segunda-feira, 4 de junho de 2007

notícias da ocupação da reitoria

Ontem estive com amigos que estão a par do que está acontecendo na reitoria, e como esse virou um dos temas do blog, repasso a vocês o que me contaram.

O meninos e meninas não só não saíram da reitoria como também não dão sinais de que vão sair, o Sintusp - sindicato dos funcionários da USP, que também participa da ocupação - muito menos.

Muitos professores, principalmente, achavam que, após a revisão dos decretos feita pelo Serra, os alunos poderiam sair, foram dadas idéias, montar um circo ( literalmente) que circulasse pela USP, algo assim - alguns alunos apresentaram propostas nesse sentido, que foram rechaçadas, não entraram nem para a pauta de votação da assembléia.

Me explicaram que o movimento está crescendo, pela primeira vez, por exemplo, haverá uma assembléia dos alunos de direito, da São Francisco, sobre a possibilidade de fazer greve. Provavelmente eles não farão, mas só a discussão é em si um fato inédito. A greve está se fortalecendo, e também, a questão que fica é: se o governo cedeu, pode ceder mais; até onde irão as conquistas? Enfim, me explicaram que em política não se larga um movimento que está forte e crescente e conquistando coisas.

e eu falei: nossa, mas já há tantas vitórias, os alunos saíram de lá triunfalmente, a mídia favorável, e tal. E meu amigo respondeu algo que achei bacana: sim, de fato. E a maior vitória foi mostrar que um movimento de reivindicação pode sim conquistar coisas de fato.
é.

O risco que se corre é o de o movimento ser vencido por cansaço. E daqui um tempo, os alunos saírem de lá sem novas conquistas, vencidos por exaustão.


Me contaram que o clima lá dentro é bem bacana, há comissões para tudo, de alimentação, limpeza, e assim por diante. Os alunos fazem revezamento de quem fica para dormir, tudo é discutido em assembléia e de fato não há uma liderança, nem partidária, nem pessoal. Interessante isso, o Sintusp tem bastante influência mas esse é um movimento onde não há um comando de liderança. Parece que são todos muito disciplinados e, pelo que me disseram, há uma preocupação com o cuidado e manutenção do prédio. A agenda é cheia, festas, atividades e palestras todos os dias.

Pode-se visitar a ocupação, mas é necessário apresentar carteirinha da USP, de professor ou aluno.


Enfim, é isso.


ATUALIZAÇÃO:

posto aqui o comentário feito pelo meu querido Miranda, que é um leitor atento que tem um blog sensível, e que se colocou de um jeito firme e bastante ponderado a respeito dessa questão. Coloco no corpo do post os comentários dele, para que haja uma outra opinião aqui e acrescento o que eu responderia. O que ele escreveu fica em azul e o que eu respondi está em vermelho ( Miranda, fique à vontade para a tréplica, coloco aqui também!):

Lulu, deixa eu ver se eu entendi:

O fato de os estudantes fazerem nada mais do que o esperado, ou seja, palestras, comissões que tornem o processo mais organizado, torna algo ilegal que é a tomada de um bem público, de todos nós mais legitimo?

Não. Os alunos estão sim praticando um ato de desobediência civil. Eu, particularmente, acho bastante positivo e recebo com alívio as notícias de que esse ato é organizado, que não há depredações, que está-se procurando estabelecer reflexões sobre o processo e assim por diante. Você tem razão, esse é o esperado, mas infelizmente isso é raro em movimentos estudantis, é fácil a coisa se perder e cair em pura depredação e festa.

Agora, sobre a ilegalidade, ou a desobediência civil.

Eu coloquei há alguns dias, aqui, um link para um manifesto de um grupo de professores que discutiam justamente essa questão: até que ponto atos ilegais, de desobediência civil, são válidos ou não para reivindicações ou movimentos sociais, e como eles movimentam e movimentaram a história. Transcrevo aqui parte do manifesto, dizendo que me afilio à opinião desses professores, mas que essa opinião não representa o todo, e que há muitos professores que se posicionaram justamente de maneira contrária, condenando veementemente a ilegalidade do movimento. ( Vou procurar o outro lado desse diálogo e se encontrar, coloco aqui. ) Ou seja, nem eu nem você estamos sozinhos, meu querido Miranda. Aqui o manifesto, que argumenta melhor que eu conseguiria:

