrificar-se. É meio triste, a figura do herói.
Há aqueles que usam seus poderes para ganho próprio, e esses são os vilões, fundamentais também. O herói usa seus poderes para ajudar o outro, para o bem comum; os vilões, para obter poder pessoal. Tisc, tisc, tisc...
No caso dos samurais e dos cowboys, o poder está na detenção da força, do gatilho rápido, da espada mortal. Seus vilões também, sejam índios, seja o bando ameaçador, o inimigo também tem poderes, também sabe manejar armas, são quase tão rápidos no gatilho. Em
Heroes o poder é fruto de alguma mutação genética.
Enfim, seja qual for seu poder e história, o herói sempre enfrenta esse dilema:
deve estar fora da sociedade para protegê-la.

Esse é o grande conflito da série Heroes, dos X Man, do Homem Aranha, do Superman, do cowboy, do samurai.

O lobo solitário, por exemplo, fica com seu filho somente a partir do momento em que seu filho escolhe o caminho do lobo, que é o caminho da meifumadô, do inferno, uma vida que não está nem no plano da vida nem da morte, uma espécie de limbo. Esse pai vaga com seu filho, não têm casa, não têm laços, Daigoro não tem amigos e vive sempre no presente, tanto ele como seu pai estão sempre preparados para a morte, e não a temem.

Em Sete homens e um destino esse conflito é mais explicitado que no original japonês. A certa altura, dois cowboys conversam sobre a vida do cowboy:
Casa: nenhuma.
Esposa: nenhuma.
Filhos: nenhum.
Perspectivas: zero.
Lugares ao qual se apega: nenhum.
Pessoas que te seguram: nenhuma.
Homens para os quais você dá passagem: nenhum.
Inimigos: nenhum.
- Nenhum inimigo?
- Vivo, nenhum.
Escreva uma canção sobre nós, é o que podemos pedir.
O destino nobre do herói é esse sacrifício, e com a boa morte eles conquistam o direito de ser cantados.
A questão da soberania e o Estado de Exceção:
Giorgio Agamben é um filósofo italiano que escreve sobre a questão da soberania. Ele diz que a Lei se inaugura na força, isto é, para que a lei seja implantada há que haver um dispositivo de força que será usado contra aqueles que a violarem, todos estão submetidos à força da lei, e é assim que a constituição é implantada, e junto com ela, o Estado moderno. Já falei em outra resenha que os filmes de farwest tematizam essa implantação do Estado Americano no ambiente selvagem, desértico e bárbaro ( a barbárie representada pelos índios) que é o far west. Em Heroes há a questão da salvação do mundo, e por mundo entenda-se Nova York. A fronteira do far west é a fronteira da ausência da lei, e por isso ali o cowboy é necessário, por isso os samurais foram necessários. Ainda bem que no caso dos verdadeiros heróis há um código de honra que os faz agir dentro do caminho do bem.
No caso de Estado Soberano já sabemos que não é sempre assim. O que Agambem fala, que é interessante, é que o o Soberano que impõe a lei está fora dela. Ou seja, o Estado pode decretar a qualquer momento um Estado de Exceção que lhe permitirá infringir todas as leis ( torturar, matar, prender, etc... ) Nesse Estado, a vida dos cidadãos perde significado e valor, e transforma-se no que Agamben chama de “vida nua”, uma vida que pode ser matada sem que isso signifique assassinato. O Soberano está fora das leis da sociedade para poder manter a própria sociedade, e isso significa, para Agamben, que a qualquer momento qualquer vida pode deixar de ser uma vida cidadã ( com direitos, deveres) e se tornar uma vida nua.

O interessante é que esse Estado de Exceção é imposto justamente quando se crê que a lei e a sociedade estão em risco. Jack Bauer, da série 24 horas, ilustra com perfeição tudo isso. Diante de um perigo de destruição do mundo, ele pode e deve matar, torturar, invadir embaixadas, etc. Ele está fora da lei. Em uma das temporadas, ele inclusive se demite para poder matar mais à vontade, depois é readmitido de novo. Os Estados Unidos de Bush, sob ameaça, também restringem direitos de seus cidadãos e com as fotos de Guantánamo vimos o que é a Vida Nua.
Na raiz da própria soberania está a violência e a ameaça do seu uso, o farwest é ( ou pode ser) aqui.
Enfim, a figura do herói e seus belos dilemas sempre existiu.
No homem que matou o facínora esse conflito entre a lei e a força também é tematizado (leia a minha resenha sobre o filme
aqui, essa é uma espécie de continuação daquela). Os super heróis têm seus códigos, e na ficção, os do bem costumam vencer.
O perigo é quando o soberano, também ele um fora da lei, toma para si decidir o que é a normalidade e quais os riscos que permitem que ele use seu poder de força sem precisar estar dentro da lei. Os produtores de 24 horas dão palestras e aulas para o exército americano. Não é à toa. Na aldeia, a voz da democracia deve vencer, e todos têm seus direitos e deveres, iguais. Quando o soberano resolve virar herói e sacrificar esses direitos, estamos dentro do campo do fascimo, e não dos heróis bacanas do mundo da ficção.
Quando o Estado e suas leis parecem falhar, surge o sentimento de que precisa-se de heróis, e isso é muito, muito perigoso.
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O universo, os deuses e um homem.
Sobre Giorgio Agamben, o Idelber escreveu esse post aqui, com ótimos links:
Giorgio Agamben.