sábado, 3 de fevereiro de 2007

insônia

parte 1:a hora e a vez do encontro.

E ontem me deu uma insônia forte, brava, daquelas que você pensa que nunca mais na vida irá dormir de novo. E não aguentando mais a companhia dos meus pensamentos no escuro, nem aquela sensação horrível de corpo e mente desobedientes e em ritmos acelerados na hora errada, levantei e pronto. E fui ler e decidi que não podia ler nada de trabalho, porque aí que não dormia mesmo.

Levantada, fui ao escritório flertar com meus livros, estariam eles ali essa noite? Sim porque às vezes meus livros me traem e fecham-se para mim, como que somem; nenhum me quer, nenhum é suficiente, nenhum é o que eu queria e precisava que fosse naquela hora exata. A gente está louca para ler, e não encontra livro algum.

Os perfeitos, aqueles que parecem nossos pares ideais, que nos traduzem e endendem, às vezes se escondem ou foram todos tomados por outras e outros, emprestados a alguém, já têm dono. Percorro minhas estantes....Nada. Talvez algum livro solitário e sem leitores sonhe comigo assim como sonho com ele, solitários à espera um do outro, ele em alguma prateleira obscura de uma livraria da cidade, eu aqui, no meu canto... mas nem sei da existência desse e acabo amaldiçoando os que tenho ali comigo. Meus olhos examinam as lomabadas... russos, não, Machado, nem pensar, aquele já li, o outro dá preguiça....
Tento, pego um... devolvo. É daqueles livros bons, simpáticos, legais até, mas cuja química não rola... e dizemos: "desculpa... olha, não é você, sou eu... de volta para a estante, um dia a gente se vê."

Difícil, o encontro com um livro, no meio da noite, sem preparo nem planejamento.

Pensava sobre tudo isso, o sono cada vez mais longe, quando um livro do Guimarães piscou para mim da estante. Será? Não é muito cabeça? Hum... Olho de novo. O tal virou de ladinho se oferecendo todo, deu mais uma piscada, aguçou minhas memórias, lembrei-me dos prazeres já vividos ali e não teve jeito, escolhi-o, e disse: ok, és meu e sou tua, por essa noite.

Peguei para ler Sagarana e, afoita e impaciente, fui logo para o último conto do livro, para ver se dormia, sem que a ansiedade de estar ainda no começo, toda uma relação por construir, me acordasse de vez e irremediavelmente. Comecei a ler A hora e a vez de Augusto Matraga.

No começo, em meio ao sono e mau humor de uma noite não dormida, não entendia nada, demora, para a gente pegar o jeito do Guimarães. É quase como um novo sotaque, uma nova música de uma afinação diferente, demora para pegar, mas depois flui, e fica tudo fácil, e lindo. Para mim demorou umas duas páginas, mas a piscadela havia sido tão irresistível que dei-lhe a chance do jantar depois do drink, apesar dos pequenos desencontros nas preliminares.

E logo me entreguei. A certa altura, tão afoita e desinibida, até levantei do sofá e fui buscar um lápis e marquei-lhe as páginas, sublinhei palavras, acompanhei o o conto inteiro, até que, madrugada, chegamos juntos ao fim.

Recuperei o ar e depois desse encontro perfeito, pude até dormir, satisfeita.

parte 2: as lembranças depois do sono.

Como escreve bem, o Rosa. Já que não sou ciumenta, nem possessiva, bem humorada depois de uma noite bem lida, partilho com vocês as partes sublinhadas. ;)

começando pelo provérbio capiau maravilhoso, que abre o conto:
"Sapo não pula por boniteza,
mas porém por percisão."

isso serve para as palavras dele também, que não estão ali por boniteza, mas por percisão. E como é preciso, o Rosa.

a certa altura, Nhô Augusto e sua vida inteira caem, e o anúncio da sua tragédia é narrado assim, olha que preciso:

"Quando chega o dia da casa cair - que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, - o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é só a coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto não: estava deitado na cama - o pior lugar que há para se receber uma surpresa má. "

e, em outro pedaço, para falar do que é literatura, o que tanto teórico tenta dizer, ele vai lá e alcança com perfeição:

"E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor. "

E Nhô Augusto fica triste, profundamente triste, acho que deprimido, se pudéssemos falar assim, fica como já fiquei tantas vezes, e me vi ali:

"Mas daí em seguida, ele não guardou mais poder para espantar a tristeza. E, com a tristeza, uma vontade doente de fazer coisas mal feitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarrasse, e ficasse sem trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa das coisas, como os outros sabiam viver. "

e umas páginas depois Nhô Augusto levanta, como já me levantei, nos levantamos, junto com a pressa das coisas; depois de um tempo sem poder para espantar a tristeza, uma vez e quantas precisar levantamos, sem saber porque antes estávamos do outro jeito:

"E, uma vez de manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava? ! ... Não era pecado... devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar . . . "

e assim minha noite preencheu-se inteira, e eu inteira fiquei preenchida também. Porque aquela era A hora e a vez do Augusto Matraga, porque cada um tem sua hora, e eu estava lá, acordada, e vi tudo. E tudo ficou em ordem.