”Diante das manifestações de membros da comunidade acadêmica, inclusive de cientistas sociais, desqualificando a estratégia de desobediência civil e ação direta adotada pelos estudantes da Universidade de São Paulo que ocuparam a reitoria, gostaríamos de chamar atenção para alguns pontos.
Os críticos da ocupação enquanto estratégia argumentam que ela fere não apenas o princípio da legalidade, como também a civilidade e o diálogo e que, portanto, trata-se apenas de uma ação violenta, autoritária e criminosa.
As instituições civilizadas que esses críticos defendem, do voto universal para cargos legislativos até os direitos trabalhistas e as leis de proteção ambiental foram frutos de ações diretas, não mediadas pelas instituições democrático-liberais foram fruto de greves (num momento em que eram ilegais), de ocupações de fábricas, de bloqueios de ruas.
Não é possível defender o valor civilizatório destas conquistas que criaram pequenos bolsões de decência num sistema econômico e político injusto e degradante e esquecer das estratégias utilizadas para conquistá-las. Ou será que tais ações só passam a ser meritórias depois de assimiladas pela ordem dominante e quando já são consideradas inócuas?
As ações diretas que desobedecem o poder político não são um mero uso de força por aqueles que não detêm o poder, mas um uso que aspira mais legitimidade que as ações daqueles que controlam os meios legais de violência. Talvez fosse o caso de lembrar, mesmo para os cientistas sociais, que nossas instituições democrático-liberais são instrumentos de um poder que aspira o monopólio do uso legítimo da violência.
Há assim, na desobediência civil, uma disputa de legitimidade entre a ação legal daqueles que controlam a violência do poder do estado e a ação daqueles que fazem uso da desobediência reivindicando uma maior justiça dos propósitos.
Os críticos da ocupação da reitoria, em especial aqueles que partilham do mesmo propósito (a defesa da autonomia universitária;), podem questionar se a ocupação está conquistando, por meio da sua estratégia, legitimidade junto à comunidade acadêmica e à sociedade civil.Esse é um dilema que todos que escolhem este tipo de estratégia de luta têm que enfrentar e que os ocupantes estão enfrentando.
Mas desqualificar a desobediência civil e a ação direta em nome da legalidade e da civilidade das instituições é desaprender o que a história ensinou. Seria necessário também lembrar que mesmo do ponto de vista da legalidade, nossas instituições não vão tão bem?
Independente de como a ocupação da reitoria termine, ela já conseguiu seu propósito principal: fomentar a discussão sobre a autonomia universitária numa comunidade acadêmica que permaneceu apática por meses às agressões do governo estadual e que só acordou com o rompimento da ordem.

Leia o manifesto aqui.

( continuação ) :

O Miranda escreveu também:

"O fato de não ter uma liderança constituída, o que ao meu ver, é algo extremamente negativo porque sem liderança uma hora vai degringolar de vez, torna o movimento mais "romantico"?
Festas, palestras, falta de liderança parece-me que isso tudo mascara uma tremenda falta de objetividade por parte deste estudantes que até agora não levantaram um ponto importantissímo que é a democratização da Universidade pública e eu entendo por democratização o acesso por parte das camadas menos favorecidas que continuarão menos favorecidas enquanto seus filhos não tiverem acesso a USP, UNICAMP e outras.

Não, mas sem liderança há a possibilidade do movimento se tornar mais democrático e, pela primeira vez, não ser partidarizado - pois partidarização é diferente de politização - nem utilizado como propaganda ou meio de sei lá o quê por partidos, ou figuras que querem fazer carreira política. Acho interessante, por exemplo, o fato de que o DCE está fora dessa história toda.
Agora esse negócio de uma pauta de reivindicações que muda diariamente e que sempre aumenta é sim muito complicado, não se faz negociação assim; querer refazer a estatuinte da USP é uma loucura e acho um acinte o povo se colocar contra o jubilamento, por exemplo. Sim, as reivindicações e o mínimo exigido deviam ser mais claros, concordo com vc .

E sim, a questão da democratização da universidade pública é algo fundamental. E essa discussão envolve uma reforma urgente no ensino público fundamental e médio ( começando por aumento de sálário real dos professores, assim como suas condições de trabalho) ; envolve a discussão sobre as cotas, o processo do vestibular...

Esses garotos e garotas cheios de boas intenções, o Sintusp (não tão cheio de boas intenções assim concordo!), deveriam voltar a suas casa e aulas e outros afazeres e negociar com o governo de forma séria, organizada eles estão bastante sérios. . Não entendo como universitários tão capazes não encontrem outras formas de chamar atenção da opinião pública para os problemas que existem sim, mas cairão no esquecimento se esta ocupação absolutamente sem sentido (não sei... )continuar.

