segunda-feira, 14 de maio de 2007

Every time we say goodbye



Every time we say goodbye
por Annie Lennox.

E no Cavaleiro inexistente, do ìtalo Calvino, a um certo momento Agilulfo parte à procura da sua história, à procura da donzela cuja virgindade teria salvo. Se for falsa a história, Agilufo perde seu título de Cavaleiro e todas as suas atribuições, e com a perda daquilo que lhe nomeia, Agilufo deixará de existir naquilo que é, perderá inclusive sua amardura. Agilufo foi desacreditadoo, e parte à procura de seu Nome.
Com ele parte Gurdulu, seu escudeiro - uma espécie de Zelig na literatura - , que tem existência, mas não tem essência, e se confunde com a sopa que toma, as rãs que o rodeiam, a árvore que lhe ladeia.
Agilulfo tem uma existência uniforme, ditada pelas regras do exército e da guerra. Sem contradições, sem oscilações, é ditado pela burocracia, contornado por sua armadura branca, impecável. Não tem existência, mas tem uma absoluta consciência de si- e é essa consciência que é abalada quando sua história é desacreditada. Gurdulu é o exato oposto, tendo existência, não tem consciência de si. Diversos nomes " que delizam nele sem jamais fixar-se", tem também diversos eus, sem ter nenhum. Mimetiza seu redor e acha que até o pé tem vontade e existência própria.
Atrás de Agilufo vai também Bradamante, a cavaleira mulher, que ama o cavaleiro perfeito, o cavaleiro inexistente, o único capaz da absoluta precisão ao atirar uma flecha no alvo:
"Preparem-me tudo, partirei, partirei, não vou ficar aqui nem mais um minuto, ele se foi, o único pelo qual este exército tinha sentido o único que podia dar sentido à minha vida e à minha guerra,e agora não resta nada além de um bando de beócios e violentos, eu incluída, e a vida é um revirar-se entre camas e caixões e só ele sabia a geometria secreta, a ordem, a regra para entender o princípio e o fim!"
E atrás de Bradamante, na Ciranda que é o romance ( e todas as histórias de amor?) parte também Rambaldo, que corria a pé para procurá-la e grita um dos mais lindos gritos de paixão:

"Aonde vai, aonde vai Bradamante? , eis-me aqui, para você, e você vai embora!" com aquela teimosa indignação de quem está apaixonado e quer dizer: "Estou aqui, jovem, pleno de amor, como pode meu amor não agradar-lhe, que deseja essa que não me toma, que não me ama, que mais pode querer além daquilo que sinto poder e dever dar-lhe? " e assim se enfurece e não consegue aceitar e num certo ponto a paixão por ela é também paixão por si próprio, é o apaixonar-se por aquilo que poderiam ser os dois juntos e não são. E nessa fúria Rambaldo corria para sua tenda, preparava cavalos armas alforjes, partia ele também, pois a guerra só é bem combatida onde entre as pontas de lança se dintingue uma boca de mulher, e tudo, as feridas a nuvem de poeira, o odor dos cavalos, só tem sabor a partir daquele sorriso. "



Porque toda vez que a gente se separa ou se vê separado, da pessoa que ama, parece que o mundo se desmonta um pouco.
E porque o apaixonado que fica sozinho nunca entende bem ao certo, ou é tão difícil compreender, porque seu coração está partido.

aviso importante:
Eu, Luana, estou bem, mas hoje - relendo o Italo Calvino - me deu vontade de fazer um post sobre corações partidos, e buscas pelo amor e pelo Nome, História e Existência da gente.


10 comentários:

  1. Pois é Lu, eu me pergunto a mesma coisa: amo o meu amado ou amo o que sou e o que somos juntos? Amo a parte (ele) ou amo a soma das partes (nós)? Acho que amo a soma, aliás não a soma, mas o todo, aquele que não é apenas a soma das parte.
    Xi, será que estou "emo" como dizem seus alunos?

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  2. miranda, o corretor14 de maio de 2007 14:44

    O verdadeiro amor acaba nos transformando de diversas formas, então, na minha opinião é impossivel dissociar o que somos com quem amamos do que somos sós, porque do momento que amamos a simbiose entre ambos é total. (ufa!) miranda, o corretor

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  3. Isto é lindo e triste...

    Every time we say goodbye
    Cole Porter


    We love each other so deeply
    That I ask you this, sweetheart
    Why should we quarrel ever
    Why can't we be enough clever
    Never to part

    Ev'ry time we say goodbye
    I die a little
    Ev'ry time we say goodbye
    I wonder why a little
    Why the gods above me
    Who must be in the know
    Think so little of me
    They allow you to go

    When you're near
    There's such an air
    Of spring about it
    I can hear a lark somewhere
    Begin to sing about it
    There's no love song finer
    But how strange the change
    From major to minor

    Ev'ry time we say goodbye
    Ev'ry time we say goodbye
    I die a little
    Ev'ry time we say goodbye
    I wonder why a little
    Why the gods above me
    Who must be in the know
    Think so little of me
    They allow you to go

    When you're near
    There's such an air
    Of spring about it
    I can hear a lark somewhere
    Begin to sing about it
    There's no love song finer
    But how strange the change
    From major to minor
    Ev'ry time we say goodbye
    Ev'ry single time
    We say goodbye

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  4. Caki e Miranda,

    achoq ue é isso mesmo, né? A gente se faz e se monta e se embola mesmo. : -)

    um beijo grande.

    Clelia,
    poi sé... bonito e triste, mas bonito, né?

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  5. Cara Lu,

    Há um CD chamado “Canções, versões” (de Cole Porter & George Gershwin, por Carlos Rennó), que traz, na voz de Cássia Eller, a versão de “Every time we say goodbye”. Tentei ripá-la, pra você ouvir, mas não consegui... Segue, então, por enqto, a letra (imagine-a cantando):

    Toda vez que eu digo adeus
    Cole Porter (Versão: Carlos Rennó)


    Toda vez que eu digo adeus
    Eu quase morro
    Toda vez que eu digo adeus
    Aos deuses eu recorro
    Nenhum deus, contudo
    Parece me ouvir
    Eles vêem tudo
    E te deixam partir

    Quando estás, há só um ar
    De flor em volta
    Sabiás, de algum lugar
    Cantam o amor em volta
    Não há som melhor
    Mas seu tom
    Maior
    Se torna menor
    Toda vez que eu digo adeus

    bjo,
    Clé

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  6. Oh Lulu.
    Que coisa.

    Segue então o meu oi diário, em forma de escolha.
    Mas, a aminha admiração cresce por você : afinal Italo Calvino, que *todomundo* só conhece a partira das obras escirtas depois que ele moreu?!
    Só falta vc me dizer que a sua edição ainda é da Civilização Brasileira:-)
    Sei que vc ficará bem.
    Um ebijo
    meg

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  7. Meg,
    eu AMO essa trilogia do Calvino, são para mim os livros mais lindos dele. Mas minha edição é da companhia mesmo, acho que das primeiras,mas da companhia. :-)
    Um beijão minha querida amiga.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Depois de largar no meio "Se um viajante numa noite de inverno" e aquele de capa vermelha sobre os clássicos, eu tinha desistido de ler o Calvino.

    E agora leio esse post. Vou dar mais uma chance pro homem.

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  10. Marcio,
    adorei seu comentário. Tinha adorado os dois!! :-)

    Dê sim, mais uma chance, os livros dessa trilogia são os mais legais.

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