11 comentários:

  1. lulu, querida, como vc já sabe, na última segunda tive a dor dde cabeça da vida, fui jogada na cama como nunca pensei que seria um dia, sem decidir, a dor decidiu por mim... enfim, deixei ela me ocupar, o delírio deveria trazer algo de sábio na minha mísera existência de pós-caipira paulistana. e por essa dor, de não saber onde era o norte, o sul, o leste e o oeste é que me lembrei do próprio - augusto matraga -
    que coisa! te encontrei nesta noite com uma dor, e quando volto prá casa leio o que vc escreve sobre o livro que afaga a tua insônia. gosto de ler com insônia, apreendo, sabia? até preparo aula agora, escolho imagens, e fico feliz no dia seguinte.

    taí, matraga...
    me traga, me suga, mas me devolve pro mundo.

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  2. Lulu e Brigitte,
    como viver é perigoso, minhas insônias são bem trash, entregues àquele aparelho do demônio, ao poltergeist que me traga.

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  3. Lulu,
    Cheguei aqui por indicação da Paty Faraco, amiga minha de muito tempo. Posto meu comentário neste post porque não sei se você lê sempre os comentários dos posts antigos. Enfim, só gostaria dizer que concordo definitivamente com as categorias do 'momento mulherzinha', não necessariamente concordando com todos os exemplares. Um que eu adicionaria a 'homem com cara de homem' seria Paul Newman. Dos 'clássicos', ele é meu número um, disparado.
    Eis aqui mais uma leitora oficial.
    Um abraço, minha cara.

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  4. Quem dera insônia ou excesso de sono pudessem ser compartilhados... nós poderíamos fazer uma troca, então.

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  5. Brigitte,
    afinidades inclusive insones? que bom!!
    querida, o monstro do poltergeist sóme acorda...

    astrid, bem vinda ao sofá vermelho da Lulu!! Leio sempre todas as conversas que aparecem por aqui, mesmo a de posts antigos. Sim, o Paul Newman é um do sícones do homem com cara de homem. rsss...

    equilibrista, pode dormir à vontade no sofá, a gente cuida do teu sono, pena que não dá para trocar....;)

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  6. nada como irrigar a imaginação e uma vez entregue a ela,
    a insônia,
    ela saciada, pôde virar pro lado e dormir.
    você escreve muito gostosinho de ler, viu!

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  7. O Verdadeiro Intelectual6 de fevereiro de 2007 10:41

    Querida Lulu,

    não consigo imaginar uma insônia que não seja "cabeça"... Deve ser muito difícil espantar uma verdadeira insônia, e tudo o que ela tem a dizer, com coisas "trash". Vc liga a TV a cabo e a insônia reage: "Tá vendo a que ponto vc chegou?" Vc troca de canal e ela fica ainda mais excitada: "Troca! Troca! Troca!" Vc desiste, pega a revista "Veja" e a insônia a xinga de cega. Tenta melhorar de nível e pega a "Bravo!", mas a insônia não se deixa enganar tão fácil. Ela não é como a vigília... "Prefiro então a 'Turma da Luluzinha'", diz, provocativa. Para ir embora, ela exige alguma coisa real a ser vivida, ou pelo menos pensada. Desgraçada!
    Um beijo,

    O Verdadeiro Intelectual.

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  8. Insônia a dois! Antes de ontem tive uma insônia a dois... no meio da noite nos olhamos e rimos... tá sem sono? tô! Vámos passear? Dá uma volta? Vamos... Entramos no carro... rodamos um pouquinho... Tá com fome? Tô! sabe essas lanchonetes que servem no carro? pois é! depois de um milk shake voltamos pra cama e conversamos e "brincamos" e conversamos até o sol raiar!

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  9. Meu Intelectual Verdadeiro,
    é fato. não adianta querer despistar a bicha com futilidades. Tem que mergulhar logo no que é bom de verdade.

    como fez a fabíola, no caso da insônia a dois... rsss... :)que delícia amiga!!

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  10. bolinha recomenda aproveitar as noites insônes para reler os posts do diário da lulu. O único problema é que você fica mais acordado ainda para saber o desenrolar dos comentários e encontros no sofá vermelho...

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