Então, eu inclusive achei que eles desocupariam a reitoria quando o Serra voltou atrás e reescreveu os tais decretos que colocavam em risco a autonomia universitária. E o fato é que a mídia nunca prestou tanta atenção nas universidades como ocorre agora, no sábado até o Estadão escreveu um editorial questionando os decretos. Geralmente as greves acontecem e só quem percebe são os pobres alunos, e os professores. Os problemas cairão no esquecimento, talvez, com ocupação ou sem ela, mas a ocupação os trouxe sim à tona.

Para finalizar, acho muito fácil antropólogos, sociólogos,doutores enfim produzirem artigos em cima de artigos apoiando a ocupação e tão poucas paginas acerca dos problemas referidos antes de ela ter acontecido. Sinceramente parece mais casuismo do que "pensar a universidade".
Há professores picaretas, e há professores muito sérios, que dedicam suas vidas e carreiras ao estudo da universidade, da militância ambiental, política, à democracia, ao ensino público. Vamos devagar com o andor, há um pensamento sobre a universidade e o ensino público dentro da universidade.Agora que as reflexões poderiam ser aprofundadas, dado o momento e as circunstâncias, isso é verdade.

Miranda

4 de Junho de 2007 14:28

um beijo grande Miranda
obrigada pelas suas colocações,
as quis respondê-las aqui justamente por achá-las bastante sensatas e pertinentes e considerar que elas expressam uma opinião diferente que também merece ser dicutida, com todo respeito, vc sabe.
Essa questão da desobediência civil é bem interessante e rende um debate longo!!
Lulu.

11 comentários:

  1. Lulu, você me foi apresentada internauticamente pela Cris do Eu Profundo, minha Cumadi muito querida de Niterói. Ela me deu seu link depois de um pito sobre um post meu rechaçando a ocupação da Reitoria da USP. Gostei muito do sua opinião e deixei, no corpo do texto, um link para o seu post a favor da manifestação.

    Eu nem te convido para ler o texto porque a minha opinião conta muito pouco e é de uma pessoa olhando a coisa de uma distância abissal do caso concreto e não concordando com a forma de combate ao desmando pela força - como tentei deixar claro em um adendo colocado.

    Mesmo assim, acredito ser de bom tom falar que coloquei o link.

    Abraço,

    Reilla.

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  2. miranda, o corretor4 de junho de 2007 14:28

    Lulu, deixa eu ver se eu entendi:

    O fato de os estudantes fazerem nada mais do que o esperado, ou seja, palestras, comissões que tornem o processo mais organizado, torna algo ilegal que é a tomada de um bem público, de todos nós mais legitimo?

    O fato de não ter uma liderança constituida, o que ao meu ver, é algo extremamente negativo porque sem liderança uma hora vai degringolar de vez torna o movimento mais "romantico"?

    Festas, palestras, falta de liderança parece-me que isso tudo mascara uma tremenda falta de objetividade por parte deste estudantes que até agora não levantaram um ponto importantissímo que é a democratização da Universidade pública e eu entendo por democratização o acesso por parte das camadas menos favorecidas que continuarão menos favorecidas enquanto seus filhos não tiverem acesso a USP, UNICAMP e outras.

    Esses garotos e garotas cheios de boas intenções, o Sintusp (não tem cheio de boas intenções assim), deveriam voltar a suas casa e aulas e outros afazeres e negociar com o governo de forma séria, organizada. Não entendo como universitários tão capazes não eoncontrem outras formas de chamar atenção da opinião pública para os problemas que existem sim, mas cairão no esquecimento se esta ocupação absolutamente sem sentido continuar.

    Paraq finalizar, acho muito fácil antropologos, sociologos,doutores enfim produzirem artigos em cima de artigos apoiando a ocupação e tão poucas paginas acerca dos problemas referidos antes de ela ter acontecido. Sinceramente parece mais casuismo do que "pensar a universidade".

    Miranda

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  3. eu sou a favor de qualquer movimento que invente uma nova forma de organização que seja não-autoritária, e inteligente.

    mas pra quem está vendo de longe (mesmo que lendo muito a respeito e apoiando simpaticamente, como eu) ficam duas impressões:
    1. eles perderam o momento de ceder, não tiveram maturidade pra isso e essa impressão de força é falsa. ou simplesmente estão se achando super-poderosos e não querem mesmo ceder.
    2. eles querem é forçar o confronto pra saírem como vi†imas, denunciando a truculência da polícia e do governo.

    no entanto eu ainda apoio, pois eles puseram em cheque muitas idéias pré-estabelecidas, isso é novo e é bom.

    me lembra a TABA na Unicamp, um movimento parecido de ocupação que conquistou a Moradia da Unicamp, que não existia e não teria existido sem eles.

    bjo
    :)

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  4. Isso tá me lembrando é a greve em Incidente em Antares do Érico Veríssimo, daqui a pouco morre povo e vai putrefar na reitoria e ainda contar as piores verdades dos figurões...hehehe

    Sei lá, eu de meu insignificante lugar nisso tudo digo que greve tem que ser bem feita ou não feita. Então, bem que eles fizeram de ficar, ou vãoa té o fim ou não vão.

