sábado, 21 de abril de 2007

e então

e então fica um vazio, uma vontade de mais, de coisa muita, de um mundo inteiro.
Fica uma canseira e um sei lá o quê, uma tristeza estranha, uma mudez que não se domina. E então a gente espera e deixa que as horas passem para que cure, para que o vazio esfrie.

E um sábado passa.

E então, como que por espanto, o corpo se preenche de um amor pelo mundo que parece não ter tamanho, uma vontade de estar perto, uma vontade de abraçar, cheirar, viver, escrever, ser e estar plena. Como um temporal, vem, então, no final da tarde, e limpa todas as ruas da cidade. Vem, como uma música ouvida bem alto, como um belo concerto, como uma refeição perfeita, uma taça de vinho excelente, uma gargalhada que se dá, um abraço, um choro bem chorado.

Vem um amor que me deixa inteira.
Inteira. Como se nos braços de alguém, solta e louca., como uma vertigem. Como uma frase que vem e obriga a sentar e escrever, como um dito, um abraço, um vestido de caimento perfeito, uma flor na rua, um sorriso de um estranho. Como um gemido incontido, um riso abafado, um amor proibido, uma melodia perfeita, um poema inteiro que parece ter sido escrito para o agora já, um passo de dança, como uma palavra certa.

E então parece que quase não se tem corpo ou parece que ele está ali, inteiro demais, pronto para a vida, porque parece que o mundo tem pé, faz sentido e dá para dizer que sim, sim, sim.

9 comentários:

  1. lu linda da k... :-)

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  2. Lu,

    Adorei seu texto, estou pensando na trilha...

    bjo,
    Clé

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  3. Mãos vazias
    Eduardo Gudin & Paulo César Pinheiro

    Mal se acende a luz
    Nasce o grão das ilusões
    Nas mãos do sonhador
    A natureza põe
    Maravilhosos dons
    E faz da vida
    Dia de graça
    E faz do tempo
    A cura da desgraça
    Faz da paixão
    Essa magia
    Depois envolve o dia
    Na escuridão

    E a noite reduz
    A carvão as ilusões
    Que o dia alimentou
    Nos corações cruéis
    Nos sentimentos bons
    E faz da vida
    A lenha escassa
    E faz do tempo
    Apenas a fumaça
    Faz da paixão
    Cinzas sombrias
    Depois inventa o dia por solução

    Por isso é que meu corpo e que meu coração
    São urnas frias, não guardam nada, não
    Meu sonhos deixaram-me as mãos vazias
    Meu sonhos deixaram-me as mãos vazias

    obs.: para ouvi-la, na voz de Paulo César Pinheiro, basta clicar no título.

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  4. Felicidade
    Luiz Tatit

    Não sei porque eu tô tão feliz
    Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
    Não sei o que foi que eu fiz
    Se eu fui perdendo o senso de realidade
    Um sentimento indefinido
    Foi me tomando ao cair da tarde
    Infelizmente era felicidade
    Claro que é muito gostoso
    Claro que eu não acredito
    Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

    Não sei porque eu tô tão feliz
    Preciso refletir um pouco e sair do barato
    Não posso continuar assim feliz
    Como se fosse um sentimento inato
    Sem ter o menor motivo
    Sem uma razão de fato
    Ser feliz assim é meio chato
    E as coisas nem vão muito bem
    Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
    E pra completar depois disso
    Eu fui despedido e estou desempregado
    Amor que sempre foi meu forte
    Não tenho tido muita sorte
    Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
    E feliz da vida

    Não sei porque eu tô tão feliz
    Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
    Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
    A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
    O meu problema era felicidade
    Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
    Felicidade quando é no começo ainda é controlável

    Não sei o que foi que eu fiz
    Pra merecer estar radiante de felicidade
    Mais fácil ver o que não fiz
    Fiz muito pouca aqui pra minha idade
    Não me dediquei a nada
    Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
    E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
    Que eu sou egoísta
    Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
    E faz uma lista
    Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
    Independente dos deslizes dentre todos os felizes
    Sou o mais feliz

    Não sei porque eu tô tão feliz
    E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
    A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
    Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
    Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
    Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
    Felicidade assim desse tamanho
    Só com muito espaço

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  5. obs.: para ouvi-la, na voz de Luiz Tatit, basta clicar no título.

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  6. K linda da lu...

    Janaína,
    pois é...

    Clelia,
    perfeitas as trilhas. Deliciosas, as usual.
    obrigada.
    Lu

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  7. Eu não fiquei sem palavras não...fiquei sem fala, sei lá, bateu lá no fundo, lá onde chamam de recôndito, lá onde a gente não vê, mas sente e sente tanto e tão intensamente que, as vezes, se dá conta que somos gente.

    Janaína

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