    Se bem que nem sei direito qual o fim, espero que eles saibam.

    Abraço.

    Janaína

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  5. Lulu querida
    primeiro que tudo, muito, mas muito obrigada por você nos manter a par de tudo que pôde saber;
    Em segundo lugar, reafirmo mais uma vez, que somente quem está lá dentro é que pode decidir. Certo ou errado, neste caso já houve várias conquistas e algo que vc ressalbtou e que meuito especial : as coisas que acontecem pela primeira vez. Isso tornnas as pessoas como construtoras de seu caminho.

    Ah ! e queria dizer que - vc talvez já deva saber,, os professoras da Universidade Federal do Pará entraram em greve há uma semana.

    Ah! e eu fui convidada para dar um curso sobre leitura e literatura: o personagem infantiel.
    É importante pois lidaremos com o tema delicadíssimo da *criança*, ou seja, desconstrução da idéia de incocência etc etc etc...
    Um grande beijo.
    Estou, estamos atarefadíssima, anyway:-)
    ===
    Ontem quando vim comentar aí embaixo o blogspot ficou fora do ar, logo depois de eu ter comentado no post anterior a ele.
    beijos

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  6. miranda, o corretor5 de junho de 2007 17:08

    Putz, Lulu o que eu posso dizer como tréplica? Você é extremamente ponderada em suas colocações, são lúcidas e muito bem estruturadas. Acontece que ainda sim fico pensando com meus botões, ou com minhas fac´s (coisa de corretor isso) se a desobediencia civil é o melhor caminho. Veja eles podem e devem se organizar,pois possuem a inteligencia,as condições,o método, enfim, tem como faze-lo. Mas aqui, ao meu ver, temos um paradoxo: Organizar-se para desobedecer? por que não organizar-se para mudar, mas uma mudança permanente que passe por TODOS os problemas que afligem a Universidade e que faça no fim do processo emergir uma Universidade mais justa e igualitaria. Pensando profundamente sobree o tema, cheguei a conclusão que o que mais me incomoda nisso tudo é que estes moços e moças tão cheios de vida e sonhos tem uma capacidade incrivel de mobilização e deveriam correr atrás do possivel, mesmo que consigam um possivel por vez pois assim construiriam um legado, um verdadeiro legado que jamais seria apagado. Eles PODEM E DEVEM fazer isso, mas ao meu ver seguindo a leglidade sempre, pois nosso país não é injusto apenas com suas universidades concorda? E ai o que faremos vmos semear atos de desobediencia civil pra cada injustiça social?

    Um beijo e obrigado pelo sensivel. Alice ficou feliz também falou até em voltar.

    P.S Désculpe minha acentuação péssima... sei onde colocar cada um deles, mas acabam com meu racicinio...

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  7. sendo sucinta:
    Gosto muito de seu diário!

    um beijo
    Tita

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  8. Reilla,
    muito obrigada, pelo link, por ter vindo aqui me contar, bacanamesmo. Desculpe-me a demora em te responder aqui, como diz o Calvin, os dias andam simplesmente lotados!
    As nossas opiniões são sempre só as nossas opiniões, mas são o que mais valem, não é?
    um beijo,
    Lu.

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  9. Meg,
    ótimas notícias, ótimas.
    Sempre que souber de mais coisas, informo aqui.

    Janaína,

    a comparação me deu vontade de reler o Incidente em Antares, lie adorei mas faz tanto tempo que não lembro denada!! :-)
    Eu heim?

    Inter,
    ah.. espero que saia algo de fato de tudo isso daí...

    as manifestações inteligentes, e não autoritárias, que chamem atenção são mas mais difíceis, não é?
    beijos

    com eu carinho a todos,

    Lulu.

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  10. Miranda,

    adorei que a menção à Alice, e estou achando nosso diálogo muito bom! :-)
    tenho mias uma resposta que queria te dar, em forma de post!
    :-)
    beijos e beijos,

    Lu.

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